Política e Resenha

Foi na Filosofia que Aprendi a Ler

ARTIGO

Padre Carlos

Foi na Filosofia que comecei a compreender que ler é muito mais do que juntar palavras, percorrer páginas ou terminar um livro. Foi estudando Filosofia que descobri que a leitura pode ser uma espécie de encontro. Um encontro silencioso, muitas vezes solitário, mas profundamente humano, com pessoas que viveram antes de nós e que, apesar da distância do tempo, continuam tendo algo a nos dizer.

Foi também na Filosofia que passei a compreender melhor aquela ideia atribuída a René Descartes de que a leitura dos bons livros nos permite conversar com as melhores mentes do passado. Quanto mais eu lia, mais percebia a profundidade dessa ideia. Quando abrimos um livro de Platão, Aristóteles, Descartes, Nietzsche ou Schopenhauer, estamos, de certa maneira, entrando em diálogo com homens que já não estão entre nós, mas cujas perguntas continuam vivas.

“E talvez seja essa uma das maiores riquezas de um bom livro: ele não precisa estar vivo para nos interpelar.”

Mas, olhando hoje para minha trajetória, eu seria injusto se dissesse que cheguei sozinho a esse mundo dos livros. Não cheguei. Tive muitos professores e mestres. Pessoas que foram muito importantes na minha formação e que, de diferentes maneiras, me ensinaram não apenas a ler livros, mas a procurar dentro deles aquilo que poderia transformar a minha maneira de pensar.

Alguns mestres nos ensinam uma disciplina. Outros nos ensinam uma profissão. Há, porém, aqueles que nos ensinam a pensar.

Esses são inesquecíveis.

Na minha caminhada, tive a felicidade de encontrar alguns deles.

Mestres que abriram portas

Lembro-me especialmente de Dom Celso, meu bispo, que tinha uma relação muito particular com os livros e com a leitura. Muitas vezes, ele tinha um livro para me entregar. Não era simplesmente um presente. Era quase uma provocação intelectual.

Ele me dava o livro e depois gostava de conversar comigo sobre aquilo que eu havia lido.

Isso é algo que guardo com muito carinho na memória.

Porque há uma diferença enorme entre alguém que simplesmente manda você ler e alguém que lê com você, ainda que esteja do outro lado da conversa. Dom Celso não apenas colocava livros nas minhas mãos. Ele queria saber o que eu havia descoberto neles, o que eu tinha entendido, o que havia me provocado.

E essas conversas me ensinaram uma coisa que só compreendi plenamente depois: uma leitura fica muito mais rica quando encontra outra leitura, outra experiência, outra pergunta.

O livro abre uma porta. O mestre nos ensina a atravessá-la.

Também tive a presença de meu reitor, João Cardoso, hoje Arcebispo de Natal, que foi igualmente importante nesse processo de descoberta intelectual. Lembro-me de como ele falava das suas próprias descobertas e de como essas conversas despertavam em mim a vontade de procurar novos autores.

Foi nesse ambiente de formação que ele conheceu, por exemplo, Ludwig Feuerbach, filósofo e antropólogo alemão do século XIX, conhecido sobretudo por sua crítica da religião e por sua influência sobre o pensamento de Karl Marx.

Feuerbach foi apresentado para ele pelo professor e advogado Rui Medeiros.

E talvez o mais importante não tenha sido apenas conhecer Feuerbach. O verdadeiro aprendizado estava na atitude intelectual que aquela descoberta representava: não ter medo de sair daquilo que já conhecemos.

João me incentivou a buscar novas leituras, a sair daquilo que poderíamos chamar de “dentro da caixa”. A descobrir autores que poderiam provocar minhas certezas e me colocar diante de outras formas de compreender o homem, a sociedade, a religião e a própria existência.

Hoje percebo a importância que isso teve na minha formação.

Porque uma verdadeira educação intelectual não deve construir muros ao redor da nossa cabeça. Deve abrir janelas.

E os grandes mestres são aqueles que nos mostram onde estão essas janelas.

Quando os livros pareciam labirintos

No começo, entretanto, não foi fácil.

Muito pelo contrário.

Alguns daqueles livros pareciam verdadeiros labirintos. Havia conceitos que eu precisava reler várias vezes. Havia páginas que eu terminava sem ter certeza de que havia compreendido corretamente o que o autor queria dizer. Às vezes, era necessário voltar algumas páginas, consultar outras obras e tentar novamente.

Para quem está começando no mundo da Filosofia, isso pode ser assustador.

Mas, com o tempo, compreendi que a dificuldade também fazia parte da aprendizagem.

Nós vivemos numa época em que estamos acostumados à rapidez. Queremos respostas imediatas, textos curtos, vídeos de poucos segundos e informações que possam ser consumidas enquanto fazemos outra coisa. O mundo digital nos ensinou a passar rapidamente de uma informação para outra.

Nunca tivemos acesso a tanta informação.

Mas ter mais informação significa necessariamente pensar melhor?

Não.

E foi a Filosofia que me ensinou isso.

A informação pode ser acumulada. O pensamento, não. Pensar exige tempo. Exige silêncio. Exige confronto. Exige disposição para descobrir que algumas das nossas certezas talvez não sejam tão sólidas quanto imaginávamos.

Existe uma diferença entre ler e aprender a ler

É aí que entra a importância da leitura.

Existe uma diferença enorme entre ler e aprender a ler.

Ler pode ser simplesmente passar os olhos pelas palavras. Aprender a ler é permitir que aquilo que está escrito atravesse nossas certezas e provoque alguma coisa dentro de nós.

Foi isso que comecei a experimentar quando entrei em contato com os grandes filósofos.

Platão me ensinou, entre tantas outras coisas, a importância do diálogo e da busca pela verdade. Aristóteles mostrou-me a importância de observar a realidade, organizar o pensamento e procurar compreender as coisas em suas causas e princípios.

Depois vieram outros.

Descartes ensinou a importância de colocar nossas certezas sob exame. Nietzsche me obrigou a desconfiar de muitas verdades aparentemente definitivas e a perceber a força das perguntas que colocamos diante da existência. Schopenhauer me colocou diante de uma visão profundamente inquietante sobre o desejo, o sofrimento e a condição humana.

E então vieram outros autores, outras escolas, outras interpretações.

Foi assim que descobri que o pensamento humano é muito maior do que qualquer uma de suas tradições.

Conhecer Feuerbach, por exemplo, significou entrar em contato com uma crítica radical da religião e perceber como diferentes filósofos poderiam olhar para uma mesma realidade a partir de perspectivas completamente distintas.

E isso foi fundamental para mim.

Aprender a pensar não significa concordar com todos.

Significa aprender a escutá-los.

Significa compreender antes de julgar.

Significa ter coragem de colocar nossas próprias convicções diante de perguntas difíceis.

Os livros que continuam conversando conosco

Foi nesse processo que comecei a perceber que os grandes livros não existem para nos entregar respostas prontas.

Eles existem, muitas vezes, para nos ensinar a fazer perguntas melhores.

O que é a verdade? O que é a justiça? O que significa ser livre? O que é uma vida boa? Por que sofremos? O que podemos conhecer? Como devemos agir? O que significa existir?

Mudam os séculos, mudam as tecnologias, mudam os costumes, mudam as sociedades.

Mas muitas dessas perguntas continuam diante de nós.

É por isso que os clássicos não envelhecem da mesma maneira que envelhecem outros livros.

Platão morreu há mais de dois mil anos. Aristóteles pertence a um mundo que desapareceu. Descartes viveu no século XVII. Nietzsche e Schopenhauer pertencem a outro momento da modernidade. Feuerbach morreu em 1872.

Entretanto, quando leio seus pensamentos, eles deixam de ser apenas personagens da História da Filosofia.

Tornam-se interlocutores.

E essa talvez seja a magia da leitura: transformar uma biblioteca em uma sala cheia de pessoas com quem podemos conversar.

A formação intelectual é feita de encontros

Foi isso que meus mestres me ensinaram, talvez sem perceberem.

Dom Celso, ao colocar um livro nas minhas mãos e depois perguntar o que eu havia encontrado nele, estava me ensinando muito mais do que um título.

Meu reitor, ao falar das suas descobertas intelectuais, estava mostrando que o conhecimento nunca termina.

Rui Medeiros, ao me apresentar Feuerbach e incentivar novas leituras, estava me ensinando que não devemos ter medo de sair daquilo que já conhecemos.

E meus outros professores, cada um à sua maneira, fizeram parte dessa caminhada.

Hoje compreendo que nossa formação intelectual é feita também dessas pequenas intervenções de pessoas que aparecem em determinados momentos da nossa vida e abrem uma porta que talvez permanecesse fechada sem elas.

Um professor pode apresentar um autor.

Um mestre pode despertar uma inquietação.

E uma inquietação pode mudar uma vida inteira.

Talvez por isso eu seja tão grato aos homens e mulheres que me ensinaram a ler para além das palavras.

Informação não é sabedoria

Hoje, quando vejo crianças e jovens cercados por telas, penso muito nisso. Não sou contra a tecnologia. Pelo contrário. A tecnologia pode democratizar o conhecimento de uma maneira extraordinária.

O problema não está na tecnologia.

O problema aparece quando a velocidade começa a destruir nossa capacidade de concentração.

Precisamos ensinar nossos filhos e nossos jovens não apenas a decifrar palavras, mas a gostar de ler. Mais do que isso: precisamos ensiná-los a pensar sobre aquilo que leem.

Porque uma sociedade que lê apenas para obter informação pode acumular conhecimento sem necessariamente desenvolver sabedoria.

E talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo.

Nunca tivemos tanta informação. Nunca foi tão fácil pesquisar qualquer assunto. Nunca tivemos tantos recursos para aprender.

E, ainda assim, continuamos enfrentando uma enorme dificuldade para pensar com profundidade.

Foi na Filosofia que comecei a compreender que o pensamento exige esforço.

Alguns livros precisam ser lidos devagar. Algumas páginas precisam ser relidas. Algumas ideias precisam permanecer dentro de nós durante dias antes que consigamos compreendê-las verdadeiramente.

Hoje compreendo que talvez não fossem os livros que fossem difíceis demais.

Era eu que ainda estava aprendendo a lê-los.

A leitura como exercício de humildade

Essa descoberta mudou minha relação com os livros.

Passei a entender que não precisamos dominar imediatamente tudo aquilo que lemos. Podemos caminhar lentamente. Podemos não compreender uma passagem na primeira leitura. Podemos voltar. Podemos discordar. Podemos questionar. Podemos amadurecer junto com o texto.

A leitura profunda é também um exercício de humildade.

Quando abrimos um grande livro, descobrimos rapidamente que alguém pensou sobre determinado problema muito antes de nós. E, às vezes, descobrimos também que aquilo que imaginávamos ser uma grande novidade já havia sido discutido há séculos.

Isso não diminui o nosso pensamento.

Ao contrário.

Nos coloca numa tradição.

O que os livros fizeram comigo

Hoje, olhando para trás, percebo que a Filosofia não me ensinou apenas a conhecer filósofos.

Ela me ensinou a desconfiar das respostas fáceis.

Ensinou-me a fazer perguntas.

Ensinou-me a escutar.

Ensinou-me que até aquilo em que acreditamos profundamente merece, em determinados momentos, ser colocado diante do espelho da razão.

E, acima de tudo, ensinou-me que ninguém pensa sozinho.

Pensamos também com aqueles que nos ensinaram.

Pensamos com os livros que lemos.

Pensamos com as perguntas que recebemos.

Pensamos com os mestres que passaram pela nossa vida.

“Um livro pode ser uma conversa. Um professor pode ser uma ponte. Um mestre pode ser uma janela. E uma pergunta bem colocada pode acompanhar um homem durante toda a vida.”

Talvez seja por isso que, quando olho para minha trajetória, não vejo apenas uma coleção de livros.

Vejo rostos.

Vejo professores.

Vejo mestres.

Vejo Dom Celso com um livro nas mãos e uma conversa esperando por mim.

Vejo meu reitor falando sobre uma nova descoberta intelectual.

Vejo Rui Medeiros apresentando Feuerbach e abrindo diante de João Cardoso uma porta que levava para outras leituras.

E vejo também aquele jovem que começou a enfrentar livros difíceis sem saber ainda que, dentro daquelas páginas, encontraria uma parte importante de si mesmo.

Foi na Filosofia que aprendi a ler.

Mas, pensando bem, talvez eu tenha aprendido algo ainda maior.

Aprendi que um livro pode ser uma conversa.

Que um professor pode ser uma ponte.

Que um mestre pode ser uma janela.

E que uma pergunta bem colocada pode acompanhar um homem durante toda a vida.

Hoje sei que podemos fechar um livro depois da última página.

Mas aquilo que ele despertou em nós pode permanecer aberto para sempre.

Foi na Filosofia que aprendi a ler. E, ao aprender a ler, descobri que cada grande livro é uma porta para uma inteligência que nos precedeu, uma experiência humana que atravessou o tempo e uma pergunta esperando por alguém disposto a escutá-la.

Talvez seja essa a verdadeira grandeza da leitura: conversar com quem já partiu para compreender melhor aqueles que estão aqui — e, principalmente, para compreender um pouco melhor quem somos.

Os grandes livros não apenas nos ensinam a pensar; eles nos transformam naquilo que ainda podemos ser.


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História da Filosofia

Autor

Padre Carlos

Política, Filosofia, Teologia e reflexão sobre a condição humana


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