Política e Resenha

ARTIGO – Eu Não Ia Mais Escrever Sobre a Derrota do Brasil. Até Conversar com Wilton Cunha.

 

 

Padre Carlos

 

Havia tomado uma decisão: não escreveria mais sobre a eliminação da Seleção Brasileira. Afinal, o assunto já parecia exausto. Especialistas, ex-jogadores, comentaristas e torcedores já haviam apontado culpados, distribuído críticas e ensaiado soluções.

Mas uma conversa com meu amigo Wilton Cunha mudou completamente minha percepção.

Mais do que comentar a derrota do Brasil, Wilton me fez enxergar algo muito maior. Nossa conversa deixou claro que o problema não está apenas nos jogadores, no treinador ou na Confederação Brasileira de Futebol. A eliminação da Seleção é apenas a face mais visível de uma crise de gestão que se arrasta há décadas.

Enquanto eu insistia em olhar para o resultado de uma partida, Wilton olhava para o modelo de organização do futebol brasileiro. E foi justamente essa mudança de perspectiva que deu origem a este artigo, construído, de certa forma, em quatro mãos.

Uma das primeiras observações feitas por ele foi brilhante.

“Não podemos misturar as coisas”, disse. “Se o Brasil tivesse o mesmo nível de desenvolvimento da Noruega, seria extraordinário para o país. Mas isso, por si só, não garantiria um futebol melhor.”

Ele tem razão.

O Brasil já foi a maior potência do futebol mundial quando ainda enfrentava enormes desafios econômicos e sociais. Nossa Seleção conquistou cinco Copas do Mundo e encantou gerações inteiras com um futebol que virou patrimônio da humanidade.

Portanto, a crise atual não pode ser explicada apenas pelos problemas do país.

Ela precisa ser procurada dentro da estrutura do próprio futebol.

Foi então que Wilton apresentou duas comparações que considero devastadoras.

A primeira envolve o Uruguai.

São pouco mais de três milhões de habitantes.

Praticamente a população da cidade de Salvador.

Mesmo assim, o Uruguai continua formando jogadores de elite, montando equipes extremamente competitivas e mantendo uma identidade futebolística admirável.

Enquanto isso, a Bahia possui cerca de quinze milhões de habitantes — cinco vezes mais que todo o Uruguai. Ainda assim, nossos grandes clubes frequentemente precisam buscar atletas em outras regiões e encontram enormes dificuldades para competir em alto nível.

Não é falta de população.

Não é falta de paixão pelo futebol.

É falta de organização.

Foi então que Wilton fez uma observação que merece ser repetida.

Segundo ele, dizer que o futebol brasileiro é amador chega a ser um elogio.

O amadorismo, pelo menos, possui alguma forma de organização.

O que existe hoje em boa parte da estrutura do futebol brasileiro está abaixo disso.

É uma crítica dura.

Mas difícil de contestar.

Depois veio a segunda comparação.

A Noruega possui cerca de cinco milhões de habitantes.

O Brasil tem doze estados com população superior à norueguesa.

Do ponto de vista demográfico, poderíamos ter doze seleções estaduais com capacidade semelhante à da Noruega e, acima delas, uma Seleção Brasileira ainda mais forte.

Mas isso não acontece.

E a explicação não está na quantidade de pessoas.

Está na qualidade da gestão.

Wilton foi além.

Se estivéssemos falando de golfe, hóquei no gelo ou esqui, seria compreensível que países europeus levassem vantagem sobre nós.

Mas estamos falando justamente do esporte que mais mobiliza os brasileiros.

Nenhum outro país possui uma relação tão intensa com o futebol quanto o Brasil.

Mesmo assim, desperdiçamos esse gigantesco patrimônio humano.

A cada geração, continuamos produzindo talentos extraordinários.

O problema é que talento, sozinho, já não vence campeonatos.

O futebol moderno exige planejamento, formação de técnicos, investimento nas categorias de base, ciência esportiva, análise de desempenho, governança e profissionalismo.

Nenhuma dessas qualidades nasce por acaso.

São construídas.

Ao final daquela conversa, percebi que Wilton Cunha não estava falando apenas de futebol.

Ele estava descrevendo um modelo de administração.

Uma maneira de pensar o futuro.

Quando um país ou uma instituição deixa de planejar, passa a depender exclusivamente do improviso.

E o improviso pode até ganhar um jogo.

Mas dificilmente conquista uma era.

Por isso mudei de ideia.

Achei que jamais voltaria ao assunto da eliminação brasileira.

Mas seria injusto guardar apenas para mim as reflexões provocadas por Wilton Cunha.

Às vezes, uma boa conversa vale mais do que dezenas de programas esportivos.

Porque ela nos obriga a olhar para além do placar.

O Brasil não perdeu apenas uma partida.

Perdeu, ao longo dos últimos anos, a capacidade de transformar sua maior riqueza — seu talento — em um projeto consistente.

Talvez esteja aí a verdadeira derrota.

E talvez seja justamente por isso que as palavras de Wilton Cunha mereçam ser ouvidas: enquanto continuarmos acreditando que o talento resolve tudo, continuaremos colecionando lembranças do passado e adiando a construção do futuro.