Ensaio · Teologia & Filosofia

José Alcimar de Oliveira
“Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”
— Apocalipse 21,4
O
texto da epígrafe acima, do Livro do Apocalipse, remete à chamada utopia da Nova Jerusalém, do novo céu e da nova terra. Mas, já ao tempo de Jesus de Nazaré, Jerusalém era uma distopia, como registram os evangelistas Mateus e Lucas sobre o choro-lamento daquele que em breve seria ali torturado e morto: “Jerusalém, Jerusalém, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados”. Quando mostrei esse texto ao camarada Sartre, ele de imediato reagiu, sem ser reativo, e fundamentado no denso estudo de sua ontologia fenomenológica de O Ser e o Nada, de 1943, argumentou que não temos outra condição senão esta que não escolhemos e nela nos damos conta de que nos cabe viver e escolher, mesmo que sob incontornável desamparo.
O ser-em-si, que nos joga no mundo, não se faz acompanhar de essência, é carente de explicação e sem razão de ser. Ao tornar pública essa tese ontológica, Sartre recebeu um duplo ataque, vindo dos marxistas e dos cristãos. Tentou responder a ambos. Na verdade, com mais vagar aos marxistas do que aos cristãos, se considerarmos o acerto de contas que fez posteriormente com a tradição do materialismo histórico e dialético em sua portentosa Crítica da Razão Dialética, de 1960. Sartre, ateu e intelectual militante, insistia que é necessário agir sem esperança.
O pesadelo do Brumário
Pelos marxistas Sartre foi questionado quanto à alegada tendência à inação e ao fatalismo de sua teoria, que pouco peso dava aos condicionamentos que a história impõe ao ser social. Mas ao ler O 18 Brumário ficou muito intrigado com a tese do Mouro de Trier: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos” (grifo nosso). A classe trabalhadora brasileira, notadamente a parte que escapou à condição ideológica de pobre de direita, sabe o que significa o pesadelo do Brumário.
Em sua célebre conferência, O Existencialismo é um Humanismo, de 29 de outubro de 1945, publicada no ano seguinte, Sartre começa a mover-se em direção ao marxismo, por ele depois designado como “filosofia insuperável de nosso tempo” lá pelos idos de 1960, ano em que visitou o Brasil e veio até Manaus, onde vivo (cidade ainda bela, com forte alma indígena, embora tão maltratada por sua arrivista classe dominante). Não fossem as restrições de Simone de Beauvoir, que muito reclamou do clima quente e úmido baré, Sartre teria saboreado um bom jaraqui frito no velho mercadão Adolpho Lisboa. Quanto a mim, à época da festejada visita do casal alheio à moral burguesa, contava eu com a idade de três anos e ainda vivia inteiramente sob o regime da suprema alienação do ser-em-si, condição ontológica a que Sartre pouco se deteve em descrever em O Ser e o Nada.
O capitalismo como religião
Quanto aos cristãos, mais precisamente a oficialidade cristã, guardiã da ortodoxia doutrinal, Sartre preferiu não investir maior energia intelectual. Pouco lhe importava que seus livros tivessem sido incluídos no terrível Index Librorum Prohibitorum (o catálogo dos livros proibidos pela Igreja). Em 1965, no pontificado de Paulo VI, o ex-Santo Ofício teve o nome mudado para Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, não tão sagrada, haja vista a imposição de um ano de “silêncio obsequioso” ao teólogo Leonardo Boff no início dos anos 1990 em razão da crítica que fez ao sistema de poder da Igreja em seu livro Igreja: Carisma e Poder. Abolido em 1965, o famigerado Index dos livros proibidos persiste hoje por meios mais difusos e sutis (às vezes não tanto), como atesta a força do fundamentalismo religioso capitalizado pela próspera teologia da prosperidade e do domínio.
Sob o regime do capital financeiro a economia assume cada vez mais prerrogativas de ciência religiosa. O capitalismo como religião — conforme Walter Benjamin — é hoje o Santo Ofício Pós-Moderno do ultraneoliberalismo da extrema direita.
Quanto ao camarada Sartre, é preciso reconhecer, nunca esteve no horizonte do seu pensamento afirmar ou negar a existência de Deus. Já estava por demais assoberbado com a existência desamparada do ser contingente.
Agir sem esperança, ou a esperança na ação
O agir sem esperança sartreano parece bem menos enganador do que a esperança retida na caixa da deusa Pandora. Abandonado pelas demais divindades, que preferiram o refúgio sereno no Olimpo às agruras do mundo sublunar, o ser social nem sempre pode confiar na esperança, única deusa que Pandora deixou para a humanidade. Por isso, insisto: é melhor apostar na ação do que na esperança. A esperança, sobretudo a falsa esperança, pode malbaratar a ação. A falsa esperança conduz à distopia, porque manipula a ação. A esperança verdadeira tem seu movente na utopia e na práxis seu fundamento.
Sob esse itinerário, Jesus de Nazaré, Marx e Sartre, por distintas ontologias de compreensão do real, foram pensadores utópicos: todos apostaram na ação. Todos fundamentaram a esperança na ação. Não é este o princípio gramsciano: combinar de forma dialética o pessimismo da inteligência (a crítica) com o otimismo da vontade (a ação)?
Do sepulcro vazio à utopia do Reino
O sentido radicalmente humano e utópico da ressurreição reside na afirmação da vida. O choro de Maria Madalena diante do sepulcro vazio e sua visão dos dois anjos apontam para o futuro, para a utopia do Reino, ao contrário do anjo da história de que nos fala Walter Benjamin, cujo olhar estranhamente se volta para o passado. Um tipo de retrotopia (Bauman)? Mas a distopia de Maria Madalena foi momentânea. No imediato de sua visão parecia haver somente lugar para o corpo morto de Jesus de Nazaré. Um tópos distópico. Mas logo sua distopia cede lugar à utopia.
O teólogo e evangelista João registra em linguagem demasiadamente humana como Maria Madalena, mulher discriminada, foi a primeira pessoa a ver o Cristo Ressuscitado. Madalena, porque de Magdala, um pequeno povoado perto do lago da Galileia. Um povoado de má fama, tão estigmatizado pelas autoridades farisaicas do tempo de Jesus quanto estigmatizada foi até ao século XXI, pela Igreja Católica, sua filha Madalena: tachada de prostituta, pecadora, adúltera e possuída por sete demônios.
“Mulher, por que choras?”
“Chorando, inclinou-se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles lhe perguntaram: ‘Mulher, por que choras?’. Ela respondeu: ‘Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram’. Ditas essas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe Jesus: ‘Mulher, por que choras? Quem procuras?’. Supondo ela que fosse o jardineiro, respondeu: ‘Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu o irei buscar’. Disse-lhe Jesus: ‘Maria!’ Voltando-se ela, exclamou em hebraico: ‘Rabôni’ (que quer dizer Mestre). Disse-lhe Jesus: ‘Não me retenhas, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’. Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado.”
— João 20, 11-18
Em conclusão: numa exegese fielmente heterodoxa, diria que Madalena tem precedência apostólica sobre Pedro, o chefe dos apóstolos. O que foi, ainda que tardiamente, reconhecido pelo Papa Francisco.
Apostola apostolorum
No dia 22 de julho, em que comemoramos sua Festa, Santa Maria Madalena costuma convidar Dercy Gonçalves, também mulher irredenta e filha de Magdala (ou Santa Maria Madalena, RJ), e Elza Soares do Canto Negro, para uma grande e dionisíaca comemoração no espaço laico da morada celestial. Convidada especial, com a santa inveja do Velho Preto Gil, é também a Preta Gil de Luz. Nesse dia festivo há sempre mesas previamente reservadas para Jesus de Nazaré, Marx, Nietzsche, Freud, Lênin, Rosa Luxemburgo, e quantas e quantos mais resistiram e resistem à ordem da necrocracia do capital.
Para os devidos registros no Grande Memorial da Vida, este escrevinhador e teólogo sem cátedra atesta que desde 2016, por decisão do Papa Francisco (o mais franciscano dentre os jesuítas), Maria Madalena (a mulher mais citada nos evangelhos) foi incluída no Calendário Romano como Santa Maria Madalena. Ela, agora, é apostola apostolorum (apóstola dos apóstolos) e, desde já, para conhecimento de São Pedro, faço lembrar que Dercy Gonçalves, a mais santa entre as profanas e a mais profana entre as santas, foi escolhida por Santa Maria Madalena como a sua mais fiel escudeira.
Amigas ex corde!
Existencialismo
Sartre
Maria Madalena
Utopia
José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical, e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE).
Manaus, AM, julho de 2026




