Por Padre Carlos
Ao analisar a sucessão estadual na Bahia, é impossível negar um fato político evidente: ACM Neto continua sendo a principal liderança da oposição baiana. Sua trajetória como ex-prefeito de Salvador, sua experiência política acumulada em Brasília e sua reconhecida capacidade de articulação o colocam como um dos mais competitivos nomes da política estadual.
As pesquisas divulgadas até o momento mostram que ACM Neto aparece em posição de destaque na disputa pelo governo estadual, liderando diversos cenários eleitorais. Entretanto, quem acredita que a eleição está decidida comete um erro que a própria história política da Bahia recomenda evitar.
Conheço o Partido dos Trabalhadores desde sua fundação. Vi o partido nascer como uma legenda ideológica, marcada por um discurso de transformação social e forte identidade de esquerda. Contudo, o PT que governa a Bahia há quase duas décadas não é mais o mesmo partido dos seus primeiros anos.
O exercício do poder transformou profundamente a sigla.
Ao longo de quase vinte anos administrando o Estado, o PT aprendeu aquilo que os antigos grupos políticos dominavam com maestria: a arte da construção de alianças, da ocupação estratégica dos espaços institucionais e da formação de uma ampla rede de sustentação política.
Se durante muitos anos o carlismo foi referência na utilização eficiente dos instrumentos da política, hoje o PT baiano demonstra ter assimilado boa parte dessas lições.
Não se trata de uma crítica moral nem de um elogio. Trata-se apenas de uma constatação política.
O partido abandonou parte do seu antigo purismo ideológico e passou a atuar de forma pragmática. Fez alianças improváveis, acomodou interesses diversos e construiu uma máquina política robusta, presente em centenas de municípios, sindicatos, movimentos sociais, lideranças locais e estruturas administrativas.
É exatamente por isso que me chama atenção a confiança demonstrada pela direção petista ao estruturar uma chapa predominantemente formada por nomes do próprio partido. A decisão sugere que seus estrategistas acreditam possuir musculatura eleitoral suficiente para sustentar um projeto mais autônomo de poder. Analistas políticos observam que o grupo governista mantém uma estrutura consolidada construída ao longo de sucessivos governos estaduais.
E aqui está o ponto central da reflexão.
Muitos observadores olham apenas para os números das pesquisas. Eu prefiro observar também o comportamento dos dirigentes partidários.
Partidos que vivem exclusivamente de pesquisas podem cometer erros. Mas grupos políticos que permanecem quase vinte anos no poder costumam tomar decisões depois de muitas avaliações, muitos cálculos e incontáveis conversas de bastidores.
Isso não significa que a vitória governista esteja garantida.
Longe disso.
ACM Neto possui atributos que nenhum adversário pode ignorar. Sua administração em Salvador deixou marcas administrativas reconhecidas por parte expressiva do eleitorado, sua comunicação política é eficiente e sua capacidade de mobilização permanece relevante. Além disso, continua sendo a principal referência oposicionista na Bahia.
Mas é justamente por enfrentar um adversário experiente que a oposição não pode cometer o erro da autoconfiança excessiva.
O PT baiano já não é um partido aprendiz do poder.
É um partido profissionalizado na disputa eleitoral.
Aprendeu a ocupar espaços, a construir alianças, a formar lideranças regionais e a utilizar os mecanismos da política institucional com grande eficiência. Em muitos aspectos, assimilou práticas que durante décadas foram associadas ao próprio carlismo.
Por isso, se eu estivesse no lugar de ACM Neto, manteria as barbas de molho.
A eleição continua aberta.
A oposição tem chances reais de vitória.
Mas quem imagina que enfrentará um adversário enfraquecido talvez esteja olhando para a Bahia de vinte anos atrás.
A Bahia de hoje é outra.
E o PT que governa o Estado também.
A grande questão de 2026 talvez não seja apenas saber quem lidera as pesquisas agora. A verdadeira pergunta é se a força eleitoral de ACM Neto será suficiente para superar uma estrutura política que passou quase duas décadas aprendendo, aperfeiçoando-se e consolidando seu projeto de poder.
Essa é a disputa que realmente definirá o futuro político da Bahia.




