Por Padre Carlos
Há frases que incomodam porque nos obrigam a olhar para o espelho. A imagem que circula nas redes sociais afirma:
“Triste é um povo que cobra dos seus jogadores um desempenho perfeito, mas deixa os políticos roubarem a aposentadoria dos seus pais e avós sem dar um pio.”
A força dessa mensagem não está apenas na crítica ao futebol. Ela denuncia uma inversão de prioridades que parece ter se tornado uma marca da sociedade brasileira.
Milhões de brasileiros acompanham uma partida de futebol como se dela dependesse o destino da nação. Discutem escalações, cobram treinadores, xingam jogadores e transformam derrotas em tragédias nacionais. No dia seguinte, bares, redes sociais e programas esportivos continuam alimentando o assunto.
Enquanto isso, decisões políticas que afetam diretamente a vida das pessoas passam quase despercebidas.
Não se trata de condenar o futebol. O esporte é parte da identidade cultural brasileira. O problema começa quando ele se transforma em distração permanente, desviando a atenção daquilo que realmente determina a qualidade de vida do cidadão.
Quando um jogador perde um pênalti, ele é imediatamente julgado pela opinião pública. Mas quantos parlamentares que votam contra interesses populares recebem a mesma cobrança? Quantos governantes são pressionados com a mesma intensidade com que um atacante é pressionado por perder um gol?
É curioso observar como conhecemos os salários dos craques, as estatísticas dos campeonatos e as tabelas das competições, mas ignoramos projetos de lei que alteram direitos previdenciários, trabalhistas ou tributários.
A consequência dessa apatia é previsível.
A política passa a ser ocupada por aqueles que sabem que a população protesta muito pouco quando seus direitos são reduzidos. Afinal, é muito mais fácil governar um povo entretido do que um povo consciente.
É preciso, entretanto, fazer uma ressalva importante. A frase da imagem utiliza a expressão “roubar a aposentadoria”. Essa afirmação não pode ser tratada como um fato universal sem provas, pois envolve acusações que dependem de casos concretos. Ao longo dos anos, houve reformas da Previdência, denúncias de fraudes, mudanças nas regras de aposentadoria e inúmeros debates sobre perdas de direitos. Tudo isso merece fiscalização e crítica. Mas é essencial distinguir entre críticas às políticas públicas e acusações de crimes específicos.
O ponto central permanece válido.
A sociedade reage com muito mais emoção diante de um resultado esportivo do que diante de decisões que afetam aposentados, trabalhadores, servidores públicos e futuras gerações.
Essa realidade revela uma crise de cidadania.
A democracia não se fortalece apenas no dia da eleição. Ela depende de cidadãos atentos, capazes de acompanhar votações, exigir transparência, cobrar promessas e fiscalizar o uso do dinheiro público.
Enquanto isso não acontece, continuaremos assistindo ao espetáculo da indignação seletiva.
Um gol perdido provoca revolta nacional.
Uma escola sem recursos recebe apenas alguns comentários.
Um hospital sem equipamentos vira estatística.
Uma denúncia de corrupção dura poucos dias no noticiário antes de ser substituída pelo próximo escândalo ou pelo próximo clássico do campeonato.
Talvez esteja na hora de inverter essa lógica.
Que continuemos amando o futebol, comemorando títulos e sofrendo derrotas. Mas que reservemos ainda mais paixão para defender aquilo que realmente transforma a vida das pessoas: educação de qualidade, saúde eficiente, segurança pública, respeito aos idosos, proteção aos aposentados e responsabilidade na gestão dos recursos públicos.
Porque jogador pode perder um campeonato.
Mas quando uma sociedade perde sua capacidade de fiscalizar seus governantes, quem acaba derrotado é o próprio povo.
E essa derrota não dura noventa minutos.
Ela pode comprometer uma geração inteira.





