Política e Resenha

Desidratação da Escrita, Poder da Mentira e Avanço da Cretinice Digital

Ensaio

Desidratação da Escrita, Poder da Mentira e Avanço da Cretinice Digital

breve ensaio sobre a ontologia da mendacidade

José Alcimar de Oliveira

“A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina.”

— Walter Benjamin

Segundo escreve o evangelista João, autor do quarto evangelho, a única paternidade autoral atribuída a Satanás é a da mentira. É Jesus de Nazaré quem imprime força ontológica para que se compreenda a natureza dessa diabólica criatura — cuja função epistêmica é retratada em Jung —, sempre associada à mentira. Ao contrário da conotação do simbólico, que indica união, harmonia, unidade, aquilo que é de natureza diabólica implica divisão, mentira, calúnia. Autodidata (quase um Sócrates semita) e frequentador inassíduo da Escola Samaritana da Galileia (ESG), localizada em Nazaré, Jesus, doutor que era em conhecimento e leitura do mundo humano, sempre desconfiava de quem se lhe apresentava com pose arrogante de especialista, como os escribas e fariseus.

Embora soubesse ler e escrever, Jesus tinha consciência de viver num mundo presidido pela tradição oral. Tinha um peculiar domínio sobre as imagens, expressões e situações que estruturavam a vida de seus conterrâneos. Por isso, recorria permanentemente ao recurso metafórico das parábolas campesinas para dialogar com o povo. O que Paulo Freire aplicou ao ensino da escrita para a classe trabalhadora nordestina, a partir da experiência paradigmática de Angicos, RN, em 1963, Jesus o fazia, no plano da oralidade, na Palestina de seu tempo. Foi um freiriano avant la lettre. Conhecia o recurso pedagógico das palavras-chave, que Paulo Freire, um jesuano marxista em sentido largo e dialético, vai chamar depois de “palavras geradoras”.

O Mestre de Nazaré e a Antecedência da Suspeita

João, o teólogo, com uma intuição algo spinozista, assim registra a atitude do Mestre de Nazaré diante da arrogância dos judeus que o interrogavam em Jerusalém: “Jesus, porém, não confiava neles, porque os conhecia a todos. Não precisava de ninguém para lhe dar testemunho a respeito de nenhum ser humano, pois conhecia o ser humano por dentro” (Jo 2,25). Há em Jesus de Nazaré — e certamente a demandar estudo — uma antecedência ontológica e epistêmica da matéria humana que viria a estruturar os três grandes mestres da suspeita do mundo contemporâneo: Marx, Nietzsche e Freud. Não será por ter vislumbrado essa antecedência ontológica que Edgar Morin, ateu, incluiu Jesus de Nazaré entre seus filósofos? Gramsci, que não era cristão, também já incluíra Jesus como filósofo ao demonstrar e defender, de forma preliminar, que todo ser humano é filósofo.

A linguagem do Nazareno, sua analítica da vida, é límpida como as águas de uma fonte e desvestida dos adereços linguísticos do estilo heideggeriano. Heidegger pensa em reter o mundo pela mediação da linguagem, por ele considerada moradia do ser. Jesus, por meio de parábolas carregadas de vida, prefere imprimir o mundo na linguagem. Na verdade, em Jesus há um duplo devir: o da linguagem que se faz mundo e o do mundo que se faz linguagem. O que é o chamado Mistério da Encarnação, do Verbo que se faz carne, gente do povo, a não ser a conformação da linguagem ao mundo? Não, no caso de Jesus, ao mundo do poder — político e religioso — ou da riqueza. Antes ao mundo daqueles que o sub-habitam, periferizados, empurrados para as margens da sociedade.

Como sempre repete Frei Betto, que a cabeça pensa onde pisam os pés, Jesus fala da pequena cidade de Nazaré — em que pisa — para o mundo. Já antecipava a bênção pontifícia urbi et orbi (para a cidade e o mundo), no caso a partir da pomposa Cidade do Vaticano. Jesus vai sempre direto ao que estrutura e move o contraditório coração humano.

“Por que não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar a minha palavra. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”
João 8,43-44

Um Esboço de Ontologia da Mentira

Com base na heterodoxia de minha condição de teólogo sem cátedra, arrisco a dizer que Jesus alinhava o primeiro esboço de uma ontologia da mentira. O pai da mentira não mente por acidente. Mente porque a mentira é constitutiva de sua essência. É ontologicamente mentiroso. O mais astuto dos mentirosos. Faz da mentira uma forma de vida e mente com a consciência da verdade que oculta. Mas entre a figura satânica do chamado pai da mentira, dos tempos bíblicos, e as imagens pavorosas criadas pela cristandade medieval, quando o movimento de Jesus cedeu lugar às construções fanáticas que fundamentavam a fé pelo temor, falta aí crítica exegética e sobra dogmatismo maniqueísta. A gênese da argila que serve de base para a construção dos tijolos do inferno procede mais da história do ser humano, enquanto ser social, do que do alegado enredo metafísico, com sua ardilosa capacidade de ocultar as contradições que atravessam o mundo do aquém, único que conhecemos e no qual vivemos ou sobrevivemos.

Não há registro de que na ESG, situada naquele pequeno vilarejo de má fama chamado Nazaré, Jesus tenha tido acesso a conteúdos freudianos, e muito menos estabelecido contato com o materialismo messiânico de outro judeu, de nome Walter Benjamin. O teólogo João muito menos. João, presumivelmente, tinha razoável conhecimento da Filosofia Antiga Grega, da qual hauriu sua compreensão do logos, conceito com o qual estrutura aquele que é o mais poético dos evangelhos. O logos, fecundo conceito dos períodos pré-socrático, socrático e pós-socrático do pensamento da Hélade, foi semitizado pela maestria da linguagem joanina. À época em que João redigiu o quarto evangelho não havia lugar para o conceito subontológico de pós-verdade ou de autoverdade. Se houvesse tal conceito e tivesse a livre circulação que tem hoje, nesses tempos de cognição epidérmica, o sábio samaritano de Nazaré provavelmente, ao referir-se aos filhos da mentira, teria igualmente dito: também são filhos da pós-verdade e da autoverdade.

Kant, Reich e a Peste Emocional

Avesso à mentira, Kant igualmente rejeitaria a tal da pós-verdade, tanto quanto seu caráter eufemístico e nocivo às referências ontológicas, sem as quais a humanidade se dissolve num presente sem história e sem memória. A este propósito, Kant condicionava a resposta à pergunta “o que é o homem?” a três interrogações prévias: o que posso conhecer? o que devo fazer? e o que me é permitido esperar? Estas perguntas estão na base de seu edifício crítico. A mentira encanta, move, atrai, excita. E aliada ao medo, multiplica seu poder sobre as mentes fanatizadas. É a isso, penso, que Wilhelm Reich denomina de peste emocional da humanidade. E seria um erro associar tal peste às classes subalternizadas. O seu Zé Ninguém é da genealogia do lumpesinato, que atravessa todas as classes sociais, e sempre refratário às causas coletivas e à luta de classes. É a mediocridade ressentida, trânsfuga e envenenada pelo ódio ao conhecimento.

O Príncipe do Poder do Ar

Seria um equívoco epistemológico atribuir às redes digitais a emergência do imbecil mediático e inimigo das mediações, da teoria, da reflexão. Merece especial reflexão a estranha figura a que o apóstolo Paulo se refere em Efésios 2,2: o “Príncipe do poder do ar”. A despeito de agregar a si vários nomes, este Príncipe só aparece uma vez em todo o texto bíblico. Mesmo nos tempos paulinos, com limitados dispositivos mediáticos, o alcance de sua ação pervertida já mobilizava de forma coletiva corações e mentes. Afinal, para os antigos era no ar que se abrigavam os espíritos demoníacos, todos sob as ordens de Satanás, o Príncipe do poder do ar.

Hoje, com a mediatização das relações sociais, o poder do Príncipe da perversão opera com eficientes recursos digitais e potencializa globalmente seu alcance. Onipresente, multiplica-se por mãos e mentes anônimas, fidelizadas pelo fanatismo, religioso sobretudo.

A Cópula Capitalista entre Técnica e Estupidez

Apartado do fogo heraclítico, o iluminismo refluiu, converteu-se em “mistificação das massas” (Adorno/Horkheimer) e instrumentalizou com eficientes dispositivos o mundo da cretinice digital. Da cópula capitalista entre técnica e estupidez nasce e aumenta, em ritmo industrial, a massa informe do imbecil mediático.

As redes digitais embalam, sob anonimato, o fascista mediático e lhe garantem livre curso para a organização política do ódio. O ódio organizado como política não é um acidente, mas um constitutivo essencial do fascismo. O ódio estigmatizante se alia ao medo e juntos subtraem à palavra seu poder crítico, reflexivo e ontológico. Convertida em palavra de ordem e assepsiada de dúvida, a palavra conquista e enfeitiça o pensamento. A palavra de ordem é mobilizada para tornar proscrita a escrita. Sem a arte e o poder da escrita não haverá domínio sobre o pensamento, que seguirá dominado pela palavra de ordem.

Por isso o imbecil mediático, mesmo ao escrever, continua refratário à arte da escrita. Ele odeia a leitura e a escrita e, por consequência, a filosofia. A escrita, nunca é demais lembrar, se inscreve como um dos fatores que favoreceram o nascimento da filosofia na Grécia Antiga. Mas nem toda fala é sinal de agnosia. Certamente há mais cognição e sabedoria na fala de um narrador da tradição oral indígena ou de um cantador popular do que nos textos emanados pela crescente cretinice digital. A cretinice digital afronta igualmente a fala e a escrita. Dizer que alguém escreve como fala não é garantia de pensamento. Para pensar com Walter Benjamin, a morte do narrador se fez acompanhar da morte da escrita e, mais grave ainda, adicionaria: a morte da memória.

Walter Benjamin: a Técnica do Escritor

A propósito de Walter Benjamin, num breve e rico texto filosófico intitulado A técnica do escritor em treze teses, encontramos esta recomendação:

“Não deixe nenhum pensamento passar incógnito e mantenha seu caderno de notas tão rigorosamente quanto a autoridade constituída mantém o registro de estrangeiros.”
Walter Benjamin

A aversão à escrita reflexiva, que se intensifica nas redes digitais, se manifesta na forma limitada como a fala, mesmo transposta para escrita, ainda permanece no nível rebaixado da fala. Há um grau qualitativo no devir da fala à escrita. A escrita deve, ou deveria, imprimir estatuto ontológico à fala. Mas sob o poder das redes digitais e do crescimento exponencial da chamada inteligência artificial, estamos diante de um irreversível processo de desidratação da escrita autônoma, crítica e autoral.

A Escrita como Filtro do Pensamento

Cabe à escrita qualificar a fala, desde que a submeta às exigências da reflexão, do silêncio, da introspecção, da autonomia do espírito e dos sempre ameaçados direitos da inteligência, o que dificilmente ocorre nos textos rasos das ditas redes digitais, carentes de pensamento, de discernimento e com baixo coeficiente de cognição. Somente quando o pensamento é submetido ao filtro da boa escrita, é possível remover o preconceito, a mentira, a palavra de ordem, que tendem a se mover em regime de incontinência no transcurso da fala.

Por fim, uma observação: como as redes digitais expropriaram ao polegar sua filogenética função opositora, e por força de minha invencível e dinossáurica inabilidade para lidar com o mundo dos dígitos, só consigo digitar, e mal, com o indicador.

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Sobre o autor

José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado (1998) e o doutorado (2011). É também teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA — Seção Sindical — e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE).

Manaus, AM — agosto de 2026