| Análise Política |
O Regular Também é Aprovação: Sobre a Tentação de Contar Pela Metade

Quando um blog descarta a avaliação regular para forjar uma narrativa de queda, não erra por ingenuidade — erra por escolha.
H
á uma forma sutil de mentir com números verdadeiros: basta escolher quais deles o leitor vai ver. Foi o que fez, nesta semana, uma matéria que circulou nos bastidores da política de Vitória da Conquista ao comentar a pesquisa do Instituto Séculus sobre a gestão da prefeita Sheila Lemos. O texto somou apenas as respostas “ótima” e “boa” — 49,02% — e apresentou esse número como se fosse o retrato inteiro da avaliação popular, sugerindo um enfraquecimento da administração que os próprios dados, lidos por inteiro, não confirmam. Faltou, no meio do caminho, um terço inteiro da pesquisa: os 23,76% que classificaram a gestão como regular.
Não se trata de um detalhe estatístico menor. Trata-se do ponto exato em que a interpretação honesta de uma pesquisa se separa da interpretação conveniente.
O que significa, de fato, avaliar como “regular”
Em qualquer metodologia séria de pesquisa de avaliação de governo, a escala de resposta não é binária. Ela existe justamente para captar gradações de satisfação, e “regular” não é sinônimo de reprovação — é a expressão de quem reconhece a gestão como aceitável, sem entusiasmo, mas também sem indignação. É o eleitor que não aplaude, mas também não protesta. Descartar essa categoria da soma de quem “não reprova” é uma escolha editorial, não uma exigência estatística.
A prova está na própria pesquisa: quando os entrevistados foram questionados diretamente se aprovam ou desaprovam a prefeita — pergunta que não admite meio-termo —, 55,40% responderam que aprovam. Se a leitura da matéria estivesse correta, e “regular” fosse equivalente a insatisfação, essa cifra jamais superaria os 49,02% da soma de “ótima” e “boa”. Mas supera, e supera com folga. Os números, portanto, se explicam apenas de um jeito: parte expressiva de quem avalia a gestão como regular também se declara, na pergunta direta, uma pessoa que aprova a prefeita.
Pergunta direta: você aprova a gestão da prefeita?
| Aprova |
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55,40% | ||
| Desaprova |
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34,27% | ||
| Não sabe/N.R. |
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10,33% | ||
Fonte: Instituto Séculus / Bahia Notícias, pesquisa realizada de 1º a 4 de julho de 2026.
A aritmética que a matéria evitou fazer
Some-se o que deve ser somado. Se “ótima” e “boa” formam o bloco de satisfação plena, e “ruim” e “péssima” formam o bloco de reprovação explícita, então “regular” só pode ser lido de um jeito coerente: como parte de quem não reprova a gestão. É essa soma — ótima, boa e regular — que representa o universo real de eleitores que, hoje, não estão dispostos a punir a administração nas urnas ou no discurso público. E esse universo, em Vitória da Conquista, não é pequeno.
Avaliação da gestão: a soma que a matéria escondeu
| Não reprova (ótima+boa+regular) |
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72,78% | ||
| Reprova (ruim+péssima) |
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24,88% | ||
| Não respondeu |
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2,35% | ||
| Categoria | Percentual | Bloco |
| Ótima | 11,46% | Não reprova |
| Boa | 37,56% | Não reprova |
| Regular | 23,76% | Não reprova |
| Ruim | 10,80% | Reprova |
| Péssima | 14,08% | Reprova |
| Não respondeu | 2,35% | — |
Base: 1.006 entrevistas, sede e distritos de Vitória da Conquista, 1º a 4 de julho de 2026. Margem de erro: 3 p.p.; nível de confiança: 95%.
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Quem separa “regular” da “aprovação” para depois anunciar uma queda dramática não está lendo a pesquisa — está escrevendo outra, com a caneta emprestada dos números. |
A honestidade intelectual como dever do articulista
Há uma diferença ética entre interpretar dados e manipulá-los por omissão. O articulista que comenta pesquisas de opinião carrega uma responsabilidade que ultrapassa a opinião pessoal: ele forma a percepção pública sobre a realidade. Quando se escolhe apresentar apenas metade de uma escala de avaliação — a metade que sustenta a tese que se quer defender —, o que se pratica não é jornalismo de análise, é curadoria seletiva de evidências. E a diferença entre as duas coisas é, precisamente, a honestidade intelectual.
Isso não significa negar que houve queda em relação a julho de 2025, quando a aprovação da prefeita chegava a 72,64%. Reconhecer uma oscilação real é parte legítima da análise política — inclusive porque ela abre espaço para discutir causas, como o próprio ambiente de obras e entregas que a gestão busca retomar. O problema não está em apontar a queda; está em inflá-la artificialmente, descartando um terço da pesquisa para fazer o recuo parecer maior do que é.
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Em síntese A pesquisa Séculus/Bahia Notícias mostra 55,40% de aprovação direta e 72,78% de eleitores que não reprovam a gestão Sheila Lemos, contra apenas 24,88% de reprovação explícita. Reduzir esse quadro a 49,02% é escolher a metade do dado que convém, não a totalidade do dado que existe. |
O que os números de Conquista realmente dizem
Lidos por inteiro, os dados da pesquisa contam uma história bem mais equilibrada do que a narrativa de crise sugerida pela matéria em questão. A prefeita reeleita em primeiro turno em 2024, com 58,83% dos votos válidos, mantém hoje um patamar de aprovação direta muito próximo daquele resultado das urnas — 55,40% —, e um índice de não reprovação que ultrapassa os dois terços do eleitorado. Há, sim, um recuo em relação ao pico de julho de 2025, e é saudável que a imprensa e a opinião pública o discutam. Mas discuti-lo exige que se apresente a pesquisa inteira, não a metade dela que produz o efeito mais dramático.
No debate público, os números não pertencem a quem os cita primeiro, mas à verdade que eles, somados corretamente, revelam. E essa verdade, no caso de Vitória da Conquista, é a de uma gestão que — apesar da oscilação natural de qualquer mandato — segue com apoio majoritário e folgado entre os seus governados.
| Vitória da Conquista | Pesquisas de Opinião | Sheila Lemos |
Padre Carlos
Teólogo, sacerdote e colunista político — Política e Resenha




