Política e Resenha

A Estação da Vida

A Estação da Vida

Reflexões sobre Chegadas, Partidas e o que Permanece

H
á dias, enterrei primos. Enterrei amigos. Enterrei pedaços de uma história que eu acreditava que seria infinita.

São Miguel das Matas é assim. Naquele pedaço de terra do Recôncavo, ninguém é verdadeiramente um estranho. Os sobrenomes se repetem como versículos de um mesmo salmo. Os netos brincam nos mesmos quintais onde os avós brincaram. As histórias circulam como sangue na mesma veia familiar — tão entrelaçadas que às vezes não sabemos onde termina um ramo e começa outro. Somos primos uns dos outros. Somos filhos de primos. Somos amigos dos filhos de primos. A vida neste lugar não é uma linha reta; é um carretel onde todos os fios se tocam. Por isto os miguelenses que moram em Vitória da Conquista se recusam a esquecer desta terra.

Quando você faz parte desta grande família, adquire uma ilusão confortável: a de que certos rostos sempre estarão lá. Que aquele primo que fazia piadas nunca deixará de fazer piadas. Que aquela amiga que ria com os olhos vai continuar rindo com os olhos. Que há tempo. Sempre há tempo.

Até o dia em que não há.

O Trem da Estação

Milton conhecia essa verdade. Aquela música não é apenas sobre viagens de trem — é um espelho colocado diante de nossas vidas, refletindo aquilo que preferimos não ver até que a morte nos força a encarar.

“Mande notícias do mundo de lá”, diz quem fica.

Há algo de partida em cada abraço, não é? Há algo de definitivo em cada despedida que fingimos ser “até logo”. Nós sabemos disso, no fundo. Sabemos que nem todo “até breve” terá um breve. Mas vivemos como se soubéssemos. Como se o conhecimento nos protegesse. Como se racionalizar a morte fosse o mesmo que domesticá-la.

Mas a morte não é dócil. A morte chega na plataforma e nos pega desprevenidos, mesmo quando a vemos vindo de longe.

Milton coloca a verdade em versos que parecem simples:

Tem gente que chega para ficar.
Tem gente que vai para nunca mais.
Tem gente que vem e quer voltar.
Tem gente que vai e quer ficar.

Isto não é poesia sobre trens. É poesia sobre nós. Sobre como cada vida é um itinerário que não pedimos, em uma estação que não escolhemos, em um horário que nunca nos foi comunicado. Alguns de nós nascem para ser a raiz. Outros, para ser a asa. Alguns amam este lugar e querem ficar. Outros nascem querendo partir. A maioria quer ambas as coisas simultaneamente — uma contradição que define a experiência humana.

E aqueles que se vão? “Me dê um abraço, venha me apertar”, pedem. Como se soubessem que a urgência da finitude só é compreendida quando é tarde.

A Brevidade que Dói

A maior mentira que contamos a nós mesmos é que temos tempo.

Tempo é aquele bem que tratamos com a maior negligência. Gastos com gente errada. Investidos em mágoas que não nos pertencem. Desperdiçados em preocupações com amanhãs que talvez não cheguem. Aqueles primos que enterrei não acordaram dizendo “hoje vou morrer”. Ninguém acorda assim. A morte não envia convite de cortesia. Chega como um visitante inesperado que bate à porta quando você está de roupa de casa, despenteado, vivendo como se houvesse um século pela frente.

E então você compreende — não com a cabeça, mas com o corpo, com as entranhas — que a chegada e a partida são “tão breve” que quase confundimos com a mesma coisa.

Existem vidas que passam como sussurros. Vozes que ouvimos uma, duas, meia dúzia de vezes, e depois o silêncio. Rostos que vemos menos frequentemente do que gostaríamos. Conversas que adiam eternamente as questões importantes. E quando a morte chega, percebemos que tínhamos mais coisas a dizer do que tempo para dizê-las. Que tínhamos mais abraços guardados do que oportunidades de dar.

A finitude não é uma filosofia abstrata. Não quando o primo com quem brincou de bola está seis pés debaixo da terra. Não quando a tia que fazia brincadeiras se foi sem que você tivesse passado mais tempo com ela. Não quando você percebe que conhecia seus vizinhos melhor do que conhecia as pessoas que dividiam seu sangue.

A finitude é concreta. É a falta. É a cadeira vazia. É a voz que não chama mais. É o peso da culpa de ter tratado como infinito algo que era finito, e finalmente perceber que deixou coisas não ditas, visitas não feitas, abraços não dados.

A Estação Somos Nós

Milton escreve: “A plataforma desta estação é a vida desse meu lugar.”

Compreendi isso recentemente, num nível que nem a teologia nem a filosofia alguma tinha me levado. A estação não é algum lugar especial. A estação somos nós. Cada um de nós é uma estação. Cada comunidade é uma estação. Cada dia é uma plataforma onde pessoas chegam e partem. Onde encontros acontecem. Onde despedidas — mesmo as que fingimos ser “até logo” — ocorrem.

E a beleza, se é que existe beleza na finitude, está justamente nesse reconhecimento: se tudo é partida, então tudo também é encontro. Cada momento é simultaneamente chegada e despedida. A hora do abraço é a hora da separação. O trem que chega é o mesmo trem que parte. Não há divisão clara entre uma coisa e outra.

Isso deveria aterrorizar-nos. E aterroriza. Mas também deveria transformar-nos.

Se a vida é estação, então não há tempo para rancores. Não há tempo para silêncios com amigos. Não há tempo para reservar abraços, para adiar conversas, para manter distâncias. A brevidade da viagem exige urgência na intimidade. A finitude exige ousadia no amor.

Porque quando você verdadeiramente compreende que o trem chega e parte no mesmo instante, você deixa de fazer planos e começa a fazer presença. Você deixa de calcular conveniências e começa a defender conexões. Você deixa de pensar no que dirá e começa a simplesmente estar ali, abraçando, rindo, chorando com os seus, porque cada encontro pode ser tanto a chegada quanto a despedida.

A Vida se Repete (e é Isso Que a Torna Sagrada)

“Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação.”

Há uma resignação terna nesses versos. Milton não oferece respostas. Oferece aceitação. Oferece a ideia de que esse movimento cíclico — chegadas, partidas, encontros, separações — é o padrão, a textura, o tecido da existência.

Alguns chamam isso de absurdo. Camus chamaria. A vida repetindo sua crueldade, dia após dia, em um ciclo de chegadas e idas que não leva a lugar nenhum. Nós chegamos em uma plataforma que não escolhemos, vivemos em um lugar que não decidimos, encontramos pessoas por acaso, e depois nos vamos. Fim.

Mas há outra forma de ver.

Se a vida se repete, então cada dia é uma oportunidade de acertar o que ontem erramos. Se chegadas e partidas são cíclicas, então podemos receber cada encontro com renovada gratidão. Se todos compartilhamos essa estação — essa vida, esse lugar — então somos todos irmãos na condição mortal. Toda arrogância desaparece quando você compreende isso. Toda raiva se dissipa.

Os que enterrei tinham dias comigo. Tinham conversas comigo. Tinham risos comigo. Eles também tiveram o “vai e vem”. Todos os dias era um retorno à estação, até que um dia não foi mais. Eles viveram. Existiram. Tocaram outras vidas. E isso não desapareceu só porque eles desapareceram.

A vida se repete na estação, sim. Mas a vida também permanece. Permanecem nas histórias que contamos. Permanecem nos genes que passamos. Permanecem nos valores que vivemos. Permanecem na forma como amamos a próxima pessoa que cruza nossa porta, porque aprendemos que a porta fecha, mas enquanto está aberta, deveríamos fazer festa.

Coisa que Gosto

“Coisa que gosto é poder partir sem ter plano. Melhor ainda poder voltar quando quero.”

Há uma rebeldia leve nessas linhas. Uma recusa em estar preso a determinações rígidas. E há também uma confissão: queremos liberdade. Queremos poder sair. Mas queremos poder voltar. Queremos ter controle sobre nossas idas e vindas.

A vida raramente nos oferece esse controle.

Alguns dos que se foram não queriam partir. Queriam voltar. Mas a plataforma não ofereceu retorno. Alguns que ficaram queriam partir e nunca tiveram a chance. Alguns que partiram nunca puderam voltar. O trem da morte não respeita nossos desejos de ir e vir. Respeita apenas seu próprio cronograma.

Então, o que fazemos com essa verdade?

Fazemos o que Milton sugere de forma implícita: deixamos de querer controlar os trens e começamos a viver as plataformas. Deixamos de fazer planos para a partida e começamos a fazer presença na chegada. Deixamos de adiar a vida para o retorno e começamos a viver enquanto estamos aqui.

Para aqueles de nós que ficamos, isso significa: não espere pela volta daquele primo para abraçá-lo. Não espere pela despedida daquele amigo para dizer que o ama. Não adie para o “quando ele voltar” a conversa que queremos ter. Porque alguns não voltam. E você não quer carregar o peso de palavras não ditas.

Estar e Partir são Lados da Mesma Viagem

Há uma sabedoria nativa nas culturas que entendem que morte não é o oposto de vida. Que morte é parte de vida. Que chegar e partir são “só dois lados da mesma viagem”. Enquanto culturas ocidentais modernas tratam a morte como fracasso, como inimiga, como algo que deve ser indefinidamente adiado, há compreensão em outras tradições de que ela é simplesmente o outro lado da mesma moeda.

Milton, com essa música, está oferecendo uma ponte entre essas compreensões. Ele não romantiza a morte. Mas também não a demoniza. Apenas a coloca onde ela sempre esteve: como parte integral da existência.

Quando você finalmente vê isso, quando você realmente internaliza que chegada é partida, que encontro é despedida, que estar vivo é estar a caminho da morte — quando você realmente vê isso, sem sentimentalismo, sem negação — algo muda.

O medo ainda existe, mas muda de forma. Não é mais medo de partir. É medo de ter partido sem ter vivido plenamente. Não é mais medo de perder alguém. É medo de ter perdido tempo quando ainda os tinha.

Os primos que enterrei conheceram essa estação. Fizeram suas viagens. Tiveram seus encontros e despedidas. A vida deles terminou, mas não pode ser apagada. Permanece nas vidas que tocou. Na minha, por exemplo. Aqui, agora, escrevendo sobre eles, pensando sobre a brevidade, sobre a urgência de estar presente.

Eles já partiram, é verdade. Mas não se foram completamente. Enquanto alguém os lembrar, enquanto alguém contar suas histórias, enquanto alguém viver melhor por tê-los conhecido — enquanto isso, eles continuam na estação. Continuam na plataforma. Continuam sendo parte dessa vida que é “a vida desse meu lugar”.

A Plataforma é Agora

Chego ao ponto onde a filosofia cede lugar à necessidade: se tudo isso é verdade, o que você vai fazer diferente amanhã?

Porque a morte não está apenas para aqueles que se foram. Está para você também. Para mim também. Está esperando pacientemente sua chegada na plataforma. Pode esperar décadas. Pode chegar amanhã. Nós não sabemos. Milton não sabia. Então o que sabemos é isto: temos hoje. Temos agora. Temos esta conversa. Este abraço. Este encontro que, como todas as coisas na estação, é tanto chegada quanto partida, tanto encontro quanto despedida.

Se a finitude é real — e ela é — então a urgência é também real. Não urgência de pânico. Mas urgência de presença. Urgência de amor. Urgência de dizer as coisas que importam para as pessoas que importam. Urgência de estar aqui, plenamente, enquanto estamos aqui.

Os que viveram esta cultura que herdei com meus pais e meus conterrâneos sabem disso intuitivamente. Sabem que quando você vive em uma comunidade onde todos são primos, onde as famílias se entrelaçam como carretéis de linha, você está constantemente sendo lembrado de que você faz parte de algo maior. Que você não é apenas você. Que suas ações afetam uma teia inteira de conexões. Que partir é deixar marca. Que chegar é herança. Que estar aqui, agora, é sagrado.

É a Vida

Milton encerra assim: “É a vida desse meu lugar. É a vida.”

Simples. Poderoso. Sem explicação. Porque vida não precisa de explicação. Vida é. Existe. Transcorre. Chega e parte. Encontra e se despede. Permanece e muda.

Eu também sou a vida desse meu lugar. Você também é. Os que se foram também eram e, de alguma forma, ainda são.

E nesta estação, onde chegadas e partidas ocorrem simultaneamente, onde a plataforma é onde vivemos e o trem é o tempo que nos leva, há uma única coisa que podemos fazer com essa verdade: abraçar. Estar presente. Dizer sim ao encontro. Aceitar a despedida. Viver com urgência, mas sem pressa. Com medo, mas sem paralisação. Com consciência total de que tudo isso acabará, e que justamente por isso, tudo isso importa infinitamente.

Mande notícias. Dê abraços. Chegue. Volte. Fique. Vá. Mas, acima de tudo, esteja. Esteja verdadeiramente, enquanto estiver.

Porque é a vida. É só isso. É tudo que há.

Luto
Recôncavo
Milton Nascimento
Memória

 Padre Carlos, Bahia.


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