
Por Padre Carlos
Quem acompanhava o desfile percebeu que, em determinado momento, a programação deixou de seguir o ritmo previsto. A movimentação aumentou, integrantes de um dos grupos tentaram avançar para a avenida e os servidores responsáveis pela organização precisaram intervir para preservar a sequência estabelecida.
A programação era clara: o Grito dos Excluídos deveria entrar depois da passagem dos Carros Antigos. Essa ordem não era aleatória. Tratava-se de uma sequência previamente organizada pela Secretaria Municipal de Educação, responsável pelo controle e pela coordenação da participação dos diferentes grupos.
O problema surgiu quando integrantes do Grito dos Excluídos tentaram acessar a avenida antes que os Carros Antigos concluíssem sua passagem.
Foi justamente nesse momento que a organização precisou agir.
Os servidores orientaram os integrantes do grupo a aguardar. Não se tratava de impedir a participação, mas de fazer cumprir a ordem estabelecida para o desfile. Afinal, se um grupo ainda ocupava a avenida, a entrada de outro poderia provocar uma desorganização ainda maior, colocando em risco o próprio andamento do evento.
Havia, ainda, outro elemento que precisava ser levado em consideração: a programação já acumulava atrasos. Outros grupos haviam passado depois do horário inicialmente previsto e, consequentemente, o momento reservado ao Grito dos Excluídos também precisou ser ajustado.
É nesse ponto que uma divergência de organização acabou se transformando em um episódio de tensão.
A orientação dos servidores para que o grupo aguardasse o momento adequado foi recebida de maneira conflituosa. Segundo o relato oficial da Secretaria Municipal de Educação, servidores que estavam trabalhando na organização do desfile foram alvo de atitudes agressivas, incluindo confronto físico e agressões contra uma servidora.
A situação, portanto, deixou de ser apenas uma discussão sobre a ordem de entrada no desfile.
Quando servidores públicos que estão cumprindo uma função de organização passam a ser alvo de agressões, a questão assume outra dimensão. A administração municipal tem a obrigação de garantir não apenas o direito de manifestação, mas também a segurança de todos os participantes e trabalhadores envolvidos no evento.
E é importante fazer uma distinção que acabou sendo perdida no calor do episódio: impedir uma manifestação é uma coisa; organizar o momento em que ela deve acontecer é outra completamente diferente.
A Secretaria Municipal de Educação afirma que o Grito dos Excluídos não foi impedido de participar. O grupo teve assegurado seu espaço no desfile. O que se buscou impedir foi que a ordem previamente estabelecida fosse rompida antes da conclusão da participação dos Carros Antigos.
Mais tarde, porém, a tensão voltou a aparecer.
Nas proximidades do Posto Tigrão ocorreu um novo episódio de confronto. A situação chegou a um ponto em que foi necessária a intervenção da Guarda Municipal para restabelecer a ordem.
O episódio merece ser analisado sem paixão política e sem transformar uma questão de organização de desfile em uma acusação de censura.
O Grito dos Excluídos tem todo o direito de existir, de se manifestar e de expressar suas posições. Esse direito está protegido pela democracia. Mas democracia também significa respeitar regras coletivas, servidores públicos no exercício de suas funções e os demais participantes de um evento público.
A Prefeitura, por sua vez, tinha uma responsabilidade objetiva: fazer o desfile funcionar.
E organizar um desfile com diferentes grupos, horários, carros, alas e participantes exige exatamente aquilo que a equipe da Smed tentou fazer: controlar o acesso, orientar os participantes e manter a sequência estabelecida.
O que se viu, portanto, não foi uma decisão para silenciar uma manifestação. O que se estabeleceu foi uma orientação para que um grupo aguardasse o momento previsto para sua entrada.
A diferença é fundamental.
Em um evento público, todos têm direito de participar. Mas ninguém pode transformar o direito de participar em autorização para romper a organização do evento ou agredir quem está trabalhando para que ele aconteça.
No fim, a intervenção da Guarda Municipal nas proximidades do Posto Tigrão mostrou que a situação havia ultrapassado os limites de uma simples divergência sobre a programação.
A liberdade de expressão deve ser preservada. A manifestação democrática também.
Mas a democracia não pode significar desordem, intimidação ou agressão.
Naquele desfile, a responsabilidade da Prefeitura era garantir que todos pudessem participar. E, diante dos acontecimentos, a atuação dos servidores da Secretaria Municipal de Educação esteve, segundo os fatos apresentados, voltada justamente para cumprir essa obrigação: organizar, orientar e garantir a segurança de todos.




