Política e Resenha

QUANDO MORRE UM MESTRE, A CIDADE PERDE UM PEDAÇO DA PRÓPRIA ALMA

 

 

Padre Carlos

Há pessoas cuja ausência não cabe na palavra “morte”. Elas permanecem. Caminham silenciosamente pelos corredores da memória, habitam as salas de aula, sobrevivem nas conversas dos antigos alunos e continuam ensinando muito depois que sua voz se cala. Há exatos três anos, Vitória da Conquista perdeu um desses homens raros: o professor Paulo Fernando de Oliveira Pires. Mas seria injusto dizer apenas que ele morreu. Na verdade, ele entrou definitivamente para a história da educação conquistense.

Vivemos uma época paradoxal. Nunca estivemos tão conectados pelas redes sociais e, ao mesmo tempo, tão distantes uns dos outros. A tecnologia aproximou telas, mas frequentemente afastou corações. Multiplicamos contatos e reduzimos amizades. Colecionamos seguidores, mas perdemos companheiros. Em muitos ambientes, o valor das pessoas passou a ser medido pelo poder que possuem, pela influência política que exercem ou pelos benefícios que podem oferecer. O “ter” passou a sufocar o “ser”.

É justamente por isso que recordar Paulo Pires é mais do que um exercício de saudade. É um ato de resistência.

Natural de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, chegou ainda menino a Vitória da Conquista. A cidade o acolheu, e ele devolveu esse acolhimento da maneira mais nobre possível: dedicando mais de quatro décadas de sua vida à formação de milhares de jovens na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e, posteriormente, na FAINOR, ensinando Ciências Contábeis e Administração com uma combinação rara de competência técnica e sensibilidade humana.

Há professores que ensinam disciplinas.

Outros ensinam a viver.

Paulo Pires pertencia ao segundo grupo.

Quem teve o privilégio de conviver com ele dificilmente recorda apenas suas aulas. Lembra-se, sobretudo, de seu sorriso sereno, da paciência quase infinita, da capacidade de ouvir antes de responder e da delicadeza com que tratava cada pessoa, independentemente de sua posição social. Em um mundo que recompensa o espetáculo, ele escolheu a simplicidade. Em uma sociedade fascinada pelo protagonismo, ele preferiu servir.

Talvez seja exatamente isso que distingue um educador de um mestre.

O educador transmite conhecimento.

O mestre transmite humanidade.

E humanidade nunca esteve tão em falta.

Vivemos dias em que o debate público se tornou agressivo, as relações se tornaram descartáveis e o individualismo ganhou status de virtude. Parece que desaprendemos a cultivar amizades sinceras. Encontrar alguém disposto a oferecer afeto sem esperar recompensa tornou-se quase um milagre cotidiano.

Paulo Pires era um desses milagres discretos.

Professor, músico, artista, militante das causas humanas e, acima de tudo, amigo. Um amigo daqueles cuja presença fazia o ambiente respirar melhor. Pessoas assim não precisam levantar a voz para serem ouvidas. Sua autoridade nasce da coerência entre aquilo que dizem e aquilo que vivem.

Sua morte, em 1º de agosto de 2023, aos 71 anos, deixou um vazio impossível de preencher. Não apenas entre familiares, especialmente sua companheira de vida, Terezinha Fernandes, e seu filho, João Paulo Pires, mas também entre colegas, ex-alunos e todos aqueles que tiveram a felicidade de cruzar seu caminho.

Existe uma antiga reflexão atribuída ao poeta inglês John Donne, eternizada por Ernest Hemingway: “Nunca perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

A frase atravessa os séculos porque revela uma verdade desconcertante.

Quando perdemos alguém verdadeiramente bom, não é apenas aquela pessoa que parte.

Parte também uma possibilidade de mundo.

Parte uma maneira mais generosa de viver.

Parte um pedaço daquilo que gostaríamos de ser.

A morte de um amigo nunca é apenas uma perda individual. Ela nos confronta com nossa própria finitude e nos obriga a perguntar que tipo de legado estamos construindo. Quantas pessoas sentirão nossa ausência não pelo cargo que ocupamos, mas pelo bem que fizemos? Quantas vidas serão melhores porque passamos por elas?

Paulo Pires respondeu a essas perguntas ainda em vida.

Seu legado permanece inscrito nas milhares de histórias que ajudou a escrever sem jamais buscar reconhecimento. Está nos profissionais que formou, nos valores que semeou, nas amizades que cultivou e no respeito que conquistou sem recorrer à vaidade.

Em tempos em que tantos desejam ser famosos, ele preferiu ser útil.

E talvez essa seja a forma mais elevada de grandeza.

A tradição cristã nos recorda que ninguém é perfeito. Todos somos pecadores, todos carregamos limitações. Mas também nos ensina que a misericórdia de Deus é maior que nossas fraquezas. É confortador imaginar que homens como Paulo Pires, cuja vida foi marcada pela generosidade, pela humildade e pelo serviço ao próximo, encontram repouso na paz eterna prometida pelo Evangelho.

Hoje, três anos depois de sua partida, Vitória da Conquista continua falando de Paulo Pires. Isso acontece porque algumas pessoas vencem o tempo. Não permanecem apenas nas fotografias, mas na consciência coletiva de uma cidade inteira.

A educação é feita de prédios, bibliotecas e laboratórios.

Mas sua verdadeira matéria-prima sempre serão homens e mulheres capazes de inspirar outras vidas.

Paulo Pires foi um desses construtores invisíveis da esperança.

Sua história nos convida a desacelerar, olhar nos olhos das pessoas, valorizar as amizades sinceras, cultivar o diálogo, oferecer mais presença do que aparência e compreender que a riqueza mais valiosa jamais será encontrada em contas bancárias, mandatos políticos ou títulos acadêmicos.

Ela mora no coração daqueles que aprenderam a amar sem interesse.

Hoje os sinos voltam a tocar.

Não apenas por um professor.

Não apenas por um amigo.

Tocam para lembrar que uma sociedade só permanece verdadeiramente humana enquanto for capaz de reconhecer, honrar e agradecer aqueles que dedicaram a própria existência a iluminar o caminho dos outros.

Paulo Pires partiu há três anos. Seu corpo descansou. Sua voz silenciou. Mas seu legado continua ensinando. E enquanto houver um aluno que se lembre de seu exemplo, um amigo que repita seu nome ou uma cidade que reconheça sua grandeza, ele jamais deixará de viver.