Política e Resenha

ARTIGO — Quando os ídolos vendem a alma às apostas, quem paga a conta é a juventude

 

 

 

(Padre Carlos)

Eu confesso que fiquei surpreso ao ver a declaração de Raí afirmando que “o efeito das bets na sociedade brasileira é devastador”. Surpreso não pelo conteúdo — afinal, isso qualquer pai, mãe ou professor já percebeu há muito tempo —, mas porque finalmente uma voz do futebol resolveu dizer em público aquilo que muitos fingem não enxergar.

As bets se transformaram numa epidemia silenciosa. Não vendem apenas a promessa de dinheiro fácil. Vendem ilusão, ansiedade, compulsão e, muitas vezes, desespero. Enquanto uma pequena parcela lucra bilhões, milhares de famílias acumulam dívidas, jovens abandonam sonhos e trabalhadores apostam o salário do mês acreditando que a próxima aposta mudará suas vidas.

E quem está anunciando essa armadilha?

Justamente aqueles que deveriam inspirar nossas crianças.

Os grandes craques.

Os ídolos.

Os heróis de chuteiras.

É difícil não recorrer à ironia.

Durante décadas ouvimos que o atleta deveria ser exemplo de disciplina, esforço e superação. Hoje, muitos deles aparecem na televisão, nas redes sociais e nos intervalos das partidas dizendo, com o maior sorriso do mundo:

“Aposte aqui.”

“Faça sua fezinha.”

“Ganhe dinheiro fácil.”

Que bela evolução moral…

Treinam para marcar gols, mas acabam marcando a juventude com uma mensagem devastadora: o caminho do sucesso não é mais o talento, o estudo ou o trabalho. É a aposta.

E depois perguntam por que tantos adolescentes sonham em enriquecer sem construir nada.

O futebol brasileiro, infelizmente, atravessa uma decadência que vai muito além da parte técnica. O problema não é apenas perder para seleções estrangeiras. Muito pior é perder os valores que fizeram do esporte uma escola de cidadania.

Com raríssimas exceções, dirigentes parecem preocupados apenas com contratos milionários. Jogadores negociam a própria imagem como quem vende espaço em um outdoor. Clubes estampam casas de apostas nas camisas, nos estádios, nas entrevistas, nas placas de publicidade e até nos programas infantis que cobrem futebol.

É quase impossível assistir a uma partida sem ser bombardeado por propaganda de jogo.

Não basta vender o espetáculo.

Agora vendem o vício.

É como se um médico anunciasse cigarros entre uma cirurgia e outra.

Ou um bombeiro fizesse propaganda de gasolina enquanto combate um incêndio.

Depois aparecem campanhas sobre saúde mental, combate ao vício e responsabilidade social.

Que conveniente.

Primeiro ajudam a incendiar a floresta.

Depois distribuem um copo d’água para apagar as chamas.

O mais triste é perceber que milhares de jovens enxergam nesses atletas seus modelos de vida. Se o ídolo aposta, por que eu não posso apostar? Se ele diz que é diversão, deve ser seguro.

Não.

Não é.

Quando uma sociedade transforma o vício em entretenimento, o lucro em virtude e a exploração em marketing esportivo, algo está profundamente apodrecido.

Não se trata de demonizar o futebol.

Muito pelo contrário.

O futebol sempre foi uma das maiores expressões culturais do Brasil. Foi ferramenta de inclusão, de esperança e de mobilidade social. Mas hoje ele corre o risco de se tornar apenas uma gigantesca vitrine comercial onde a camisa pesa menos que o contrato publicitário.

Raí teve coragem de dizer o óbvio.

Agora falta coragem para que outros também falem.

Porque enquanto dirigentes fecham contratos milionários e jogadores recebem cachês para vender apostas, quem paga a conta não são eles.

São os pais que veem os filhos endividados.

São os jovens que confundem sorte com mérito.

São famílias destruídas pela ilusão do dinheiro fácil.

E, sobretudo, é o próprio futebol brasileiro, que já foi conhecido como o país do drible, da criatividade e da alegria, mas que hoje corre o risco de ser lembrado como o país onde até os ídolos decidiram apostar contra o futuro da própria juventude.