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A BAHIA ENTROU NO MODO EMPATE

Lula é forte, mas Jerônimo não descola de ACM Neto — e a pesquisa revela a contradição central da eleição baiana
Há pesquisas que apenas mostram números. E há pesquisas que revelam uma fotografia política capaz de levantar perguntas incômodas. A nova rodada do Real Time Big Data pertence à segunda categoria. Na Bahia, Jerônimo Rodrigues aparece com 45% e ACM Neto com 44% na disputa pelo governo. É, rigorosamente, um empate técnico: a diferença de um ponto está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No segundo turno, a fotografia praticamente se repete: 46% para Jerônimo e 45% para ACM Neto.
O primeiro erro seria transformar esse 45 a 44 em uma vitória de Jerônimo. Não é. O segundo seria ignorar a importância política do número. Também seria um erro. O que a pesquisa mostra é que, a poucas semanas da eleição, o governador não conseguiu transformar sua condição de candidato à reeleição em uma vantagem confortável sobre o principal adversário.
“Se Lula é tão forte na Bahia, por que Jerônimo não abre vantagem sobre ACM Neto?”
E isso acontece justamente numa Bahia em que Luiz Inácio Lula da Silva continua desfrutando de uma força eleitoral extraordinária. A pergunta é inevitável porque a eleição baiana parece estar produzindo duas disputas simultâneas: uma presidencial amplamente favorável ao petista e outra, estadual, em que o PT não consegue converter integralmente essa força em uma vantagem confortável para seu candidato.
O eleitor que não vota em pacote
A pesquisa mostra Lula com 55% das intenções de voto na Bahia para a Presidência, contra 24% de Flávio Bolsonaro. Num eventual segundo turno entre os dois, a vantagem de Lula chega a 61% contra 30%.
A diferença não prova, sozinha, que dez pontos de eleitores lulistas estejam votando em ACM Neto. Mas demonstra que a força presidencial de Lula não se transforma automaticamente em vantagem equivalente para o candidato petista ao governo.
Essa diferença é politicamente eloquente. Não significa, por si só, que dez pontos percentuais de eleitores lulistas estejam necessariamente votando em ACM Neto. Pesquisa não permite tamanha simplificação. Mas o contraste mostra que o eleitor baiano não está obrigado a comprar uma chapa fechada. Ele pode escolher Lula para presidente e, ao mesmo tempo, avaliar de maneira diferente a disputa estadual.
É aí que reside uma das chaves da eleição. ACM Neto precisa convencer uma parcela do eleitorado que gosta de Lula de que uma coisa é a escolha presidencial e outra é a escolha para o governo da Bahia. Jerônimo, por sua vez, precisa fazer o movimento inverso: transformar a enorme força de Lula em votos suficientes para abrir uma distância que hoje simplesmente não existe.
Jerônimo cresceu. Mas há um detalhe
Jerônimo avançou de 42% para 45% em relação ao levantamento anterior, enquanto ACM Neto permaneceu em 44%. Ou seja: o governador cresceu sem que o adversário tivesse perdido votos.
É justamente aí que a análise fica mais interessante. Segundo os dados apresentados na pesquisa, parte desse movimento veio da redução dos votos brancos e nulos, que passaram de 7% para 5%, além de pequenas oscilações entre os candidatos menores.
| Candidato/categoria | Anterior | Atual | Variação |
|---|---|---|---|
| Jerônimo | 42% | 45% | +3 |
| ACM Neto | 44% | 44% | 0 |
| Branco/nulo | 7% | 5% | -2 |
Isso significa que não se deve ler os três pontos de crescimento de Jerônimo automaticamente como uma transferência maciça de votos de ACM Neto. Não houve isso. O candidato do União Brasil continuou com os mesmos 44%.
A eleição, portanto, não está produzindo uma onda. Está produzindo uma disputa de centímetros. E eleições de centímetros costumam ser decididas por movimentos que, em determinado momento, parecem pequenos demais para chamar atenção — até que se transformam em milhares de votos.
A matemática da rejeição
Outro dado merece atenção: ACM Neto aparece com 45% de rejeição, enquanto Jerônimo registra 43%. Mais uma vez, trata-se de uma diferença que permanece dentro da margem de erro.
Isso significa que nenhum dos dois chega à reta final carregando uma rejeição suficientemente baixa para dormir tranquilo. Em eleições apertadas, o candidato não precisa apenas conquistar votos. Precisa evitar que o adversário consiga transformar sua rejeição em instrumento de mobilização.
O problema de Jerônimo: aprovação não é entusiasmo
A avaliação do governo Jerônimo ajuda a compreender a dificuldade. O governador aparece com 53% de aprovação e 45% de desaprovação. O maior grupo, entretanto, é aquele que classifica sua administração como regular: 41%. Apenas 30% dizem que o governo é ótimo ou bom, enquanto 28% o consideram ruim ou péssimo.
Esse 41% de regular é talvez mais importante politicamente do que o próprio índice de aprovação. Aprovação pode significar muitas coisas. O eleitor pode aprovar um governo sem estar apaixonado por sua continuidade. Pode considerar uma administração aceitável e, ainda assim, desejar mudança.
“A pergunta decisiva para Jerônimo não é apenas: você aprova meu governo? É outra: você quer que este governo continue?”
Lula é forte — muito forte
No caso de Lula, a fotografia é diferente. O presidente alcança 61% de aprovação entre os baianos e 37% de desaprovação. Na avaliação qualitativa, 39% classificam seu governo como ótimo ou bom, 33% como regular e 27% como ruim ou péssimo.
A diferença entre Lula e Jerônimo é politicamente expressiva. O presidente tem 61% de aprovação; o governador, 53%. Lula tem 55% na intenção de voto presidencial; Jerônimo tem 45% na corrida estadual.
É impossível olhar para esses números sem perceber que existe uma força eleitoral de Lula na Bahia que não se transforma automaticamente em vantagem equivalente para o candidato petista ao governo.
O 7 de Setembro entrou na eleição
Os acontecimentos recentes acrescentaram outra camada à disputa. Nos atos de 7 de Setembro em Salvador, apareceram manifestações associando ACM Neto a Flávio Bolsonaro. Neto, entretanto, havia declarado apoio a Ronaldo Caiado, e sua campanha afirmou que aquelas manifestações não representavam sua posição oficial.
Politicamente, o episódio é valioso para os dois lados. Para o grupo de Jerônimo, serve como matéria-prima para tentar nacionalizar a disputa e associar ACM Neto ao bolsonarismo. Para ACM Neto, a situação exige habilidade cirúrgica: ele precisa dialogar com um eleitorado oposicionista sem permitir que a eleição estadual seja reduzida à pergunta “Neto é ou não é candidato de Flávio Bolsonaro?”.
Disputar o eleitorado oposicionista sem permitir que a eleição baiana seja transformada num simples plebiscito nacional entre Lula e Bolsonaro.
Porque a Bahia continua sendo profundamente lulista. Se a eleição estadual virar simplesmente um plebiscito Lula contra Bolsonaro, os números atuais sugerem que Jerônimo teria um terreno muito mais confortável.
A estratégia de ACM Neto, portanto, passa por outra palavra: autonomia. Autonomia em relação à disputa presidencial. Autonomia em relação à polarização nacional. E, principalmente, capacidade de convencer o eleitor de que votar para governador é escolher quem administrará a Bahia — não apenas escolher um lado da guerra política brasileira.
E o Senado?
Se o governo está apertado, o Senado não está muito diferente. Rui Costa lidera com 26%. Jaques Wagner aparece com 19%, João Roma com 17% e Angelo Coronel com 15%.
Rui Costa 26% · Jaques Wagner 19% · João Roma 17% · Angelo Coronel 15% · Delliana 6% · Outros 3% · Branco/nulo 7% · Não sabe 7%.
Rui Costa parte de uma posição privilegiada, mas a segunda cadeira está aberta. Com a margem de erro de dois pontos percentuais, Jaques Wagner, João Roma e Angelo Coronel formam um bloco competitivo.
Há aqui uma informação especialmente importante: João Roma cresceu de 15% para 17%, enquanto Wagner oscilou de 20% para 19%. Rui Costa também avançou, de 25% para 26%.
A consequência é clara: Rui Costa aparece na dianteira, mas a segunda vaga está aberta. E eleição para o Senado tem uma característica diferente da eleição majoritária para governador: o eleitor escolhe dois nomes. Isso produz combinações, alianças, votos cruzados e estratégias de chapa que podem alterar completamente o resultado.
“A pergunta não é apenas quem está em segundo. A pergunta é: quem consegue ocupar o espaço de segundo voto do eleitor?”
A contradição que define 2026
No fundo, a pesquisa apresenta uma Bahia eleitoralmente dividida em camadas. Na Presidência, Lula tem vantagem muito larga. No Governo, Jerônimo e ACM Neto estão praticamente empatados. No Senado, Rui Costa lidera, mas a segunda vaga está aberta entre três nomes.
Isso revela um eleitorado menos previsível do que as estruturas partidárias gostariam. A Bahia pode continuar majoritariamente lulista sem necessariamente entregar ao PT uma vitória folgada para o governo. Pode votar em Lula e escolher outro candidato para governador. Pode votar em Rui Costa para o Senado e, simultaneamente, escolher um nome de outra corrente para a segunda vaga.
Lula 55%GOVERNO
Jerônimo 45% · ACM Neto 44%
SENADO
Rui Costa 26%
A eleição ainda não começou a decidir
Há uma tentação recorrente em períodos eleitorais: transformar pesquisa em profecia. Não é. Uma pesquisa é uma fotografia. Algumas fotografias mostram uma paisagem estável; outras capturam um momento de mudança.
Esta mostra uma disputa aberta. Jerônimo tem 45%. ACM Neto, 44%. Isso não é uma vitória. É um aviso.
O aviso vale para os dois lados. Para Jerônimo, significa que a força de Lula não basta. O governador precisa convencer o eleitor de que sua própria administração merece mais quatro anos.
Para ACM Neto, significa que o caminho existe. Mas ele passa necessariamente por conquistar eleitores que podem gostar de Lula e, ainda assim, querer outra opção para o governo estadual.
E, para ambos, significa que a eleição será decidida menos pelos eleitores que já estão completamente convencidos e mais pelos que ainda estão avaliando, comparando e esperando uma razão para mudar de lado.
UM PONTO PODE SER APENAS UM PONTO.
OU PODE SER A DISTÂNCIA ENTRE A VITÓRIA E A DERROTA.
A Bahia chegou àquela fase da campanha em que cada ponto vale ouro. Mais importante do que perguntar quem está um ponto à frente é compreender quais eleitores ainda podem mudar o resultado.
No momento, ninguém tem o direito de dizer que sabe o resultado. A única certeza que a pesquisa oferece é outra: a eleição da Bahia entrou definitivamente no modo empate.
Pesquisa Real Time Big Data realizada na Bahia entre 4 e 8 de setembro de 2026, com 1.600 eleitores, margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Os dados de intenção de voto, rejeição, aprovação e avaliação de governo são apresentados separadamente e não devem ser confundidos entre si.
Observação editorial: empate técnico não significa igualdade matemática absoluta, mas indica que a diferença observada está dentro da margem de erro da pesquisa.
JERÔNIMO RODRIGUES
ACM NETO
LULA
SENADO BAHIA
PESQUISA ELEITORAL
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