Política e Resenha

A violência avança na Bahia, mas Vitória da Conquista escolheu outro caminho

Política e Resenha  •  Segurança Pública

Por Padre Carlos

A
violência deixou de ser apenas um problema das grandes metrópoles e passou a desenhar um novo mapa do medo na Bahia. O estado, que já foi reconhecido pela riqueza cultural e pela hospitalidade de seu povo, hoje aparece com frequência nos levantamentos nacionais sobre criminalidade. O mais preocupante é que essa realidade já não pode ser tratada como um fenômeno isolado, mas como um desafio estrutural que exige respostas permanentes do poder público.

Os números mais recentes confirmam o diagnóstico. Segundo o Atlas da Violência 2026 (Ipea/Fórum Brasileiro de Segurança Pública), a Bahia registrou em 2024 uma taxa estimada de 42,6 homicídios por 100 mil habitantes — a terceira maior do país, atrás apenas de Amapá e Ceará — e concentra hoje seis das dez cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes com as maiores taxas de homicídios estimados. Já o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, apontou que o estado somou 5.473 Mortes Violentas Intencionais em 2025, mantendo-se em segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas do Amapá.

Em números: mesmo após uma redução de 9,6% em relação a 2024, a Bahia somou 5.473 Mortes Violentas Intencionais em 2025 — a segunda maior taxa do Brasil — e reúne cinco das dez cidades mais violentas do país: Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro, todas no ranking do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025/2026.

O contraste é evidente. Enquanto algumas cidades convivem diariamente com disputas entre facções criminosas, crescimento dos homicídios e sensação permanente de insegurança, outras decidiram investir em inteligência, prevenção, tecnologia e fortalecimento das instituições municipais. Essa diferença demonstra que, embora a segurança pública seja uma responsabilidade constitucional dos estados, a atuação dos municípios pode fazer enorme diferença na proteção da população.

A escalada da violência na Bahia

A série histórica do Atlas da Violência mostra que o número de homicídios registrados na Bahia cresceu de forma acentuada ao longo da última década, atingindo seu pico em 2021, para só então iniciar uma trajetória de queda moderada nos anos seguintes:

Homicídios registrados na Bahia — 2014 a 2024
2014
7.006
2020
7.076
2021
7.206 (pico)
2022
6.776
2023
≈ 6.614
2024
6.316

Fonte: Atlas da Violência (Ipea/FBSP), edições 2025 e 2026. Estimativa de 2023 calculada a partir da variação percentual divulgada pelo próprio estudo.

O interior baiano no topo do ranking nacional

Poucos dados são tão contundentes quanto o ranking nacional de taxas de homicídios entre cidades de mais de 100 mil habitantes. Das dez cidades brasileiras com as maiores taxas, seis são baianas — e nenhuma delas é a capital. A violência migrou para o interior, e é lá que ela mais mata:

Rank Cidade UF Taxa /100 mil
Maranguape CE 100,3
Eunápolis (BA) BA 85,1
Maracanaú CE 80,7
Porto Seguro (BA) BA 71,2
Simões Filho (BA) BA 68,1
Jequié (BA) BA 67,4
Caucaia CE 66,6
Cabo de Santo Agostinho PE 65,1
Santa Rita PB 60,9
10º Juazeiro (BA) BA 55,8

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025/2026 (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Linhas em destaque correspondem a municípios baianos.

Letalidade policial: outro recorde baiano

O Anuário também revela uma faceta ainda mais preocupante: quando o critério é a taxa de mortes decorrentes de intervenção policial, a Bahia domina o ranking nacional de forma ainda mais expressiva. Das dez cidades brasileiras com as maiores taxas nesse indicador em 2025, sete são baianas:

Maiores taxas de mortes por intervenção policial em 2025 (cidades > 100 mil hab.)
1 Porto Seguro (BA)
2 Eunápolis (BA)
3 Marituba (PA)
4 Itabaiana (SE)
5 Simões Filho (BA)
6 Jequié (BA)
7 Lauro de Freitas (BA)
8 Luís Eduardo Magalhães (BA)
9 Japeri (RJ)
10 Macapá (AP)

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025/2026. Linhas em destaque correspondem a municípios baianos.

Mortes por intervenção policial: a Bahia registrou 1.570 mortes provocadas por policiais em serviço ou fora dele em 2025, contra 1.556 em 2024 — o maior número absoluto do país.

Esse tipo de ocorrência já responde por 28,7% de todas as mortes violentas intencionais registradas no estado em 2025, ante 25,7% no ano anterior — um crescimento que expõe os limites do atual modelo de enfrentamento à violência.

É justamente nesse cenário que Vitória da Conquista merece destaque. A terceira maior cidade da Bahia construiu uma estratégia que vai além do discurso. A administração municipal investiu na estruturação da Guarda Municipal — hoje com cerca de 200 agentes integrados ao Sistema Único de Segurança Pública —, na ampliação do videomonitoramento, na integração entre as forças de segurança e em políticas preventivas voltadas para a proteção dos espaços públicos e da população, entre elas o Grupo de Ronda Escolar, a Guardiã Maria da Penha e a Patrulha Araceli, voltadas à proteção de mulheres, crianças e adolescentes.

Conquista na contramão da Bahia

Os resultados aparecem nos números. Segundo o próprio Atlas da Violência 2026, Vitória da Conquista é a grande cidade baiana (acima de 100 mil habitantes) com a menor taxa estimada de homicídios do estado, consolidando-se como referência em segurança pública entre os maiores municípios da Bahia — muito distante do quadro enfrentado por cidades como Eunápolis, Jequié ou Simões Filho:

Taxa de homicídios por 100 mil habitantes (2024)
Média da Bahia
42,6
Vitória da Conquista
26,9

Fonte: Atlas da Violência 2026 (Ipea/FBSP) — a taxa de Vitória da Conquista é 58% inferior à média estadual.

Segurança também se constrói com gestão, planejamento e presença permanente do poder público nas ruas — e Vitória da Conquista mostra, com dados, que essa lição pode ser aplicada em qualquer canto da Bahia.

Naturalmente, ninguém pode afirmar que uma cidade esteja totalmente livre da criminalidade. Isso seria irresponsável. A violência é um fenômeno complexo, ligado ao tráfico de drogas, às desigualdades sociais, à expansão das organizações criminosas e às dificuldades enfrentadas pelas forças estaduais de segurança. Entretanto, também seria injusto ignorar que existem administrações municipais que fazem sua parte e criam condições para reduzir os riscos enfrentados pela população.

Vitória da Conquista demonstra exatamente isso. Ao investir na Guarda Municipal e em ações preventivas, a cidade envia uma mensagem clara: segurança também se constrói com gestão, planejamento e presença permanente do poder público nas ruas.

A Bahia precisa olhar para esses exemplos. Não basta lamentar os números divulgados todos os anos pelos institutos de pesquisa. É necessário transformar experiências bem-sucedidas em políticas permanentes. Afinal, a população não quer apenas estatísticas; quer o direito de sair de casa sem medo, trabalhar com tranquilidade e ver seus filhos crescerem em uma cidade onde a paz seja uma realidade, e não apenas uma promessa.

O combate à violência exige coragem política, investimentos consistentes e integração entre União, Estado e municípios. Vitória da Conquista mostra que esse caminho é possível. Talvez esteja justamente aí a principal lição para toda a Bahia: quando há planejamento e compromisso com a população, a segurança deixa de ser apenas um sonho e começa a se transformar em realidade.

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Padre Carlos  — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha