Política e Resenha

O algoritmo não manda correr: ele apenas desenha o jogo

Padre Carlos

Há uma transformação silenciosa acontecendo diante dos nossos olhos. Ela não acontece apenas nas fábricas, nos escritórios ou nos grandes centros empresariais. Acontece nas ruas, sobre bicicletas e motocicletas, enquanto milhares de trabalhadores atravessam semáforos, enfrentam chuva, sol, trânsito e cansaço para entregar uma refeição dentro do prazo determinado por uma tela de celular.

Nenhuma plataforma precisa dizer ao entregador: “fure o sinal vermelho”. Nenhuma empresa precisa ordenar: “ande mais rápido”. Nenhum gerente precisa gritar: “você está atrasado”.

O algoritmo pode fazer algo muito mais sofisticado: estabelecer as condições nas quais o trabalhador concluirá que precisa fazer tudo isso por conta própria.

Quem manda quando ninguém parece estar mandando?

É justamente aí que começa uma das questões mais importantes do mundo contemporâneo. A experiência relatada por um pesquisador da USP que trabalhou durante meses como ciclista de aplicativo é reveladora porque ele decidiu observar o sistema a partir de dentro. Impôs a si mesmo algumas regras simples: respeitar os sinais de trânsito, não avançar o sinal vermelho e não subir nas calçadas.

O resultado foi econômico e simbólico. Ao cumprir as regras de trânsito, ele perdeu entregas, sofreu bloqueios automáticos e ganhou menos.

Observe a sutileza do mecanismo. O aplicativo não precisou puni-lo pessoalmente. Não houve um chefe diante dele. Não houve uma ameaça. Não houve sequer uma ordem explícita para desobedecer às regras. Havia apenas um sistema de recompensas, tempos, bloqueios e distribuição de entregas. E isso pode ser suficiente para modificar o comportamento humano.

A psicopolítica de Byung-Chul Han

É aqui que o pensamento do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han ajuda a compreender o nosso tempo. Para Han, estamos deixando para trás, em muitos aspectos, a velha sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault, marcada por instituições que diziam “não”, “pare”, “obedeça” e “você deve”. Surge uma sociedade aparentemente mais livre: “Você pode.” “Você consegue.” “Seja seu próprio chefe.” “Trabalhe quando quiser.” “Quanto mais trabalhar, mais ganhará.” Parece libertação.

Mas existe uma pergunta escondida atrás dessa promessa: quem estabeleceu as regras do jogo?

O entregador pode escolher quando ligar o aplicativo. Pode escolher se aceita ou não determinada corrida. Pode acreditar que não possui patrão. Pode sentir que é um empreendedor independente. Mas o sistema determina quais corridas aparecem, quanto tempo existe para realizá-las, como os deslocamentos são calculados, quais comportamentos podem resultar em bloqueio e como a remuneração se relaciona com produtividade.

A antiga figura do patrão não desapareceu completamente. Em muitos casos, ela foi substituída por uma arquitetura digital. O chefe não está mais necessariamente sentado diante de uma mesa. Ele pode estar incorporado ao código.

É o que torna a chamada uberização do trabalho tão complexa. Não estamos diante simplesmente de uma nova forma de emprego. Estamos diante de uma transformação na própria relação entre trabalhador, empresa, tecnologia e poder.

O trabalhador não recebe necessariamente uma ordem. Ele recebe um estímulo. Não recebe uma ameaça. Recebe uma meta. Não recebe uma bronca. Recebe uma avaliação. Não recebe uma jornada formal. Recebe uma sequência de oportunidades que precisa aproveitar para ganhar mais. E, pouco a pouco, aprende a administrar a si mesmo segundo a lógica da plataforma.

É aquilo que Han chama de psicopolítica: uma forma de poder que não precisa controlar apenas o corpo por meio da força, porque consegue atuar sobre desejos, expectativas, desempenho e comportamento. O trabalhador passa a vigiar a si mesmo. Passa a calcular o próprio tempo. Passa a comparar seus ganhos. Passa a perseguir melhores índices. Passa a aceitar riscos. E, finalmente, pode chegar ao ponto de transformar o próprio corpo em instrumento de produção até o limite.

“Para gente, não tem regra. Quem faz a regra somos nós.”

Não existe talvez demonstração mais clara da transformação do trabalhador em seu próprio fiscal. Ele acredita estar livre porque não vê o patrão. Mas a ausência do patrão não significa necessariamente ausência de poder. Às vezes, significa apenas que o poder encontrou uma maneira mais eficiente de funcionar.

O jovem que já havia quebrado a perna, passado por cirurgia no pescoço e sofrido consequências físicas permanentes continuava trabalhando. Outro trabalhador descrevia a própria exaustão de maneira quase naturalizada. A meia suja de sangue depois de um dia de trabalho poderia ser interpretada como sinal de que alguma coisa está profundamente errada.

Mas, dentro da cultura da produtividade, pode acabar sendo interpretada como prova de resistência. Esse é o paradoxo: aquilo que deveria provocar indignação pode passar a ser apresentado como orgulho.

Corpos reais, não apenas teoria

É justamente nesse ponto que a expressão sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, ganha uma dimensão concreta. Não estamos falando apenas de uma teoria filosófica. Estamos falando de corpos reais. De pernas reais. De acidentes reais. De jovens reais. De trabalhadores que precisam decidir entre respeitar integralmente as regras de trânsito ou correr o risco de ganhar menos.

O problema não é a tecnologia

É preciso, entretanto, evitar uma conclusão simplista. O problema não é a tecnologia. O aplicativo não é necessariamente o vilão. A tecnologia pode organizar rotas, aproximar consumidores e trabalhadores, gerar renda e criar oportunidades que antes não existiam.

O problema aparece quando a eficiência tecnológica é construída de tal maneira que o risco fica concentrado no trabalhador, enquanto a plataforma captura os ganhos da eficiência. Essa é uma questão sociológica fundamental. Quem assume o risco? Quem suporta o custo? Quem ganha com a velocidade? Quem paga quando ocorre um acidente? Quem perde renda quando uma conta é bloqueada? Quem determina o tempo considerado “possível” para uma entrega? E, principalmente, quem tem poder para alterar essas regras?

É nesse ponto que a discussão sobre trabalho por aplicativo precisa superar a velha oposição entre “tecnologia boa” e “tecnologia ruim”. A questão verdadeira é outra: que tipo de sociedade estamos construindo com a tecnologia?

Porque um algoritmo não é neutro simplesmente porque não possui voz. Ele é resultado de decisões humanas. Alguém definiu os critérios. Alguém estabeleceu as métricas. Alguém determinou o que será considerado eficiência. Alguém decidiu como distribuir recompensas e penalidades. O algoritmo pode não ter consciência, mas organiza relações sociais. E quando organiza relações sociais, também organiza relações de poder.

Talvez essa seja uma das maiores mudanças do capitalismo contemporâneo. Antigamente, para controlar o trabalhador, era necessário colocar alguém para fiscalizá-lo. Hoje, em determinadas circunstâncias, basta criar um sistema no qual o trabalhador tenha incentivos suficientes para fiscalizar a si mesmo. O poder tornou-se menos visível. E justamente por isso pode tornar-se mais difícil de combater.

A ironia da liberdade empreendedora

O entregador olha para o celular e vê apenas uma corrida. Mas, por trás daquela corrida, existe uma cadeia inteira de decisões econômicas, tecnológicas e sociais. O relógio corre. A remuneração espera. O trânsito existe. O risco existe. E o trabalhador precisa decidir.

É aí que reside a grande ironia da chamada liberdade empreendedora: quando todas as alternativas disponíveis conduzem à mesma necessidade de produzir cada vez mais, podemos continuar chamando isso simplesmente de liberdade?

A pergunta não é contra o entregador. É a favor dele. Não é contra o aplicativo. É a favor de relações de trabalho mais justas. Não é contra a inovação. É contra uma inovação que transforme a precariedade em modelo de negócio.

Precisamos discutir remuneração, segurança, transparência algorítmica, proteção social, acidentes de trabalho, previdência, descanso e responsabilidade das plataformas. Precisamos também discutir algo ainda mais profundo: o direito de não transformar cada minuto da existência em produtividade.

Porque talvez o maior perigo da sociedade do desempenho não seja o trabalhador ter um chefe exigindo demais. Talvez seja ele chegar em casa exausto, olhar para si mesmo e concluir que ainda não fez o suficiente.

Quando isso acontece, o poder alcançou um nível extraordinário. Ele já não precisa mandar. Já não precisa ameaçar. Já não precisa vigiar permanentemente. Basta desenhar o jogo. E então o jogador corre. Corre porque quer. Corre porque precisa. Corre porque acredita que é livre. E o algoritmo permanece em silêncio.

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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha