Memórias & Amizade

Laranjeiras, botequins e uma amizade que atravessou o Rio de Janeiro
F
oi bom conviver por alguns anos juntos num apartamento em Laranjeiras. Muitos papos, aventuras e discussões poéticas, musicais e políticas. Eu defendia Fernando Pessoa como o maior poeta da nossa língua, e Paulo dizia que o maior era João Cabral de Melo Neto. Eu era Flamengo, ele Fluminense. Eu gostava de Noel, ele de Caymmi. E na política, eu militava na esquerda enquanto ele admirava Médici. Discordávamos de quase tudo — e, no fim, era exatamente isso que tornava as noites tão boas.
Uma amizade forjada em Laranjeiras
Mas nada disso nos impedia de seguir juntos. Íamos ao Maracanã torcer, cada um pelo seu time, e depois discutir o jogo até altas horas. Fazíamos a carimba na Penha, curtíamos a praia de Ipanema, frequentávamos cineclubes e a Cinemateca, e não deixávamos escapar um bom botequim de Laranjeiras. Eram os anos 70, o Rio de Janeiro fervilhava de ideias, música e política — e nós dois, vindos de Vitória da Conquista para trabalhar e estudar, aproveitávamos cada centímetro daquela cidade.
Rimas, sambas e resenhas de botequim
E por falar em botequim, houve uma madrugada especial. Foi num bar em Botafogo, onde passamos horas bebendo cerveja, conversando e, para nossa sorte, cantando ao lado de Beth Carvalho e Nelson Cavaquinho. Uma dessas noites que a memória guarda com carinho especial, sem precisar de nenhum esforço.
“Passamos uma madrugada bebendo cerveja, conversando e cantando com Beth Carvalho e Nelson Cavaquinho. Foi bom demais.”
— Walter Pires, sobre uma noite inesquecível em Botafogo
Momentos assim eram o verdadeiro cimento da nossa amizade. Não importava quem estava certo sobre Pessoa ou Cabral, sobre Flamengo ou Fluminense, sobre Noel ou Caymmi. O que importava era estar ali, dividindo a mesa, o samba e a cidade.
Um recorte de época
Éramos dois jovens baianos de Vitória da Conquista tentando encontrar seu lugar no Rio de Janeiro dos anos 70 — cidade de contrastes, tensões políticas e uma efervescência cultural que moldou toda uma geração. As nossas divergências não eram apenas de gosto pessoal: refletiam o próprio país, dividido, em ebulição, buscando seus caminhos.
Caminhos que se separam
Mas no final a gente ficou distante, porque assumi uma posição política liberal e critiquei Lula. Ele não gostou. As mesmas discussões que antes eram tempero da amizade, com o tempo, se tornaram distância. É assim, às vezes: os anos mudam as pessoas, os caminhos se bifurcam, e o que antes unia passa a separar.
Ainda assim, fica a lembrança viva daqueles anos em Laranjeiras, dos jogos no Maracanã, das praias de Ipanema, dos cineclubes e, sobretudo, daquela madrugada em Botafogo ao lado de Beth Carvalho e Nelson Cavaquinho. Foi bom demais — e continua sendo, cada vez que a memória volta a visitar aqueles dias.
Rio de Janeiro
Amizade
Anos 70
Samba
Walter Pires
Natural de Vitória da Conquista, foi no início dos anos 70, ao lado de Paulo Pires, trabalhar e estudar no Rio de Janeiro. Trabalhou muitos anos na Nestlé, formou-se em Administração de Empresas, ingressou em uma multinacional e morou vários anos na Europa. Em memória sempre viva de seu amigo Inácio Cássio Paulo Pires.




