A política é uma atividade legítima. A crítica ao poder público também. Fiscalizar a administração é um dever do parlamentar. Mas existe uma diferença entre fiscalizar um problema real e transformar uma questão administrativa em um fato político.
A denúncia envolvendo a Unidade de Saúde Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, precisa ser analisada com serenidade. A vereadora Dra. Lara Fernandes afirmou ter encontrado consultórios odontológicos sem funcionamento e relatou que recebeu reclamações de moradores. O tema, naturalmente, merece atenção. Saúde pública não é assunto para ser tratado com descaso.
Mas a política exige também responsabilidade com a verdade e com o contexto dos fatos.
Segundo as informações apresentadas, a cadeira odontológica estava em processo de instalação. As conexões estavam desligadas porque o equipamento ainda seria instalado e colocado em funcionamento. Ou seja: uma situação administrativa transitória, relacionada à implantação de um equipamento, acabou sendo apresentada publicamente como se representasse o abandono ou a paralisação definitiva do atendimento odontológico.
E aqui está o problema.
Uma cadeira de dentista que ainda está sendo instalada não pode ser apresentada automaticamente como prova de que a unidade de saúde não presta atendimento odontológico. A diferença entre uma obra ou instalação em andamento e um serviço abandonado é enorme.
É preciso investigar. É preciso perguntar. É preciso cobrar prazos. Mas também é preciso evitar a transformação de qualquer situação momentânea em uma crise política.
A administração pública é uma engrenagem complexa. Equipamentos precisam ser adquiridos, entregues, instalados, conectados, testados e, finalmente, colocados à disposição da população. Nem sempre o cidadão consegue enxergar todas essas etapas. E é justamente por isso que o papel do jornalista e do parlamentar deve ser esclarecer, não simplesmente criar uma narrativa.
O mais curioso nessa história é que a crítica parte de uma parlamentar que, até pouco tempo atrás, integrava o campo político que defendia o projeto administrativo responsável pela transformação da cidade.
A política tem dessas coisas. Enquanto se está no governo ou próximo dele, uma determinada administração é apresentada como capaz de realizar grandes transformações. Quando chega o momento de disputar uma nova posição política, os mesmos problemas que antes eram compreendidos como desafios administrativos passam a ser apresentados como provas de fracasso absoluto.
É legítimo mudar de posição. É legítimo romper politicamente. É legítimo disputar uma eleição contra antigos aliados.
O que não parece razoável é abandonar completamente a própria história política.
A vereadora Dra. Lara Fernandes não surgiu na política em oposição ao projeto que hoje critica. Ao contrário, participou de um grupo político, defendeu uma administração e ajudou a construir um ambiente político que contribuiu para a eleição daqueles que hoje governam Vitória da Conquista.
Por isso, a sociedade tem o direito de perguntar: o que mudou?
Mudou a realidade administrativa da cidade ou mudou a posição política de quem agora pretende disputar um novo espaço?
Essa é uma pergunta legítima, especialmente quando uma cadeira odontológica em processo de instalação é transformada em símbolo de uma suposta crise política.
Não se trata de defender a prefeitura contra qualquer crítica. Uma administração pública deve ser fiscalizada. Se existe uma unidade sem atendimento, a Prefeitura precisa explicar. Se há equipamentos parados, é necessário cobrar providências. Se a população está sendo prejudicada, o problema precisa ser resolvido.
Mas uma coisa é fiscalização.
Outra coisa é utilizar uma questão administrativa pontual para criar um palanque político.
E Vitória da Conquista precisa estar atenta a essa diferença.
A cidade não pode transformar cada problema de manutenção, cada equipamento em instalação ou cada atraso burocrático em uma guerra política. Da mesma forma, não pode aceitar que eventuais erros administrativos sejam escondidos atrás de discursos políticos.
O caminho correto é simples: fatos, documentos, prazos e soluções.
Se a cadeira odontológica estava instalada e sem funcionamento há meses, que se apresente a documentação. Se o equipamento estava sendo preparado para instalação, que a Prefeitura explique o cronograma. Se houve falha administrativa, que ela seja corrigida.
O que não se pode fazer é transformar uma fotografia de um momento específico em uma sentença definitiva sobre toda a administração municipal.
A cidade conhece a realidade da gestão Sheila Lemos. Existem problemas, como em qualquer governo. Mas também existem investimentos, obras, melhorias na infraestrutura e avanços em diversas áreas. A administração não pode ser julgada por uma única cadeira odontológica, assim como não pode ser protegida de críticas por causa de grandes obras.
O debate público precisa ser mais sério.
Uma parlamentar pode e deve fiscalizar. Mas também precisa ter memória. Não pode defender um projeto quando precisa de seus votos e abandoná-lo quando se torna conveniente construir uma candidatura baseada na crítica ao próprio grupo que ajudou a eleger.
A política não deveria ser uma sucessão de conveniências.
O eleitor merece coerência.
Se a situação da Unidade Régis Pacheco precisava de solução, que se cobrasse a solução. Se a cadeira odontológica precisava ser instalada, que se perguntasse quando estaria funcionando. Se havia reclamações da comunidade, que fossem encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde.
Mas transformar uma etapa administrativa em um espetáculo político é prestar um desserviço à própria população.
Porque, no fim, o que o cidadão quer não é um vídeo viral.
O cidadão quer o dentista atendendo.
E, se a cadeira estava apenas esperando a instalação das conexões e dos equipamentos necessários, então a verdadeira notícia não deveria ser a criação de uma crise política, mas a conclusão do serviço e a chegada do atendimento à comunidade.
Padre Carlos





