Bahia 2026: por que ACM Neto chega mais forte do que em 2022

Cinco fatores — aritméticos, políticos e emocionais — explicam por que a disputa pelo Palácio de Ondina não é uma simples repetição do último pleito.
Por Padre Carlos | Política e Resenha | 20 de junho de 2026
A
disputa pelo governo da Bahia em 2026 promete ser, segundo tudo o que os números indicam, uma das mais apertadas da história recente do estado. Mas apertada não significa equilibrada da mesma forma como foi em 2022. Há um conjunto de fatores que tornam Antônio Carlos Magalhães Neto um candidato estruturalmente mais forte hoje do que era há quatro anos, quando perdeu a eleição para Jerônimo Rodrigues por uma margem que, à época, pareceu confortável — e que, examinada com atenção, nunca foi tão sólida quanto se imaginou.
A aritmética apertada de 2022
No segundo turno de 2022, Jerônimo Rodrigues venceu com 52,79% dos votos válidos contra 47,21% de ACM Neto. Em votos absolutos, a diferença ficou em torno de 475 mil — um número que, espalhado por mais de 8,4 milhões de votos válidos, representa pouco mais de cinco pontos percentuais. Foi uma vitória real, mas estreita, construída sobre uma base de apoio menos sólida do que o resultado final sugeriu.
Segundo turno — governo da Bahia, 2022
A direita se reunifica: o retorno de João Roma
A primeira grande diferença para 2026 está no primeiro turno de 2022. Naquele ano, ACM Neto teve à sua direita um adversário próprio: João Roma, então apoiado por Jair Bolsonaro, que tirou 9,08% dos votos válidos — 738.311 votos que, em sua quase totalidade, pertenciam ao mesmo campo político de ACM Neto. O resultado foi um campo de oposição dividido logo na primeira etapa da disputa. Para este ano, Roma e ACM Neto caminham juntos na mesma chapa, o que devolve a Neto, de saída, um contingente de eleitores que em 2022 ficou disperso.
Primeiro turno — governo da Bahia, 2022
Somados, ACM Neto e João Roma já alcançavam, isoladamente, 49,88% no primeiro turno de 2022 — praticamente empatados com Jerônimo, mesmo divididos.
A fratura no campo governista: o caso do senador Ângelo Coronel
O segundo movimento é, em certo sentido, espelhado. Ao montar uma chapa majoritária composta apenas por nomes do PT — Jerônimo para a reeleição, Jaques Wagner e Rui Costa disputando as duas vagas do Senado — o partido excluiu o senador Ângelo Coronel, do PSD, que vinha integrando a base aliada desde 2018. Coronel deixou o partido e se aproximou do campo de oposição, justamente no momento em que ACM Neto reorganiza sua própria coalizão. O próprio presidente estadual do PSD, senador Otto Alencar, resumiu o risco da escolha do PT em uma frase que circulou amplamente:
“Chapa carniça pode dar problema”, advertiu o senador Otto Alencar sobre a composição puramente petista da chapa governista ao Senado.
Não é um detalhe menor. Um senador com mandato em exercício, que até pouco tempo integrava a base de Jerônimo, migrar para o entorno de ACM Neto representa exatamente o tipo de fratura que historicamente decide eleições apertadas no interior do estado.
O dado que sustenta a tese
O voto que sobra: a lacuna entre Lula e Jerônimo
Em 2022, Lula obteve 69,73% dos votos válidos na Bahia no primeiro turno e 72,12% no segundo. No mesmo segundo turno, na disputa estadual, Jerônimo Rodrigues ficou em 52,79%. A diferença — quase vinte pontos percentuais — é o tamanho do eleitorado que votou em Lula para presidente, mas não necessariamente em Jerônimo para governador. Esse contingente não pertence a nenhum dos dois candidatos por definição: ele está em aberto, e é exatamente o espaço que ACM Neto precisa ocupar para tornar sua vitória, mais do que possível, provável.
O sentimento de mudança e o que mostram as pesquisas de 2026
Some-se a isso um quarto elemento, mais difícil de quantificar, mas presente em praticamente todo o interior baiano: um sentimento real de desgaste com a atual gestão. Os levantamentos divulgados ao longo de 2026 — de institutos diferentes, com metodologias diferentes — convergem na mesma direção: ACM Neto na frente, com margem que oscila, mas não desaparece.
Pesquisas de intenção de voto — governo da Bahia, 2026
Séculus / Bahia Notícias — março de 2026
Instituto Veritá — abril de 2026
Paraná Pesquisas — maio de 2026
O que unifica esse eleitorado disperso — o eleitor histórico da direita, o eleitor que rompeu com o PT pela via do senador Ângelo Coronel e a parcela do eleitorado de Lula que não seguiu Jerônimo no estado — não é necessariamente uma pauta ideológica fechada. É, sobretudo, o desejo de um governo mais eficiente do que o atual. Esse é o terreno onde a eleição de outubro será, de fato, decidida.
| Fator | O que mudou desde 2022 |
|---|---|
| Unidade da direita | João Roma, antes candidato próprio (9,08%), hoje integra a chapa de ACM Neto. |
| Fratura governista | Senador Ângelo Coronel deixou a base aliada após a chapa “puro-sangue” do PT. |
| Margem estreita em 2022 | A vantagem de Jerônimo no 2º turno (52,79% a 47,21%) foi menor do que pareceu na época. |
| Lacuna do voto Lula | Cerca de 19 pontos do eleitorado de Lula na Bahia não seguiram Jerônimo no estadual. |
| Sentimento de mudança | Pesquisas de 2026 mostram ACM Neto consistentemente na frente, em institutos distintos. |
Uma eleição que se decide na margem da eficiência
Nenhum desses fatores, isoladamente, garante uma vitória. Pesquisa de junho não é urna de outubro, e a Bahia já demonstrou, em 2022, sua capacidade de surpreender quem confia demais nos números de véspera. Mas a soma dos elementos — unidade da direita, fratura no campo governista, uma vitória anterior mais estreita do que se lembra e uma lacuna real entre o voto em Lula e o voto em Jerônimo — desenha um quadro estrutural diferente do de quatro anos atrás. Falta, ainda, a essa narrativa de “governo mais eficiente” alguma substância concreta, capaz de se traduzir em vida melhor para quem mora longe de Salvador. É nesse ponto, e não apenas nas pesquisas, que a disputa de outubro vai mesmo se decidir.
Eleições 2026
ACM Neto
Jerônimo Rodrigues
Ângelo Coronel
Pesquisas Eleitorais
Política Baiana
Padre Carlos — Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha




