Política e Resenha

ARTIGO – A Metade que Grita e a Metade que Silencia

 

 

Padre Carlos

 

Existe uma batalha silenciosa acontecendo dentro de quase todas as pessoas que cruzamos na rua. Ela não aparece nas fotografias das redes sociais, não surge nos currículos profissionais e raramente é confessada nas conversas cotidianas. É uma guerra íntima, travada entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos até de nós mesmos.

Talvez seja por isso que os versos de Oswaldo Montenegro continuem atravessando gerações. Eles não falam apenas de um homem. Falam de todos nós.

Vivemos em uma época que exige certezas. As redes sociais premiam opiniões absolutas. A política se alimenta de polarizações. A cultura da produtividade vende a ilusão de que devemos ser fortes o tempo inteiro. Mas a verdade é outra. Somos feitos de contradições.

Metade de nós é coragem.

A outra metade é medo.

Metade é esperança.

A outra metade é dúvida.

Metade é fé.

A outra metade é um interminável questionamento.

O ser humano não é uma construção acabada. Somos uma obra em andamento. Um edifício onde convivem os andares iluminados e os porões escuros. E talvez a maior maturidade não esteja em eliminar nossas fragilidades, mas em aprender a conviver com elas.

Quando o poeta pede que o medo não o impeça de enxergar aquilo que deseja, ele revela um drama universal. Quantos sonhos foram abandonados não por falta de talento, mas pelo medo? Quantos projetos morreram antes mesmo de nascer? Quantos amores nunca foram vividos porque alguém teve receio de sofrer?

O medo é um dos sentimentos mais antigos da humanidade. Ele protege, mas também aprisiona. É um guarda que deveria vigiar a porta, mas frequentemente assume o controle da casa inteira.

E então surge a solidão.

Talvez uma das palavras mais presentes no mundo moderno. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, paradoxalmente, tão distantes emocionalmente. Conversamos com centenas de pessoas e, ao mesmo tempo, carregamos a sensação de que ninguém realmente nos conhece.

O poeta fala do espelho. E o espelho é cruel porque não reflete apenas o rosto. Ele reflete o tempo. Reflete as escolhas. Reflete aquilo que fomos e aquilo que deixamos de ser.

Quem nunca procurou no próprio olhar o sorriso perdido da infância?

Quem nunca desejou reencontrar aquela leveza que parecia natural quando a vida ainda não havia cobrado tantas contas emocionais?

Mas há uma esperança escondida no texto.

Ela aparece quando a arte é mencionada.

A arte continua sendo uma das últimas moradas da alma humana. Quando a política decepciona, quando a economia aperta, quando os relacionamentos falham e quando as respostas desaparecem, a arte permanece. Uma música, um poema, uma fotografia ou uma simples lembrança podem fazer aquilo que nenhuma teoria consegue: tocar o coração.

E talvez seja exatamente aí que esteja a grande mensagem.

Não somos obrigados a resolver todos os mistérios da existência.

Não precisamos compreender completamente nossas dores para continuar caminhando.

Não precisamos eliminar todas as nossas contradições para merecer felicidade.

Somos feitos de pedaços.

De memórias.

De ausências.

De saudades.

De fracassos.

De recomeços.

Somos a soma das nossas cicatrizes e dos nossos sonhos.

Em um mundo que insiste em exigir perfeição, talvez o verdadeiro ato de coragem seja aceitar nossa humanidade. Reconhecer que dentro de nós existe um vulcão e também um abrigo. Existe o cansaço e existe o amor. Existe a lágrima e existe o sorriso.

E quando finalmente compreendemos isso, descobrimos algo extraordinário: não somos divididos em duas metades inimigas.

Somos inteiros justamente porque carregamos ambas.

Talvez por isso o verso final continue ecoando como uma oração para o nosso tempo.

Porque depois de todas as perdas, de todos os medos, de todas as dúvidas e de todas as batalhas interiores, resta aquilo que realmente importa.

Metade de mim é amor.

E a outra metade também.