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GEOPOLÍTICA MILITANTE E FAÍSCAS FILOSÓFICAS
José Alcimar de Oliveira
“Eu sou o início, o fim e o meio”
— Raul Seixas
01. Hoje, 11 de setembro, marca o golpe que tirou o socialista Salvador Allende da presidência do Chile em 1973 e, neste 2026, o mesmo dia 11 marca os 25 anos do ataque às Torres Gêmeas no coração da maior potência bélica e capitalista do mundo. Marca, sobretudo, o início de uma inflexão geopolítica mundial. Não é exagero dizer que o século XXI se iniciou, de fato, em 11 de setembro de 2001. Daí em diante o sistema do capital só intensificou sua estratégia bélica.
02. Se o século XX foi chamado de breve pelo historiador marxista Eric Hobsbawm, indo de 1914 a 1991, em contraposição ao longo século XIX, que pela cronologia política do tempo longo se arrastou por 125 anos, de 1789 a 1914, não é antinômico pensar que o século XXI poderá ser o mais curto da história do ser social. Nele tudo se precipita e nunca sabemos a cada dia o que poderá ocorrer no dia seguinte. São inegáveis os sinais do encurtamento do tempo. Tudo se comprime a cada dia e a ideia de tempo como distentio animi (distensão da alma) pode ser vista como devaneio agostiniano.
03. O modo de produção capitalista imprimiu ao tempo uma cronologia entrópica. Tudo — o mundo do ser natural e o mundo do ser social — é presidido pelo ritmo da destruição programática e da aceleração compulsiva. As coisas já nascem obsoletas e a novidade de hoje envelheceu ontem.
Filosofia diante da velocidade do mundo
04. O que sobra para a Filosofia nessa geopolítica marcada pela impaciência, pelo agir imediato e refratário às mediações reflexivas? O penso logo existo cartesiano cedeu lugar ao existo sem pensar já preconizado e movido em curso veloz pela chamada Inteligência Artificial. Sirva de consolo filosófico ser possível e confortável existir sem pensar e desse modo esquecer de vez a tese hegeliana da Filosofia como paciência do conceito.
O século XX e seus grandes marcos filosóficos
05. Embora breve, em pouco mais de seis anos, entre 1921 e 1927, o século XX definiu, para tomar apenas três grandes autores e obras, a ratio studiorum que até hoje, com seus desdobramentos, continua a pautar o campo da reflexão filosófica do mundo ocidental, para aqui mencionar, por ordem cronológica: Ludwig Wittgenstein e seu Tractatus Logico-Philosophicus, de 1921; Georg Lukács e sua História e Consciência de Classe, de 1923; e Martin Heidegger com O Ser e o Tempo, de 1927.
06. O primeiro consolidou o que se tornou conhecido como virada linguística da Filosofia. Abriu o continente da linguagem. O segundo consolidou o continente do ser social: a consciência é um produto sociometabólico. Sob o capital não há horizonte histórico para a afirmação ontológica do ser social. O terceiro, ao afirmar o ser humano como Dasein, como única manifestação ontológica a colocar a pergunta sobre o sentido da existência, definiu os contornos da analítica existencial.
Capitalismo, barbárie e o futuro do planeta
07. Por fim, nesses tempos de colapso ambiental e barbárie social, com a consciência benjaminiana de que o capitalismo não morrerá de morte natural, resta lutar coletivamente, e o quanto possível for, para destruir uma tríade ilusória e concêntrica (ver Luiz Marques e Francisco Foot Hardman): 1) da ideologia do capitalismo sustentável; 2) da ideologia do crescimento infinito; 3) da ideologia do domínio antropocêntrico. Não considerar essas três ilusões é encurtar o devir em curso do que já se prenuncia como curtíssimo século XXI.
*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Setembro de 2026.
FILOSOFIA
CAPITALISMO
POLÍTICA
FILOSOFIA POLÍTICA
José Alcimar de Oliveira
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas




