Política e Resenha

O Tempo que Não Volta e a Herança de Dom Celso

Por Padre Carlos

Há oito anos, uma notícia atravessou a Diocese de Vitória da Conquista como atravessam as notícias que a gente nunca gostaria de receber: em silêncio, deixando atrás de si uma espécie de vazio que nenhuma palavra consegue preencher.

Dom Celso José Pinto havia partido.

E talvez seja somente quando a distância dos anos começa a transformar a dor em saudade que conseguimos compreender melhor a dimensão de algumas pessoas em nossa vida. Oito anos podem parecer muito para o calendário, mas são quase nada quando se trata de alguém que continua habitando a nossa memória.

Mario Quintana escreveu que, quando a gente percebe, “já são seis horas”. E talvez essa seja uma das mais dolorosas verdades sobre a existência humana: vivemos acreditando que ainda haverá tempo.

Tempo para conversar. Tempo para agradecer. Tempo para pedir perdão. Tempo para dizer aquilo que ficou preso na garganta.

Até que um dia descobrimos que o tempo passou.

E não volta.

Foi assim com Dom Celso.

Quando a vida nos ensina tarde demais

Há pessoas que passam pela nossa existência. E há pessoas que deixam marcas.

Dom Celso pertence à segunda categoria.

Para mim, sua presença na Diocese de Vitória da Conquista não foi apenas a presença de um bispo. Foi a presença de um homem que, em muitos momentos, soube ser pastor, amigo, conselheiro e, sobretudo, pai.

Hoje, olhando para trás, percebo que algumas experiências da vida só ganham seu verdadeiro significado depois que o tempo nos permite enxergá-las com outros olhos.

Talvez eu não tenha compreendido inteiramente, naquele momento, a dimensão do que estava vivendo.

Talvez tenha faltado coragem para dizer algumas coisas.

Talvez eu tenha imaginado, como quase todos nós imaginamos, que haveria outro encontro, outra conversa, outra oportunidade.

Mas a vida não trabalha com garantias.

O tempo não assina compromissos conosco.

Ele simplesmente passa.

E quando percebemos, aquilo que parecia ontem já virou memória.

Um bispo que acreditava na formação

Dom Celso não foi apenas um administrador de uma Diocese. Sua compreensão da Igreja passava pela formação das pessoas, pela construção de consciências e pela responsabilidade de preparar homens e mulheres para enfrentar a vida com fé, inteligência e coragem.

Sua trajetória trazia a marca de uma Igreja formada na experiência da Ação Católica, uma Igreja que não desejava apenas ensinar doutrinas, mas formar cristãos capazes de compreender o mundo e participar de sua transformação.

Para ele, a fé não deveria ser uma espécie de esconderijo diante das dificuldades da vida.

A fé precisava produzir compromisso.

Precisava produzir consciência.

Precisava produzir humanidade.

Por isso, sua preocupação com a formação do clero e dos leigos não era apenas uma tarefa administrativa. Era parte essencial de sua missão.

Dom Celso compreendia algo que continua profundamente atual: uma Igreja que não forma pessoas para pensar corre o risco de formar apenas repetidores; uma Igreja que não estimula perguntas pode transformar a fé em mera obediência; uma Igreja que não olha para a realidade pode acabar falando de Deus sem conseguir enxergar o sofrimento dos homens.

Ele acreditava que era possível unir espiritualidade e inteligência, tradição e abertura, fé e responsabilidade histórica.

E talvez essa seja uma das maiores heranças que deixou.

A bondade que permanece

Shakespeare escreveu sobre a fragilidade da memória e sobre a forma como a morte parece levar consigo aquilo que somos.

Mas existem pessoas cuja presença é maior do que a própria morte.

Dom Celso é uma delas.

Porque algumas pessoas continuam existindo nas consequências de seus gestos.

Estão na vida de quem foi acolhido.

Na consciência de quem foi formado.

Na coragem de quem recebeu uma palavra no momento certo.

Na memória de quem, muitos anos depois, ainda consegue fechar os olhos e lembrar de um rosto, de uma voz, de um gesto de carinho.

É assim que compreendo hoje a presença de Dom Celso.

Ele não está mais fisicamente entre nós.

Mas está naquilo que deixou em nós.

E talvez essa seja a forma mais verdadeira de eternidade que um ser humano pode alcançar.

Não a eternidade dos monumentos.

Mas a eternidade da memória.

Obrigado, Dom Celso

Há agradecimentos que chegam tarde.

Mas chegam.

E talvez seja justamente isso que estou tentando fazer hoje.

Obrigado, Dom Celso. Obrigado por ter me acolhido quando eu ainda estava descobrindo os caminhos da vida. Obrigado pelas vezes em que sua presença me transmitiu segurança. Obrigado por acreditar em pessoas que talvez nem sempre soubessem acreditar em si mesmas.

Obrigado pela confiança.

Obrigado pela formação.

Obrigado pelas conversas.

Obrigado, sobretudo, pela humanidade.

Hoje compreendo que algumas pessoas não entram em nossa história por acaso. Elas chegam para participar daquilo que seremos depois.

E Dom Celso participou da minha história.

Muito.

Sua presença ajudou a construir uma parte do homem que me tornei.

Por isso, quando penso nele, não penso apenas na morte.

Penso na vida.

Penso naquilo que recebemos de alguém e carregamos conosco mesmo depois que essa pessoa parte.

O relógio continua andando

O mais estranho na morte é que o mundo continua.

O sol nasce no dia seguinte.

As pessoas saem para trabalhar.

Os carros atravessam as ruas.

As igrejas abrem suas portas.

Os sinos continuam tocando.

E o relógio segue seu movimento indiferente.

Mas dentro de nós alguma coisa mudou para sempre.

Foi isso que aconteceu há oito anos.

A Diocese continuou sua caminhada. A cidade continuou sua história. A vida de cada um de nós tomou novos rumos.

Eu também mudei.

Envelheci.

Aprendi.

Perdi pessoas.

Ganhei outras.

Compreendi algumas coisas que antes não compreendia.

E descobri, talvez mais do que nunca, que o tempo é o patrimônio mais precioso e mais desperdiçado que possuímos.

A gente economiza dinheiro.

Guarda objetos.

Protege documentos.

Cuida de propriedades.

Mas quase nunca percebe que o verdadeiro tesouro está escorrendo silenciosamente entre os dedos. É o tempo. E ele não volta.

A herança

Oito anos depois, talvez a melhor maneira de homenagear Dom Celso não seja apenas lembrar sua morte.

É lembrar sua vida.

É perguntar o que fazemos hoje com aquilo que recebemos daqueles que vieram antes de nós.

Que Igreja estamos construindo?

Que homens e mulheres estamos formando?

Que valores estamos deixando para as novas gerações?

Que lugar estamos reservando para a fé, para a solidariedade, para a justiça, para a fraternidade e para o diálogo?

Essas perguntas fazem parte da herança de Dom Celso.

Porque os grandes homens não deixam apenas lembranças.

Deixam responsabilidades.

E talvez seja essa a verdadeira dimensão de sua herança: continuar fazendo germinar aquilo que ele plantou.

O que permanece quando tudo passa

Hoje, oito anos depois, eu gostaria de poder voltar no tempo.

Gostaria de ter mais uma conversa.

Gostaria de sentar diante dele e dizer algumas coisas que talvez tenham ficado por dizer.

Mas não posso.

Ninguém pode.

O passado é uma porta que só abre para dentro da memória.

Não podemos atravessá-la novamente.

Podemos apenas contemplá-la.

E talvez seja essa a grande lição do tempo: enquanto temos alguém diante de nós, ainda existe a possibilidade de dizer.

Depois, resta a saudade.

Por isso, quando alguém que amamos ainda está ao nosso lado, talvez devêssemos falar mais.

Abraçar mais.

Agradecer mais.

Perdoar mais.

Amar mais.

Porque o amanhã é apenas uma promessa.

O hoje é o único tempo que realmente possuímos.

Dom Celso partiu há oito anos.

Mas não desapareceu.

Continua presente nas lembranças, nas histórias, na formação de tantas pessoas e naquilo que cada uma delas conseguiu transformar em sua própria caminhada.

E é por isso que, depois de tantos anos, ainda posso dizer:

Obrigado, Dom Celso. Talvez eu não tenha dito tudo enquanto você estava aqui. Mas digo agora. Porque o tempo não volta.

A vida não devolve os dias.

As oportunidades perdidas não reaparecem.

Mas o amor, quando é verdadeiro, encontra uma maneira de permanecer.

E algumas pessoas, mesmo depois de partirem, continuam caminhando conosco.

Dom Celso é uma delas.

Oito anos depois, sua ausência ainda dói. Mas sua presença continua sendo uma herança.

Dom Celso José Pinto
Diocese de Vitória da Conquista
Memória e Fé

— Padre Carlos