Política e Resenha

PF bate à porta de novo: o que falta para o Rio saber quem manda no fogão?

O Rio de Janeiro virou uma refinaria de escândalos

(Padre Carlos)

Há momentos em que a realidade política brasileira parece ter sido escrita por um roteirista de comédia. O problema é que, quando a Polícia Federal bate à porta, a piada deixa de ter graça.

Nesta sexta-feira, 14 de agosto, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Sem Refino. Foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, e um dos alvos novamente é o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. A investigação apura suspeitas envolvendo a concessão de licenças ambientais para a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, além de lavagem de capitais e outros crimes econômicos.

E aqui começa a minha perplexidade.

Porque alguém precisa me explicar, com toda a serenidade republicana possível: quantas vezes um ex-governador precisa aparecer no radar de uma investigação para que a sociedade possa começar a perguntar se existe algo além de uma simples coincidência?

Não estou dizendo que Cláudio Castro seja culpado. Isso cabe à Justiça decidir. Investigação não é condenação, busca e apreensão não é sentença e suspeita não é prova definitiva.

Mas também não sou obrigado a fingir que não estou vendo.

“O ex-governador já havia sido alvo de buscas na primeira fase da Operação Sem Refino, em maio. Agora, três meses depois, volta a ser alvo de diligências na mesma investigação.”

A PF afirma investigar possíveis fraudes em licenças ambientais e crimes que incluem gestão fraudulenta e temerária, lavagem de capitais, sonegação fiscal, evasão de divisas, manipulação de mercado e crimes contra a ordem econômica relacionados ao comércio de combustíveis.

É uma lista tão extensa que, se fosse currículo profissional, já daria para pedir aposentadoria.

A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta

E aí vem a pergunta que começa a martelar a cabeça de qualquer cidadão que acompanha a política fluminense: Por que Cláudio Castro ainda não foi preso?

Calma. Antes que alguém me acuse de querer transformar este artigo em tribunal, esclareço: não estou pedindo prisão por opinião, nem defendendo que alguém seja encarcerado apenas porque virou alvo de investigação.

Estou perguntando outra coisa. Diante da sucessão de diligências, da profundidade das investigações e das suspeitas apresentadas pelas autoridades, quais são exatamente os critérios jurídicos que fazem a Justiça entender que, neste momento, a prisão preventiva não é necessária?

Essa é uma pergunta legítima em uma democracia.

Curiosamente, na primeira fase da Operação Sem Refino, o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão do empresário Ricardo Magro, apontado como dono da Refit. Magro está no exterior e é considerado foragido.

E aí o cidadão comum olha para a televisão, olha para o celular, lê as notícias e pensa: “Mas espera aí… e quem estava do outro lado do balcão?”

Essa é a parte que precisa ser esclarecida.

A engrenagem por trás da caneta

Se há suspeitas sobre uma suposta engrenagem envolvendo interesses empresariais e agentes públicos, precisamos saber quem operava essa engrenagem, quem autorizava, quem facilitava, quem ganhava e quem eventualmente perdeu.

Porque licença ambiental não nasce por geração espontânea.

Uma caneta assina.

Um servidor analisa.

Um órgão autoriza.

Um governo administra.

Uma empresa se beneficia — se as suspeitas forem comprovadas.

E é justamente por isso que a investigação precisa chegar ao fim. Sem espetáculo. Sem perseguição. Sem proteção. E, principalmente, sem aquela velha tradição brasileira de descobrir o peixe pequeno enquanto o tubarão aprende a nadar em águas internacionais.

A própria defesa de Cláudio Castro nega irregularidades. Segundo os advogados, os atos praticados durante sua gestão seguiram critérios legais e técnicos e o governo teria, inclusive, conseguido recuperar cerca de R$ 1 bilhão em dívidas da Refinaria de Manguinhos.

Muito bem.

Que a defesa seja ouvida.

Que tenha acesso aos autos.

Que apresente suas provas. É assim que funciona o Estado Democrático de Direito.

Mas, se de um lado existe o direito de defesa, do outro existe o direito da sociedade de perguntar. E eu quero perguntar uma coisa ainda mais incômoda: Será que existe um chefe acima de Cláudio Castro?

Não estou afirmando que exista. Estou perguntando. Porque política não funciona como uma árvore genealógica de um único indivíduo. Governos têm secretários, assessores, dirigentes de autarquias, partidos, grupos empresariais, aliados, operadores políticos e interesses econômicos.

Se a investigação encontrar responsabilidades, elas precisam ser individualizadas. Se não encontrar, que se arquive o que tiver de ser arquivado.

Mas ninguém pode exigir que o cidadão olhe para uma investigação dessa dimensão e simplesmente diga: “Ah, deve ser só mais uma coincidência administrativa.” Não é assim que funciona.

Sobrará candidato?

E existe ainda uma pergunta política que talvez seja até mais cruel: vai sobrar alguém para ser candidato nesse grupo político pelo Estado do Rio de Janeiro?

Porque, se a cada semana aparece uma nova investigação, um novo alvo, uma nova busca, uma nova suspeita ou uma nova explicação jurídica, daqui a pouco o partido vai precisar lançar candidato usando inteligência artificial.

E olhe que nem a inteligência artificial está conseguindo acompanhar.

O Rio é maior do que Cláudio Castro.

Maior do que o PL. Maior do que o bolsonarismo. Maior do que a oposição.

Maior do que qualquer governador, deputado, senador ou empresário.

O Rio é uma das maiores expressões políticas, culturais e econômicas do Brasil. E justamente por isso é triste assistir à política fluminense mergulhada em episódios que alimentam a sensação de que o Estado virou uma espécie de laboratório permanente de escândalos.

O carioca merece mais.

O fluminense merece mais.

O Brasil merece mais.

Uma tristeza, não um deboche

Eu tenho pena do Rio de Janeiro. E não digo isso com deboche. Digo com tristeza. Porque o Rio não merecia isso. Não merecia ser lembrado apenas por violência, corrupção, milícia, crise fiscal, escândalos e disputas políticas intermináveis.

O Rio merece voltar a ser lembrado pela sua cultura, pela sua inteligência, pela sua capacidade de inovação, pela sua beleza e pela força de seu povo.

Mas, para isso, existe uma condição elementar: ninguém pode estar acima da lei.

Nem empresário. Nem governador. Nem ex-governador.

Nem deputado. Nem senador. Nem partido. Nem grupo político. Nem amigo de autoridade. Nem inimigo de autoridade.

A investigação da Polícia Federal precisa seguir até onde as provas conduzirem. Se Cláudio Castro for inocente, que isso seja demonstrado e reconhecido. Se houver responsabilidade criminal, que a Justiça também tenha coragem de agir.

É exatamente essa igualdade perante a lei que diferencia uma República de uma República de fachada.

“O que falta ser demonstrado pela investigação e pela Justiça para que se saiba quem, afinal, deve responder por tudo isso?”

Porque o Rio de Janeiro já está cansado de procurar culpados depois que o incêndio começa.

E, convenhamos, de refinaria o Rio já tem o suficiente.

O que está faltando mesmo é refinar a política.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha