Política e Resenha

ARTIGO — Quando o cidadão é ouvido, a saúde pública ganha força

 

Padre Carlos

A boa gestão pública começa quando o governo compreende que administrar não significa apenas construir, inaugurar ou anunciar. Significa também ouvir, avaliar, corrigir e melhorar. É justamente nessa direção que a Prefeitura de Vitória da Conquista, sob a liderança da prefeita Sheila Lemos, começa a dar um passo importante ao preparar uma nova ferramenta de participação popular voltada para a área da Saúde.

A proposta apresentada nesta sexta-feira (4) merece atenção porque coloca no centro da discussão uma figura que muitas vezes é esquecida nos debates sobre políticas públicas: o usuário do serviço de saúde. É ele quem chega à unidade, espera pelo atendimento, conversa com profissionais, recebe orientações, enfrenta dificuldades e também percebe quando um serviço funciona bem. Portanto, ninguém melhor do que o próprio cidadão para ajudar o poder público a compreender a realidade da Atenção Básica.

A nova ferramenta permitirá que os usuários avaliem sua experiência, façam comentários e apresentem sugestões. Essas informações serão analisadas pela Secretaria Municipal de Saúde e poderão contribuir para identificar pontos fortes, reconhecer boas práticas e, sobretudo, encontrar oportunidades de melhoria. É uma mudança importante de mentalidade: em vez de imaginar que a administração pública sabe tudo sozinha, abre-se espaço para que a comunidade também participe da construção das soluções.

E há algo particularmente positivo nessa iniciativa: ela não nasce como uma promessa abstrata. O projeto terá inicialmente um piloto em seis unidades de saúde da zona urbana, com expansão gradual para outras unidades e posteriormente para a zona rural. Antes do lançamento, os profissionais serão capacitados para orientar os usuários. Isso demonstra que participação popular não se faz apenas disponibilizando uma plataforma; é necessário preparar as equipes e criar condições para que o cidadão consiga efetivamente participar.

A experiência também pode produzir algo ainda mais valioso: dados para a tomada de decisão. Reclamações isoladas podem ser importantes, mas quando milhares de avaliações começam a revelar padrões, o gestor passa a ter uma fotografia mais precisa da realidade. A tecnologia, nesse caso, deixa de ser apenas uma ferramenta administrativa e passa a funcionar como instrumento de cidadania.

É preciso compreender que ouvir o usuário não significa necessariamente concordar com tudo o que ele diz. Uma gestão responsável deve saber distinguir uma reclamação pontual de um problema estrutural, uma crítica injusta de uma deficiência que precisa ser corrigida. Mas uma coisa é certa: quem não ouve não consegue melhorar aquilo que administra.

A iniciativa da Prefeitura também fortalece uma concepção moderna de gestão pública. O cidadão não deve ser visto apenas como alguém que recebe um serviço. Ele é parte da comunidade e pode contribuir para aperfeiçoá-lo. A participação popular, quando organizada com responsabilidade, transforma o usuário em parceiro da administração.

Na Saúde, isso ganha uma dimensão ainda maior. Estamos falando de um serviço essencial, diretamente relacionado à dignidade humana. Uma consulta, um atendimento de enfermagem, uma orientação preventiva, o acompanhamento de uma família ou o funcionamento de uma unidade básica podem parecer atos administrativos, mas representam, para quem precisa deles, momentos concretos da própria vida.

Por isso, a decisão da gestão Sheila Lemos de aproximar Saúde e comunidade merece ser valorizada. Uma prefeitura que cria mecanismos para escutar a população demonstra que compreende que políticas públicas não devem ser construídas apenas dentro dos gabinetes. Elas precisam dialogar com aquilo que acontece nas ruas, nos bairros, nas unidades de saúde e, principalmente, na vida das pessoas.

Vitória da Conquista tem uma população grande e uma rede de saúde que precisa constantemente enfrentar novos desafios. Nenhuma administração conseguirá resolver todos os problemas de uma única vez. Mas existe uma diferença significativa entre uma gestão que simplesmente administra as dificuldades e outra que cria instrumentos para identificar problemas, ouvir a população e buscar soluções.

A nova ferramenta pode representar exatamente isso: uma ponte entre o cidadão e o poder público.

Se funcionar como planejado, poderá criar um ciclo virtuoso: o usuário avalia, a Prefeitura recebe a informação, a Secretaria analisa, a gestão identifica prioridades, as equipes aperfeiçoam procedimentos e a população volta a avaliar. É a participação popular transformada em instrumento de gestão.

E talvez esteja aí o maior mérito da iniciativa. Não se trata apenas de criar mais uma ferramenta tecnológica. Trata-se de reconhecer que o cidadão tem voz e que essa voz pode ajudar a construir uma saúde pública mais eficiente, humana e próxima da realidade.

Uma administração moderna precisa ter coragem para ouvir inclusive aquilo que não gostaria de escutar. Porque elogios confirmam caminhos; críticas apontam onde é possível melhorar.

Ao abrir esse canal de diálogo, a Prefeitura de Vitória da Conquista sinaliza que governar também é escutar. E, quando a escuta se transforma em ação, quem ganha não é apenas o governo: ganha a população.

Saúde pública de qualidade não se constrói somente com recursos, equipamentos e profissionais. Constrói-se também com diálogo, participação, transparência e respeito pelo cidadão.

E esse pode ser um dos caminhos para aproximar cada vez mais a Prefeitura da comunidade conquistense.