Política e Resenha

CRÔNICA – Zico, o Samurai de Quintino, e o “Pulo do Gato”

 

 

Padre Carlos

Há mestres que ensinam uma profissão. Outros ensinam uma arte. E há aqueles que mudam o destino de um povo.

Quando o Japão resolveu aprender futebol, foi buscar um professor na única universidade capaz de ensinar a matéria com paixão: o Brasil. E foi justamente um dos maiores camisas 10 que o mundo conheceu quem desembarcou na Terra do Sol Nascente para escrever um capítulo inesquecível dessa história.

Zico levou muito mais do que técnica. Levou uma filosofia. Levou alegria. Levou improviso. Levou disciplina sem matar a criatividade. Ao lado de seu irmão, Edu Coimbra, ajudou a plantar as sementes de um futebol moderno, organizado e competitivo. Não estavam apenas treinando jogadores. Estavam formando uma cultura.

Décadas depois, o mundo colhe os frutos.

O Japão já não é mais aquela seleção simpática que entrava em campo apenas para participar. Hoje joga de igual para igual contra qualquer potência. Tem velocidade, inteligência tática, preparo físico invejável e uma disciplina coletiva que impressiona até os mais experientes comentaristas.

Nesta Copa do Mundo, os japoneses mostraram exatamente isso. Confirmaram que o antigo aprendiz virou um adversário respeitado. E agora o destino resolveu escrever uma dessas histórias que só o futebol é capaz de produzir.

Nas oitavas de final, o mestre reencontra o discípulo.

O Brasil terá pela frente justamente a seleção que ajudou a nascer para o grande futebol mundial.

É impossível não sorrir diante dessa ironia do destino. Os brasileiros ensinaram os japoneses a jogar bola. Agora terão de provar que continuam sabendo jogar melhor.

Mas há uma esperança que mora no coração de cada torcedor brasileiro.

Esperamos, sinceramente, que Zico não tenha ensinado o “pulo do gato”.

A velha expressão popular significa guardar o segredo mais importante, aquele detalhe invisível que transforma um bom aluno em um mestre. É a carta escondida na manga. O truque decisivo. A jogada que só aparece na hora em que tudo parece perdido.

Que Zico tenha ensinado o passe, o drible, a visão de jogo, a disciplina, a organização e até a elegância dos samurais com a bola nos pés.

Mas que tenha guardado, bem escondido no coração rubro-negro e verde-amarelo, esse último segredo.

Porque, quando a bola rolar, será bonito ver o Japão mostrar tudo o que aprendeu.

Só esperamos que, na hora decisiva, o verdadeiro pulo do gato continue sendo patrimônio exclusivo do futebol brasileiro.