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A Ferida que Sangra em Silêncio: Dez Anos do Golpe que Quebrou o Brasil

 

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Golpe Nunca Mais · 10 Anos

A Ferida que Sangra em Silêncio:
Dez Anos do Golpe que Quebrou o Brasil

Havia 54 milhões de votos. Havia uma mulher na cadeira mais alta da República. Havia uma democracia — até que, em 2016, decidiram que havia algo mais importante do que o voto do povo.

PC

Padre Carlos

Colunista do Política e  Resenha

17 de abril de 2026

Leitura: 8 minutos

Havia uma voz que não conseguia parar de tremer. Era 31 de agosto de 2016, e Dilma Rousseff, de pé diante dos senadores que a julgavam, disse palavras que o vento das conveniências tentou apagar, mas que o tempo guardou como se guarda uma brasa sob cinzas: “Estou sendo julgada com base em argumentos que se desfazem ao contato com a verdade.” Ela tinha razão. E o Brasil, na sua maioria silenciada, sabia disso.

Dez anos depois, olhamos para aquele momento como se olhamos para uma cicatriz — a pele já fechou, mas a memória do corte permanece viva sob ela. O impeachment de Dilma Rousseff não foi apenas o afastamento de uma presidente. Foi a demonstração de que, quando o poder econômico, o poder midiático e o poder judiciário decidem agir em conjunto, a vontade de 54 milhões de eleitores pode ser dobrada, rasgada e descartada — com ternos bem cortados e discursos sobre legalidade.

O Crime que Não Era Crime

Comecemos pelo fato central — e é um fato, não opinião. As chamadas “pedaladas fiscais”, o pretexto técnico usado para destituir a presidente, eram uma prática contábil adotada por governadores de todos os estados e por presidentes anteriores, sem que nenhum deles jamais tivesse sido ameaçado de impedimento por isso. O próprio Tribunal de Contas da União, em decisões posteriores, reconheceu a inconsistência jurídica das acusações. Não havia crime de responsabilidade. Havia, sim, um presidente da Câmara investigado por corrupção conduzindo o processo. Havia senadores sob investigação votando pelo afastamento de quem nunca foi formalmente acusada de enriquecer ilicitamente.

Pense nisso por um segundo. Não havia dinheiro desviado. Não havia conta no exterior. Não havia propina. Dilma Rousseff, a mulher que foi presa e torturada pela ditadura militar, que sobreviveu ao pau de arara e ao choque elétrico para lutar por um país mais justo, foi retirada do poder por uma manobra contábil que nunca fez dinheiro público sumir de lugar algum.

“Não existe golpe bonito. Não existe ruptura democrática com boas maneiras. Existe sempre um momento em que as instituições são dobradas para servir aos interesses de quem as controla — e esse momento, no Brasil, foi agosto de 2016.”

— Da análise política do próprio processo

A Mídia que Escolheu um Lado

Havia câmeras em todos os lugares. E as câmeras, como é sabido, não mentem — mas escolhem o que mostrar. Durante meses, as principais emissoras e jornais do país transformaram o processo de impedimento num espetáculo de catarse moral coletiva. Manchetes alardeavam o fim da corrupção. Comentaristas comemoravam como se uma doença terminal finalmente tivesse cedido à cura. E o povo — parte dele — acreditou, porque o povo acredita naquilo que ouve repetido mil vezes com o tom de quem está dizendo a verdade.

Mas havia uma inconsistência gritante que o volume dos estúdios abafava: os mesmos veículos que clamavam por moralidade jamais cobriram com a mesma intensidade as delações que envolveriam, meses depois, os próprios articuladores do impeachment. Michel Temer, o vice que assumiu em seguida, foi gravado combinando pagamento de silêncio a um delator. Aécio Neves, o candidato derrotado cujas denúncias de fraude eleitoral pavimentaram o clima da crise, foi flagrado pedindo dinheiro de mala. Rodrigo Maia. Renan Calheiros. Eduardo Cunha, o maestro de todo o processo, preso meses depois com dinheiro em conta na Suíça.

O teatro da moralidade durou pouco. A corrupção que diziam combater continuou — apenas mudou de endereço.

O Que Foi Destruído em Seguida

Muitos que comemoraram o impeachment — nas ruas vestindo verde e amarelo, nas redes sociais, nos editoriais entusiasmados — talvez não tenham percebido, naquele momento, o que estava sendo desmontado junto com o mandato de Dilma. Não era apenas um governo. Era um projeto de inclusão social que havia tirado 36 milhões de brasileiros da extrema pobreza. Era o Bolsa Família, que Temer não extinguiu porque não tinha como. Era o Mais Médicos, o Ciência sem Fronteiras, o Fies ampliado, o Minha Casa Minha Vida.

Em menos de dois anos de governo Temer, veio a PEC 55 — a emenda do teto de gastos que congelou por vinte anos os investimentos em saúde e educação. Veio a reforma trabalhista que desfez décadas de proteção ao trabalhador. Veio o desmonte das agências reguladoras. Veio o encolhimento do Estado brasileiro como instrumento de desenvolvimento. E veio, depois, o que todos sabemos: a ascensão ao poder de um projeto autoritário que, em quatro anos, testou todos os limites da Constituição de 1988.

O golpe de 2016 não foi o fim da história. Foi o prólogo de um pesadelo que o Brasil ainda está digerindo.

Lula, ao assumir pela terceira vez a presidência, em 1º de janeiro de 2023:

“Eles tentaram nos enterrar. Não sabiam que éramos sementes.”

— Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República

A Mulher que Não Pediu Perdão

Há uma cena que fica. No dia em que foi notificada do seu afastamento definitivo, Dilma Rousseff não chorou em público. Não implorou. Não negociou. Saiu do Palácio do Planalto de cabeça erguida — a mesma cabeça que não baixou sob tortura décadas antes. Essa imagem, que a mídia tentou minimizar, diz mais sobre caráter do que qualquer discurso poderia dizer.

Ela voltou ao Rio Grande do Sul. Deu aulas. Escreveu. Seguiu sendo quem sempre foi — uma mulher de convicções que aprendeu na pior escola possível, a escola da repressão e da dor, que existem coisas pelas quais vale a pena lutar mesmo quando tudo indica que se vai perder. Em 2023, Lula a nomeou para a presidência do Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos BRICS, um posto de projeção internacional que o destino reservou como resposta irônica e justa àqueles que pensavam tê-la silenciado para sempre.

A história tem uma forma peculiar de fazer justiça com atraso. Quando faz, faz com ênfase.

Por Que Isso Ainda Importa Hoje

Alguém poderia perguntar: por que revisitar 2016? O Brasil já passou por muita coisa desde então. Passou pelo governo Bolsonaro, pela pandemia, pelo 8 de janeiro, pela eleição de 2022 que foi, ela mesma, um ato de resistência democrática. Por que insistir numa ferida antiga?

Porque feridas não curadas infeccionam. Porque um país que não entende como foi manipulado está condenado a ser manipulado de novo. Porque as mesmas forças que articularam 2016 — o poder financeiro descontente com um Estado redistributivo, a mídia concentrada que serve a interesses específicos, o judiciário seletivo que aplica a lei com pesos diferentes para pessoas diferentes — essas forças não desapareceram. Elas aprenderam, se reorganizaram, aguardam.

A memória do golpe não é nostalgia. É vacina. É o exercício político mais fundamental que uma sociedade democrática pode praticar: lembrar de como foi, para reconhecer quando estiver acontecendo de novo.

“Democracia não é um estado permanente. É uma conquista diária, que se perde exatamente quando o povo para de acreditar que ela pode ser roubada.”

— Reflexão sobre o processo democrático brasileiro

O Voto que Não Se Apaga

Foto Oficial Presidenta Dilma Rousseff. Foto: Roberto Stuckert Filho.

Cinquenta e quatro milhões, trezentos e oi mil e quinhentos e trinta e dois votos. Esse número não é abstrato. Por trás de cada um desses votos havia uma pessoa — um trabalhador da construção civil, uma professora da rede pública, uma enfermeira do interior do Nordeste, um aposentado que viu a classe média crescer e sua família ter acesso a coisas que antes eram privilégio de poucos. Cada um desses votos foi depositado com a crença de que, nesta República, o voto conta. De que a maioria decide. De que a democracia não é apenas um nome bonito gravado em bronze na fachada do Congresso.

Quando aqueles senadores levantaram a mão para votar pelo afastamento de Dilma — muitos deles com processos na Justiça, muitos deles beneficiados politicamente pela mudança de governo — estavam dizendo, implicitamente, que esses 54 milhões de votos valiam menos do que os seus interesses. Estavam dizendo que o jogo democrático tem uma cláusula de escape: funciona quando o resultado é conveniente, e pode ser suspenso quando não é.

Isso não é democracia. Isso é teatro de democracia com panos de fundo de legalidade.

E o povo brasileiro — teimoso, resiliente, com a memória que o poder subestima — não esqueceu. Em 2022, nas urnas, respondeu. Não com violência, não com revolta, mas com aquela arma simples e devastadora que é o voto consciente. E escolheu, de volta, o projeto que o golpe tentou matar.

Dez anos. Uma década de lição. Aprendemos — alguns de nós, ao menos — que democracia não é mobília de sala, exposta para visita e preservada para não usar. É instrumento de vida cotidiana, que enferruja se não for exercido com vigilância, com indignação e com amor. O golpe de 2016 deixou uma cicatriz. Mas cicatrizes, dizem os que sobreviveram à dor, são o mapa de onde já se esteve — e a prova de que se sobreviveu. Golpe nunca mais. Não como slogan. Como juramento.

PC

Padre Carlos

Colunista de Política, Democracia e Direitos Fundamentais

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Golpe 2016
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Dilma Rousseff
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PT Brasil
Memória Política

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