Política e Resenha

Quando se vê, já é tarde: a lição que Mario Quintana nos deixou sobre o tempo que não volta

 

Ensaio · Opinião

Sobre relógios, medo, amor e a coragem de viver antes que seja tarde demais

H
á uma frase de Mario Quintana que atravessa gerações não porque seja bonita — embora seja —, mas porque é verdadeira da forma mais desconfortável possível. Ele disse, com a simplicidade de quem já não tinha mais nada a provar, que quando se vê, já são seis horas. Quando se vê, já é sexta-feira. Quando se vê, já é Natal. Quando se vê, o ano terminou. E, pior: quando se vê, perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê, se passaram cinquenta anos. E agora, meu caro leitor, é tarde demais para ser reprovado.

Não escrevo isto como quem faz um exercício de nostalgia barata. Escrevo como quem observa, todos os dias, pessoas adiando a própria vida em nome de uma segurança que nunca chega. Adiamos o abraço. Adiamos o “eu te amo”. Adiamos a viagem, o telefonema, o pedido de desculpas, o recomeço. E o tempo, esse credor silencioso, nunca cobra na hora — ele cobra depois, quando já não há mais o que fazer além de lamentar.

A casca dourada e inútil das horas

Quintana usa uma imagem que merece ser lida devagar: a casca dourada e inútil das horas. Douradas porque parecem valiosas enquanto as vivemos sem perceber. Inúteis porque, uma vez jogadas fora — gastas em espera, em medo, em orgulho —, não servem para mais nada. Não há reciclagem para o tempo perdido. Não existe segunda chamada para os anos que passamos esperando o momento certo, a coragem certa, a segurança certa.

A verdade mais dura do poema é esta: não precisamos de mais tempo. Precisamos de menos medo. O medo é o verdadeiro ladrão das nossas horas — não o relógio, não o calendário, não a correria do mundo. É o medo de ser feliz, de se expor, de amar sem garantias, de dizer o que sentimos sem saber se seremos correspondidos.

“Se me fosse dado outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.”

— Mario Quintana

Não é um poema sobre pressa. É um poema sobre presença. Sobre a diferença entre atravessar os dias e realmente vivê-los. E é justamente aí que mora o convite mais generoso — e mais exigente — desses versos: pare de contar as horas e comece a habitá-las.

O amor que está bem à nossa frente

Há algo profundamente humano em adiar o que mais importa. Adiamos justamente aquilo que sentimos com mais intensidade, como se a intensidade exigisse cautela. Guardamos o amor num cofre de prudência, esperando o dia perfeito para revelá-lo — e esse dia, sabemos bem, tem o mau hábito de nunca chegar sozinho. Ele precisa ser criado, escolhido, vivido à força de coragem.

Segurar o amor que está à nossa frente e dizer que o amamos não é um gesto pequeno. É, talvez, o ato mais corajoso que existe, porque nos expõe por inteiro, sem a proteção da ambiguidade. Mas é exatamente essa exposição que transforma o tempo comum em tempo que vale a pena ter vivido.

O que fica quando o tempo passa

Não lamentaremos os anos vividos com intensidade, ainda que imperfeitos. Lamentaremos apenas o que não ousamos dizer, o que não ousamos tentar, o que não ousamos amar. A única falta que sentiremos, no fim, será a desse tempo que — infelizmente — nunca mais vai voltar.

Hoje ainda não é tarde

A grande ironia é que Quintana escreveu esses versos já maduro, olhando para trás, mas o presente que ele nos oferece é justamente a chance de não repetir o mesmo erro. Nós, que ainda temos hoje, temos também a escolha. A escolha de não deixar de fazer algo de que gostamos por causa do tempo. A escolha de manter perto quem amamos, sem o medo disfarçado de prudência.

Talvez o maior gesto de respeito que possamos ter pela vida seja simplesmente parar de adiá-la. Não amanhã. Não quando tudo estiver perfeito. Agora — enquanto ainda é possível dizer, abraçar, recomeçar. Porque quando se vê, já se foram seis horas. E o relógio, esse, nunca pede licença para seguir em frente.

Mario Quintana
Tempo
Amor
Reflexão
Poesia

Sobre o texto: Este ensaio nasce de uma releitura livre e pessoal dos versos de Mario Quintana, propondo um olhar contemporâneo sobre tempo, medo e coragem afetiva.