Chico Pinto e a coragem de não caber no silêncio

Em tempos de conveniência política, a trajetória do líder feirense lembra que a democracia não se sustenta com discursos domesticados, mas com participação popular, memória e coragem moral
Padre Carlos
Que espécie de homem entra na política para perder o medo — e, ao fazê-lo, devolve aos outros a coragem de levantar a voz?
Em Feira de Santana, a resposta tem nome, sobrenome e uma história que ainda incomoda a acomodação: Francisco Pinto, o Chico Pinto. Não apenas um político. Não apenas um prefeito, deputado ou opositor da ditadura. Chico Pinto foi, antes de tudo, uma presença pública. Uma dessas raras figuras que não passam pela história sem deixar marcas; atravessam-na como uma lâmina, separando o possível do necessário.
Sua trajetória não cabe nos moldes confortáveis da política ornamental. Ela começa em 1962, quando venceu a eleição para prefeito de Feira de Santana pelo Partido Social Democrático, em uma disputa apertada contra João Durval Carneiro, da União Democrática Nacional. A diferença foi de algumas dezenas de votos. Mas a transformação que se anunciava não seria medida pela estreiteza da vitória, e sim pela amplitude do gesto político.
Chico Pinto chegou ao poder para alterar costumes. Feira, até então conduzida por famílias tradicionais frequentemente distantes das necessidades dos mais pobres, conheceu uma administração que procurava romper a distância entre gabinete e rua. Em um país tensionado por impasses, desigualdades e promessas interrompidas, o novo prefeito defendia a organização dos trabalhadores e propagandeava as Reformas de Base do governo João Goulart. Fazia isso onde a política realmente respira: nas praças, nas conversas públicas, no encontro com a gente comum.
Há uma imagem poderosa nessa experiência: a de uma cidade convocada a participar das próprias decisões. Nenhuma obra era realizada sem consulta popular. Pode parecer uma ideia simples. Não é. Em sociedades acostumadas a receber decisões prontas, consultar o povo deixa de ser protocolo e se transforma em ruptura.
A política deixa de ser favor. Torna-se compromisso. Essa era a ideia. E justamente por isso ela despertava temor.
O Preço da Coragem
Em abril de 1964, Chico Pinto foi cassado e preso, sendo substituído pelo udenista Joselito Amorim. A ditadura militar não perseguiu apenas homens; perseguiu possibilidades. Cassar um mandato era também tentar cassar uma linguagem — a linguagem da participação, da denúncia, da mobilização popular. Prender um adversário era uma forma de dizer à sociedade que determinadas perguntas não deveriam ser feitas e que certas vozes deveriam desaparecer atrás das grades.
Chico Pinto, porém, não desapareceu. Perseguido, respondeu a diversos processos e foi absolvido em todos. Em 1966, participou da fundação do Movimento Democrático Brasileiro na Bahia, mantendo aberta, em meio ao autoritarismo, uma fresta de resistência institucional. Eleito deputado federal em 1971, recusou a postura dócil que muitos esperavam da oposição sob um regime militar. Discordou da posição do próprio partido diante do governo e ajudou a organizar o chamado grupo autêntico — ou MDB autêntico —, formado por parlamentares dispostos a levar o enfrentamento democrático mais longe.
Aqui está o ponto de virada de sua história: Chico Pinto não confundia mandato com salvo-conduto. Para ele, o cargo não era uma blindagem pessoal nem um passaporte para a prudência conveniente. Era uma responsabilidade. E responsabilidade, quando a liberdade está ameaçada, não combina com silêncio calculado.
Em pleno mandato parlamentar, após criticar duramente a ditadura chilena e o general Augusto Pinochet em uma rádio de sua cidade, foi preso. Permaneceu recluso por seis meses. Seis meses — tempo suficiente para a maioria das pessoas aprender a medir cada palavra, escolher cada gesto e proteger a própria pele. Mas, quando voltou a Feira de Santana, Chico Pinto não retornou diminuído. Retornou como herói popular, recebido por uma cidade que reconhecia nele algo maior do que a bravura individual: reconhecia a dignidade coletiva de quem não se curva.
O cineasta Olney São Paulo registrou essa volta no documentário Pinto vem aí, vencedor do prêmio do V Festival Brasileiro de Curta-Metragem do Jornal do Brasil, além de obter reconhecimento em outros festivais. O título do filme contém uma espécie de eletricidade histórica. “Pinto vem aí” não anunciava apenas a chegada de um homem; anunciava o retorno de uma voz que o cárcere não conseguira calar.
Denúncia e Perseguição
Anos depois, em 1979, Chico Pinto voltou a enfrentar o poder em sua forma mais ameaçadora: o poder que dispõe de influência, recursos e mecanismos para transformar a denúncia em punição. Ao tornar público um dossiê atribuído ao coronel Raimundo Saraiva Martins, denunciou o então ministro Delfim Netto por suposto recebimento de propina, à época descrita como comissões ilícitas no valor de seis milhões de dólares, depositados, segundo a denúncia, em um banco suíço. O ministro o processou, e a vida do parlamentar foi devassada.
É preciso fazer uma distinção essencial: uma denúncia não equivale a uma condenação. Mas também é preciso reconhecer o outro lado da verdade: democracias adoecem quando o denunciante é tratado como o problema e o poder denunciado como assunto intocável.
A coragem de Chico Pinto não consistia em possuir todas as respostas; consistia em não aceitar que a pergunta fosse proibida.
Heranças do Presente
Essa é a herança que sua biografia oferece ao presente. Não uma santificação, porque homens públicos não devem ser transformados em estátuas sem contradições. Tampouco uma nostalgia vazia, dessas que decoram o passado para evitar o trabalho de interpretar o presente. A lição é mais exigente: a democracia precisa de pessoas dispostas a pagar um preço pela coerência.
Hoje, quando a política frequentemente se converte em cálculo de imagem, quando a indignação é administrada por conveniências eleitorais e quando muitos preferem a segurança de uma frase neutra à responsabilidade de uma posição clara, Chico Pinto reaparece como uma pergunta incômoda. O que estamos dispostos a defender quando defender a verdade deixa de ser confortável? Que participação popular desejamos quando ela ameaça os privilégios de quem sempre decidiu sozinho? Que democracia celebramos quando toleramos a perseguição daqueles que denunciam abusos?
Chico Pinto foi deputado federal em outras ocasiões e chegou a disputar as prévias do PMDB para o governo da Bahia, em 1982. Desistiu da candidatura para apoiar Roberto Santos, que acabou derrotado por João Durval Carneiro, seu antigo rival de Feira de Santana. Mesmo nas derrotas, sua trajetória não perdeu densidade. Há homens que vencem eleições e desaparecem. Há outros que, mesmo quando não vencem, ampliam o horizonte moral da política.
Chico Pinto pertence a essa segunda categoria.
Seu nome permanece porque ele entendeu algo que a política contemporânea insiste em esquecer: o povo não precisa de representantes que falem bonito em seu lugar; precisa de representantes que tenham coragem de escutá-lo, organizá-lo e enfrentar, em seu nome, os donos do silêncio.
A história da Bahia o guardou como um homem combativo e comprometido com a democracia. Feira de Santana o reconheceu como uma figura popular. O país deveria reconhecê-lo como aquilo que ele foi em sua dimensão mais profunda: um político que não aceitou transformar a prudência em covardia nem o mandato em silêncio.
Porque a democracia não morre apenas quando os tanques ocupam as ruas. Às vezes, ela começa a morrer quando as pessoas honestas aprendem a calar. E Chico Pinto, com sua voz áspera, sua coragem sem verniz e sua fidelidade aos que quase nunca eram ouvidos, nos deixou a advertência mais necessária de todas:
quando a verdade cobra coragem, o silêncio também é uma escolha — e quase nunca é uma escolha inocente.




