Política e Resenha

A hegemonia do PT acabou em Vitória da Conquista?

Artigo · Opinião

Por Padre Carlos

O
artigo publicado por meu amigo Massinha, nesta semana, traz uma pergunta que talvez seja muito mais importante do que parece: quem será o candidato da base governista em Vitória da Conquista em 2028? Ele apresenta vários nomes, levanta possibilidades e registra uma informação politicamente relevante: dentro do campo que apoia o governador Jerônimo Rodrigues, já existe a percepção de que a disputa municipal será dura e de que a cabeça de chapa poderá, inclusive, não pertencer ao Partido dos Trabalhadores.

É aqui que eu gostaria de ir um pouco além da pergunta feita por Massinha. Para mim, a questão fundamental não é apenas saber quem será o candidato da base governista. A questão é outra: o que aconteceu com a hegemonia do PT em Vitória da Conquista?

Minha resposta é direta: acredito que essa hegemonia acabou. E não acabou necessariamente porque o PT deixou de ter votos, militantes ou importância política. Ela acabou porque uma hegemonia política não é um patrimônio que se recebe como herança e permanece eternamente. Hegemonia precisa ser cultivada.

“A hegemonia começa a desaparecer muito antes de uma derrota eleitoral. Ela começa a se enfraquecer quando um partido deixa de produzir novas lideranças, quando passa a depender excessivamente dos mesmos nomes, e quando sua narrativa deixa de explicar a cidade que está diante dele.”

Durante muitos anos, o PT foi muito mais do que um partido em Vitória da Conquista. Foi uma espécie de eixo em torno do qual se organizava boa parte do campo político progressista da cidade. Tinha militância, identidade, sindicatos, movimentos sociais, universidades, lideranças, vereadores, deputados e uma narrativa política reconhecida por uma parcela expressiva da população. O partido construiu uma história — e essa história não pode ser apagada. Mas existe uma diferença enorme entre possuir uma história e possuir um futuro.

Nenhuma hegemonia é eterna

A política é dinâmica. O eleitor também. Vitória da Conquista mudou, o eleitor conquistense mudou, a sociedade mudou, as demandas mudaram, a comunicação mudou. As redes sociais transformaram a maneira de fazer política, e talvez o PT não tenha conseguido acompanhar essa transformação na mesma velocidade.

Antonio Gramsci compreendeu que hegemonia não é simplesmente mandar. É construir liderança, influência, consenso e capacidade de fazer com que determinado projeto político seja percebido como capaz de representar uma sociedade. Quando essa capacidade se perde, abre-se espaço para outros atores. E é exatamente isso que começa a acontecer em Vitória da Conquista.

Durante muito tempo, a pergunta parecia ser: qual será o candidato do PT? Agora começamos a fazer outra pergunta: quem será o candidato da base do governador? Parece apenas uma mudança de palavras, mas politicamente é uma mudança enorme. Se o PT continua sendo o maior partido da esquerda, por que a cabeça de chapa deixou de ser naturalmente petista? Essa pergunta merece ser feita.

Os nomes em jogo

O artigo de Massinha coloca sobre a mesa diversos nomes ligados ao campo de oposição na cidade: Viviane, Jorge Solla, José Raimundo Fontes, Fabrício Falcão, Gabriela e Quinho, além da possibilidade de a candidatura não sair do próprio PT. E é justamente nesse ambiente que surge uma possibilidade que considero particularmente interessante: uma eventual chapa com Fabrício Falcão para prefeito e Lúcia Rocha para vice.

Não estou dizendo que essa chapa esteja definida. Estou falando de uma hipótese política. Mas, se ela vier a se concretizar, terá potencial para mexer profundamente com o tabuleiro eleitoral de Vitória da Conquista. Fabrício tem trajetória política, presença institucional e capacidade de diálogo com diferentes setores. Lúcia Rocha, por sua vez, possui identidade própria, experiência eleitoral e conhecimento da realidade política conquistense.

O fator Quinho Tigre

Se Quinho confirmar sua eleição para deputado estadual, como muitos esperam, a pergunta seguinte será inevitável: por que ele não colocaria seu nome na disputa pela Prefeitura de Vitória da Conquista em 2028? Uma eleição para a Assembleia Legislativa não é apenas uma vitória eleitoral — pode ser uma fábrica de capital político.

Uma eventual candidatura de Quinho poderia atingir não apenas a oposição, mas também o próprio campo governista. Poderia disputar o eleitor de centro, conversar com setores da esquerda e ampliar a fragmentação de um campo que já começa a apresentar dificuldades para encontrar uma candidatura consensual.

Rumo a um realinhamento eleitoral

Se Fabrício Falcão se apresentar como alternativa, se Quinho decidir entrar no jogo e se outros nomes permanecerem no tabuleiro, a disputa deixará de ser simplesmente PT contra oposição. Poderemos ter uma eleição marcada por um fenômeno muito mais complexo: o realinhamento eleitoral de Vitória da Conquista — quando antigos padrões de votação começam a mudar, as identidades partidárias se enfraquecem e o voto passa a ser mais personalizado.

José Raimundo Fontes é uma liderança histórica. Waldenor Pereira também. Jorge Solla tem sua trajetória. Fabrício Falcão possui sua caminhada. Mas uma eleição de 2028 não será vencida apenas pela soma das biografias. Será necessário apresentar uma nova narrativa para uma nova Vitória da Conquista.

Se em 2028 o PT chegar isolado, sem novas grandes lideranças, sem uma ampla coalizão e sem a capacidade de mobilização que conhecemos no passado, o problema será maior do que uma candidatura: será um problema de capital político. E capital político também se perde — em derrotas eleitorais, em candidaturas repetidas, em desgaste de imagem, em incapacidade de renovação.

Se o cenário eleitoral de 2026 produzir uma diminuição dos votos de Waldenor Pereira na cidade, é perfeitamente possível imaginar que ele tenha de avaliar cuidadosamente se vale a pena colocar novamente seu nome em uma disputa majoritária em 2028. Não estou afirmando que isso acontecerá — estou dizendo que, politicamente, seria uma hipótese plausível. Existe aquilo que os estrategistas chamam de fadiga eleitoral: quando um determinado nome começa a carregar mais o peso das derrotas anteriores do que a expectativa de vitória futura.

O paradoxo do campo governista

Sheila Lemos possui hoje um papel central nesse processo. Ela representa uma força política que conseguiu romper a sequência histórica de vitórias do campo petista e consolidar uma administração municipal que será inevitavelmente avaliada pelo eleitor em 2028. O desafio de seu grupo, entretanto, será enorme: não basta ter uma boa administração, será necessário transformar avaliação administrativa em sucessão eleitoral.

E esse talvez seja o grande paradoxo da política conquistense neste momento: enquanto o grupo de oposição precisa descobrir quem poderá representar a continuidade, o campo governista estadual precisa descobrir quem poderá representar sua renovação. De um lado, a oposição procura um sucessor. Do outro, o antigo grupo hegemônico procura uma nova identidade. E nesse espaço entre uma coisa e outra pode nascer uma nova configuração política para Vitória da Conquista.

“A política não costuma avisar quando uma era termina. Quando o partido percebe, muitas vezes a transformação já aconteceu.”

A pergunta não é apenas se o candidato será do PT, do PSD, do PSB, do PCdoB, do PV, do Avante ou de outra legenda. A pergunta é: quem será capaz de construir uma maioria política em Vitória da Conquista? Porque eleição é, no final das contas, uma disputa pela construção de maiorias. E quando um partido deixa de ocupar determinado espaço político, outros atores rapidamente aparecem para ocupá-lo.

O PT conquistense talvez esteja diante de sua maior encruzilhada em décadas. Pode continuar vivendo da força de sua história ou pode compreender que história, sozinha, não ganha eleição. Pode repetir nomes ou produzir novas lideranças. Pode defender a hegemonia que teve ou trabalhar para construir uma nova hegemonia.

Por isso, acredito que a hegemonia do PT em Vitória da Conquista acabou. Não porque o partido tenha desaparecido. Não porque tenha deixado de possuir votos. Não porque tenha perdido toda a sua importância. Ela acabou porque deixou de ser uma hegemonia cultivada. E talvez seja justamente isso que a eleição de 2028 venha revelar.

Na política, ninguém perde uma hegemonia no dia em que perde uma eleição. A derrota começa muito antes, quando deixa de cultivar as razões pelas quais um povo um dia decidiu votar naquele partido.

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Escrito por Padre Carlos