Os Dois Graus que Nunca Existiram: Sobre Fake News, Preguiça Jornalística e a Memória do Frio em Conquista

Por Durval Lemos Menezes — Política e Resenha
Q
uem trabalha na área do jornalismo — seja pela rádio, pela televisão, pelo jornal impresso, ou mesmo pelas redes que hoje substituem tudo isso — recebe, junto com o microfone e a câmera, uma responsabilidade que não é pequena. Tem poder. Tem dever. Tem, por obrigação, o compromisso de ser fiel às suas informações. Não é um detalhe de estilo: é a coluna vertebral do ofício.
Não se pode agir com irresponsabilidade, tampouco com sensacionalismo, apenas para garantir espaço na mídia. Essa vaidade — a de aparecer, a de causar impacto a qualquer custo — traz prejuízo real para muitas pessoas, em diversos segmentos da vida social. E foi exatamente isso que presenciei, mais uma vez, há poucos dias.
Disseram, através da mídia, que Vitória da Conquista registrou, numa determinada noite, a temperatura de dois graus. Isso é irresponsabilidade. Isso é sensacionalismo travestido de informação. E, o que é pior, é mentira histórica — porque Conquista, em toda a sua existência documentada, jamais registrou dois graus.
A Memória que os Arquivos Guardam
Lá do início dos anos 1940, foi registrada em Conquista a temperatura mais baixa de que se tem notícia confiável: quatro graus. Existia, naquela época, na Praça Sá Barreto, uma estação de meteorologia responsável pelas medições da cidade. Quem a conduzia era uma professora, poetisa e música conquistense — que foi também chefe do Correio de Vitória da Conquista e, ao mesmo tempo, meteorologista contratada pelo Ministério da Agricultura do nosso país.
Foi ela quem registrou, no início dos anos 40, os quatro graus que entraram para a história climática da cidade. Numa época, aliás, em que Conquista tinha uma umidade muito mais forte do que a de hoje: as ruas calçadas em pedra faziam as pessoas escorregarem por causa do lodo e do limo que se formava sobre elas. As casas tinham os telhados esverdeados pelo mesmo limo, fruto direto da baixa temperatura e da umidade constante. Mas, mesmo naquele rigor, a marca nunca desceu abaixo dos quatro graus.
Ficou fácil, hoje, quando essas pessoas erram, dizerem: “é fake news”. Não. Não é fake news. A palavra certa é mentira. É irresponsabilidade.
É preciso estudar mais, pesquisar, adquirir conhecimento — e, acima de tudo, ter responsabilidade. As pessoas precisam ser informadas, mas de forma inteligente, de forma verídica, sem que se criem fatos para envolver a população em informações que, na realidade, não condizem com a realidade nenhuma.
A Cidade Mais Fria da Bahia? Um Erro de Geografia
Também, por mais de uma vez, já ouvi e vi pessoas da imprensa afirmarem que Conquista é a cidade mais fria da Bahia. Isso é não conhecer geografia. É não conhecer climatologia. É não conhecer os próprios dados publicados e divulgados por instituições oficiais que trazem informações corretas sobre o nosso clima.
Dizer que Conquista é a cidade mais fria da Bahia é desconhecer a Chapada Diamantina. E não é uma cidade apenas: são várias, no sertão baiano, com temperaturas historicamente mais baixas do que a nossa. Morro do Chapéu, por exemplo, registra temperaturas equivalentes às de Conquista — e por vezes abaixo dela. E há ainda Piatã.
Registro Comparativo
Piatã, essa sim, já registrou temperatura de dois graus — comprovadamente. Conquista, nunca. Em nenhum momento de sua história climática documentada, a cidade chegou a esse patamar. A confusão entre os municípios do sertão baiano não é um detalhe: é a diferença entre informar e desinformar.
Vamos ter mais consciência e mais responsabilidade ao informar os fatos. Não porque o frio de Conquista precise de defesa — a cidade tem identidade própria, sertão, serra e história que dispensam exageros —, mas porque a verdade, mesmo modesta, vale mais do que qualquer manchete que engana para impressionar.
Que o jornalismo — o de rádio, o de televisão, o de jornal, o das redes — volte a ser, antes de tudo, um compromisso com a verdade. O resto é vaidade disfarçada de notícia.
Vitória da Conquista
Memória Climática
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Por Durval Lemos Menezes




