Política e Resenha

O Fenômeno Sheila: Como se Constrói uma Máquina de Votos e Reputação

 

 

Padre Carlos

Na política, votos não surgem do acaso. Eles são consequência de um processo contínuo de construção de reputação, credibilidade e presença pública. Quando uma liderança consegue transformar a gestão administrativa em capital político, nasce aquilo que os cientistas políticos costumam chamar de uma máquina eleitoral baseada na confiança do eleitor.

É justamente esse fenômeno que ajuda a explicar a força política da prefeita Sheila Lemos em Vitória da Conquista.

A divulgação da pesquisa Séculus/Bahia Notícias, apontando elevada avaliação positiva da administração municipal e maioria dos entrevistados aprovando a gestão, provocou uma reação previsível. De um lado, centenas de manifestações de apoio, elogios e reconhecimento. Do outro, críticas, ironias e questionamentos sobre o levantamento.

Curiosamente, a própria reação dos adversários ajuda a compreender o tamanho do fenômeno político.

Quando uma liderança passa a ocupar o centro do debate, tudo gira em torno dela. Os apoiadores defendem. Os adversários atacam. A política deixa de discutir apenas obras, serviços ou decisões administrativas e passa a discutir a própria figura do governante.

É nesse momento que a reputação se transforma em patrimônio político.

As redes sociais revelam esse cenário com clareza. Enquanto dezenas de internautas manifestaram orgulho da gestão e destacaram dedicação, competência e liderança, outros preferiram atribuir os resultados da pesquisa a cargos comissionados ou simplesmente classificaram o levantamento como “comprado”, sem apresentar elementos concretos que sustentassem essa acusação.

Esse comportamento não é exclusivo de Vitória da Conquista.

Em praticamente todas as democracias modernas, pesquisas eleitorais que apresentam números favoráveis ao adversário costumam ser imediatamente desacreditadas por quem discorda do resultado. Trata-se muito mais de uma reação emocional do que propriamente técnica.

Uma pesquisa não cria popularidade.

Ela apenas procura medir uma realidade existente naquele momento.

Se os números agradam ou desagradam determinado grupo político, isso faz parte da dinâmica democrática. O que não se pode fazer é transformar a discordância em prova de fraude sem qualquer evidência.

Mais interessante do que a pesquisa, entretanto, é observar o processo que levou a esses índices.

Nenhuma liderança alcança elevados níveis de aprovação apenas com propaganda.

É necessário construir uma narrativa consistente ao longo do tempo.

Obras visíveis.

Presença constante.

Comunicação eficiente.

Capacidade de responder às crises.

Entrega de políticas públicas.

Relacionamento com diferentes setores da sociedade.

Esses elementos formam aquilo que especialistas em marketing político chamam de construção permanente de reputação.

Enquanto muitos grupos políticos aparecem apenas em períodos eleitorais, líderes que permanecem em contato constante com a população tendem a consolidar uma imagem mais resistente às críticas.

A política moderna é cada vez menos uma disputa entre partidos e cada vez mais uma disputa entre reputações.

Nesse aspecto, Sheila Lemos parece ter compreendido uma das principais transformações da comunicação política contemporânea.

Sua imagem pública passou a representar mais do que uma administração municipal. Tornou-se uma marca política.

E marcas políticas fortes produzem um efeito curioso: quanto mais são atacadas, mais mobilizam seus apoiadores.

A polarização observada nos comentários da pesquisa demonstra exatamente isso.

Poucos permaneceram indiferentes.

A maioria escolheu um lado.

Isso revela que Sheila já ultrapassou a condição de simples prefeita para ocupar o espaço reservado às grandes lideranças locais, aquelas capazes de mobilizar paixões, apoios e rejeições na mesma intensidade.

Existe ainda outro aspecto frequentemente ignorado.

A construção de uma máquina eleitoral não depende apenas da existência de uma estrutura partidária.

Ela depende principalmente da percepção social de competência.

Quando uma parcela significativa da população acredita que uma gestão está produzindo resultados positivos, cria-se um círculo virtuoso: aprovação gera confiança; confiança fortalece a reputação; reputação amplia o capital político; e o capital político facilita novas vitórias eleitorais.

Esse é o verdadeiro combustível das grandes lideranças.

Naturalmente, isso não significa unanimidade.

Toda administração pública possui problemas, críticas e desafios.

Democracias saudáveis vivem exatamente desse confronto permanente entre governo e oposição.

Mas há uma diferença fundamental entre fazer oposição e ignorar completamente a percepção de uma parcela expressiva da sociedade.

A política ensina que ninguém permanece forte apenas pelo marketing, assim como ninguém derrota um adversário apenas negando sua popularidade.

Vitória da Conquista parece assistir à consolidação de um fenômeno político construído menos pela retórica e mais pela capacidade de transformar gestão em reputação.

E reputação, quando consolidada, torna-se um dos ativos mais valiosos da política.

Porque obras podem ser inauguradas.

Campanhas podem ser encerradas.

Pesquisas podem mudar.

Mas uma reputação construída ao longo dos anos costuma sobreviver a todas elas.

É justamente aí que nasce aquilo que muitos chamam de uma verdadeira máquina de construir votos.