Política e Resenha

ARTIGO – O Pão ou o Palco? O Custo da Vaidade Pago com o Dinheiro do Povo

 

Por Padre Carlos

 

Há momentos em que um episódio aparentemente banal revela uma doença muito mais profunda da administração pública brasileira.

O cancelamento do show do cantor Gusttavo Lima em Surubim, Pernambuco, depois de um cachê de R$ 1.353.000,00 já contratado pela prefeitura, expôs muito mais do que uma justificativa médica. O artista alegou uma intoxicação alimentar e, em linguagem popular, disse estar com uma “caganeira”. A doença pode atingir qualquer pessoa. Isso não está em discussão.

O verdadeiro problema é outro.

O que deveria causar indignação nacional não é apenas o cancelamento do espetáculo. É o fato de uma prefeitura considerar razoável retirar mais de um milhão e trezentos mil reais dos cofres públicos para entregar a um único artista, enquanto milhares de brasileiros aguardam meses por uma consulta médica, escolas enfrentam dificuldades estruturais, bairros convivem com ruas esburacadas e famílias dependem de serviços públicos precários.

Quando um prefeito coloca um cheque dessa dimensão nas mãos de um cantor, precisa responder a uma pergunta simples: esse era realmente o melhor investimento para o povo?

Governar é escolher prioridades.

E quem escolhe o entretenimento milionário em detrimento das necessidades essenciais demonstra uma compreensão bastante discutível do que significa administrar recursos públicos.

O prefeito de Surubim reagiu com indignação, exigindo a devolução do dinheiro e afirmando que o cantor faltou com respeito à população. Caso os termos do contrato prevejam ressarcimento diante do cancelamento, a prefeitura deve buscar os meios legais para garantir que o erário não seja prejudicado. É exatamente para isso que existem contratos, fiscalização e controle.

Mas também é preciso reconhecer que o gestor público não foi uma vítima do acaso. Foi ele quem decidiu assumir o compromisso financeiro. Foi ele quem escolheu transformar um show em prioridade orçamentária.

O artista vende seu trabalho. Quem compra é o poder público.

E aí surge uma pergunta ainda mais desconfortável.

Por que tantos prefeitos disputam artistas que cobram cifras milionárias? A resposta talvez esteja menos na cultura e mais na política. Grandes shows produzem imagens, multidões, redes sociais movimentadas e a sensação de uma administração “popular”. Mas festa não substitui políticas públicas.

Uma cidade não se desenvolve porque recebeu um cantor famoso durante duas horas.

Desenvolve-se quando oferece saúde, educação, saneamento, segurança e oportunidades.

Infelizmente, parte do eleitorado também precisa fazer um exame de consciência. Enquanto houver aplausos para administrações que distribuem milhões em cachês e deixam hospitais sem equipamentos, haverá políticos convencidos de que o espetáculo rende mais votos do que o trabalho silencioso.

O povo precisa decidir se quer ser tratado como cidadão ou apenas como plateia.

Não se governa um município apenas com fogos de artifício, palcos gigantes e artistas famosos.

Quem administra dinheiro público deve lembrar que cada real gasto pertence ao contribuinte, ao trabalhador, ao aposentado, ao pequeno comerciante e ao agricultor. É dinheiro que saiu do suor de milhões de brasileiros.

A questão nunca foi a diarreia do cantor.

A verdadeira enfermidade está na cultura política que transforma dinheiro público em palco de vaidades.

Enquanto hospitais esperam recursos, escolas precisam de investimentos e famílias lutam por atendimento digno, talvez seja hora de perguntar: quem realmente está doente?

Porque cuidar do povo nunca será oferecer circo quando falta o pão.