Política e Resenha

A Saudade é o Azar de Quem Teve Muita Sorte

A Saudade é o Azar de Quem Teve Muita Sorte

Por Padre Carlos

Durante muitos anos, eu não soube dar nome ao que sentia. Confundi saudade com perda. Achei que aquela dor silenciosa que, de vez em quando, apertava o peito era apenas o vazio deixado por alguém que partiu. Tentei compreender pela lógica aquilo que só o coração sabia explicar.

Até que, um dia, li uma frase escrita em um muro velho, quase escondida pelo tempo, pela chuva e pelo esquecimento. Era uma frase simples, mas que encontrou dentro de mim um lugar que talvez estivesse esperando por ela havia muitos anos:

“A saudade é o azar de quem teve muita sorte.”

Foi então que alguma coisa mudou.

De repente, compreendi que talvez eu não estivesse sofrendo apenas porque perdi alguém. Eu sofria porque tive a sorte extraordinária de encontrar alguém que deixou marcas profundas demais para desaparecer com a distância.

Encontros que Atravessam a Vida

Existem encontros que acontecem todos os dias. Pessoas passam por nossas vidas, conversam conosco, dividem alguns momentos, deixam lembranças e seguem adiante. São encontros importantes, alguns até muito bonitos, mas que o tempo consegue acomodar em alguma gaveta da memória.

Mas existem outros. Pouquíssimos. Encontros que não passam.

Pessoas que não simplesmente entram em nossa história: elas atravessam a nossa história. E, depois delas, nós já não somos exatamente os mesmos.

Foi isso que aconteceu comigo.

Há pessoas que conhecemos e esquecemos. Há outras que conhecemos e carregamos para sempre. Não porque queremos viver presos ao passado, mas porque certas experiências se tornam parte daquilo que somos.

É como se aquela pessoa tivesse deixado uma impressão digital na alma. E não há tempo capaz de apagá-la.

O Testemunho da Ausência

Talvez seja justamente por isso que algumas ausências doem tanto. Porque não sentimos falta apenas da presença física de alguém. Sentimos falta de quem éramos quando aquela pessoa estava perto. Sentimos falta das conversas, dos silêncios, dos pequenos gestos, dos detalhes que naquele momento pareciam insignificantes e que hoje adquiriram um valor quase sagrado.

A saudade é estranha. Ela consegue transformar uma lembrança em presença e uma ausência em companhia.

Às vezes, basta uma música. Um cheiro. Uma fotografia. Uma rua. Uma palavra. Um lugar qualquer. E, de repente, aquilo que parecia distante volta inteiro. Não volta como memória. Volta como sentimento.

E talvez seja por isso que eu tenha demorado tanto para compreender o que acontecia comigo. Eu estava tentando curar uma saudade que não precisava ser curada. Precisava ser compreendida. Porque existem dores que não são doenças. São testemunhos.

A saudade é, muitas vezes, o testemunho de que alguma coisa extraordinariamente bonita aconteceu conosco.

O Privilégio de Amar

E hoje eu consigo olhar para a minha própria saudade de outra maneira. Não quero mais enxergá-la apenas como sofrimento. Quero enxergá-la também como privilégio.

Porque nem todo mundo tem a sorte de encontrar alguém capaz de bagunçar a sua existência. Nem todo mundo experimenta aquele encontro que chega sem pedir licença, rompe nossas certezas, modifica nossa maneira de enxergar o mundo e deixa uma marca que permanece mesmo quando a pessoa já não está.

Esses encontros são raros. Talvez sejam alguns dos maiores acontecimentos de uma vida.

Por isso, quando eles acontecerem, não economize amor. Não tenha medo de demonstrar. Não deixe para amanhã aquele abraço. Aquela palavra. Aquele pedido de desculpas. Aquele “eu te amo”. Aquele “obrigado por existir na minha vida”.

Porque a vida não nos promete reencontros. Ela apenas nos oferece encontros. E alguns deles são presentes que só aprendemos a reconhecer depois que se transformam em saudade.

O Que a Saudade Nos Ensina

Eu me sinto, portanto, uma pessoa privilegiada por carregar uma falta tão grande. Parece contraditório dizer isso. Mas não é.

Porque, diante dessa saudade, muitas coisas que antes pareciam enormes perderam completamente a importância. Pequenas vaidades, disputas, ressentimentos, preocupações passageiras… tudo parece menor quando comparado à dimensão de uma experiência que realmente nos transformou.

Há algo profundamente humano nisso. A saudade nos ensina sobre aquilo que realmente importa. Ela reorganiza nossas prioridades.

Ela nos faz perceber que a vida não é feita apenas daquilo que conseguimos acumular, conquistar ou controlar. A vida também é feita das pessoas que encontramos pelo caminho e das marcas que deixamos umas nas outras.

Talvez o verdadeiro patrimônio de uma existência sejam justamente esses encontros. Aqueles que nos fizeram rir quando estávamos tristes. Aqueles que nos ensinaram alguma coisa. Aqueles que nos fizeram acreditar novamente. Aqueles que nos deram coragem. Aqueles que nos fizeram sentir vivos. E, sobretudo, aqueles cuja ausência ainda consegue provocar lágrimas.

Porque se alguém ainda consegue fazer falta depois de tanto tempo, é porque, em algum momento, essa pessoa significou presença. E uma presença verdadeira nunca desaparece completamente. Ela muda de lugar.

Sai do cotidiano e vai morar na memória.

Sai do abraço e vai morar na alma.

Sai dos olhos e passa a viver dentro do coração.

Uma Forma de Agradecer

Hoje, quando sinto sua falta, já não quero fugir desse sentimento. Eu o acolho. Porque compreendi que sentir saudade também é uma forma de agradecer.

Agradecer pelo encontro. Agradecer pelo que vivi. Agradecer por ter sido transformado. Agradecer até mesmo pela dor, porque algumas dores são o preço inevitável de experiências que valeram a pena.

E então aquela frase encontrada naquele velho muro ganhou, para mim, um significado ainda maior:

a saudade é realmente o azar de quem teve muita sorte.

Eu tive sorte. Muita sorte.

Fui atravessado por uma presença que deixou marcas em mim. Fui bagunçado por uma história que jamais será completamente esquecida. Conheci uma pessoa que me fez compreender que existem sentimentos que não cabem em explicações.

E, por isso, quando digo “eu sinto sua falta”, talvez esteja dizendo muito mais. Estou dizendo:

“Você foi importante.”

“Você deixou marcas.”

“Você fez parte de mim.”

“Minha vida seria diferente sem você.”

E, acima de tudo: “Que bom que você passou pela minha vida.”

Porque, entre viver uma existência protegida, sem grandes perdas e sem grandes marcas, e viver o risco de amar profundamente e depois sentir saudade, eu escolheria novamente a segunda opção. Sempre.

É muito melhor carregar uma saudade do que atravessar a vida inteira sem nunca ter encontrado alguém capaz de nos transformar. É muito melhor ter o coração partido por uma ausência do que passar pela existência com o coração intacto, mas vazio.

Por isso, hoje eu não amaldiçoo a saudade. Eu a respeito. Ela é a cicatriz bonita de uma história que um dia foi presença.

E talvez seja essa a grande ironia da vida: algumas das nossas maiores tristezas nascem justamente das nossas maiores felicidades.

“Você está sentindo falta porque, um dia, você foi muito feliz.”

E diante disso, só posso agradecer.

Eu sinto sua falta. Mas, agora, compreendo que essa falta também é uma prova de que eu tive a sorte de encontrar você.

E há encontros que, mesmo terminando, continuam acontecendo dentro de nós todos os dias.

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#Reflexão
#Gratidão

— Padre Carlos


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