Política e Resenha

ARTIGO — DONA DETE: QUANDO UMA VIDA SE TRANSFORMA EM PATRIMÔNIO DE UMA CIDADE

Padre Carlos

 

Há pessoas que passam pela vida.

Outras deixam marcas.

E existem aquelas raras almas que se confundem com a própria história do lugar onde viveram. Quando partem, não é apenas uma família que chora. É uma cidade inteira que sente que perdeu um pedaço de si mesma.

Foi assim que recebi a notícia da partida de Bernadete Santos Souza, nossa querida Dona Dete.

Aos 99 anos, ela encerra sua caminhada terrena e ingressa naquele mistério que a fé chama de eternidade. Mas há vidas que não conhecem o verdadeiro fim. Permanecem vivas nas lembranças, nos exemplos, nos gestos e nas obras que deixaram espalhadas pelo caminho.

Nascida em São Miguel das Matas, no coração do Recôncavo Baiano, Dona Dete chegou a Vitória da Conquista trazendo na bagagem algo que não se compra nem se aprende nos bancos das universidades: a coragem de recomeçar.

Ao lado do esposo, Felinto de Souza, ela ajudou a construir uma história que se mistura ao desenvolvimento econômico conquistense. Não se tratava apenas de abrir um comércio. Era um tempo em que empreender significava apostar o futuro da família em uma ideia, enfrentar dificuldades, superar crises e acreditar quando quase ninguém acreditava.

A antiga Lanchonete Santa Teresinha não era apenas um estabelecimento comercial. Era um ponto de encontro de histórias, de amizades, de sonhos e de gerações.

Mais tarde vieram a Panvicon Panificadora e o Panvicon Center, empreendimentos que se tornaram referências e ajudaram a movimentar a economia local, gerando empregos, oportunidades e contribuindo para o crescimento de Vitória da Conquista.

Mas talvez o maior legado de Dona Dete não esteja nos prédios construídos, nas empresas fundadas ou nos números alcançados.

Seu maior legado está nas pessoas.

Está nos filhos que herdaram a mesma vocação empreendedora e expandiram os negócios da família, criando marcas que hoje fazem parte da paisagem econômica da cidade.

Está nos funcionários que encontraram trabalho e dignidade.

Está nos clientes que foram acolhidos ao longo de décadas.

Está nos amigos que receberam seu carinho.

Está na comunidade que testemunhou sua fé.

Porque uma vida verdadeiramente grande não é medida pelo patrimônio que acumula, mas pelas sementes que planta.

E Dona Dete plantou muitas.

Ao ler a nota divulgada pela família, uma frase chama profundamente a atenção:

“Deixa um legado eterno de amor em nossos corações.”

Talvez nenhuma definição seja mais precisa.

O amor é a única herança que o tempo não consegue corroer.

Os prédios envelhecem.

As empresas mudam.

Os negócios se transformam.

Mas o amor permanece.

Permanece nas fotografias guardadas.

Nas histórias contadas pelos netos.

Nas lembranças que atravessam gerações.

Nas lágrimas que hoje escorrem silenciosamente dos olhos daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Como devota de Nossa Senhora das Vitórias, Dona Dete certamente compreendia que a vida é uma travessia.

Uma passagem.

Uma peregrinação entre o nascimento e o encontro definitivo com Deus.

Hoje, a comunidade Miguelense e a cidade de Vitória da Conquista despede-se de uma de suas grandes pioneiras.

Mas não se despede de sua memória.

Porque existem pessoas que, ao partir, continuam presentes.

Continuam nas ruas que ajudaram a desenvolver.

Nos empreendimentos que inspiraram.

Nos valores que ensinaram.

Nos exemplos que deixaram.

E sobretudo nos corações que tocaram.

Que Deus a receba com a mesma ternura com que ela acolheu tantos durante sua longa caminhada.

E que Vitória da Conquista saiba preservar a memória daqueles homens e mulheres que, vinheram de outras cidades e com trabalho silencioso, fé inabalável e espírito empreendedor, ajudaram a construir a cidade que conhecemos hoje.

Dona Dete partiu.

Mas sua história permanece.

E permanecerá enquanto houver alguém para contar às novas gerações que existiu uma mulher que transformou trabalho em legado, fé em inspiração e vida em exemplo.

À família, aos amigos e a todos os que sofrem com sua partida, deixo minha solidariedade e minhas orações.

Porque algumas despedidas não cabem nas palavras.

Elas habitam o silêncio respeitoso da gratidão.