Política e Resenha

Nossa Senhora Aparecida não se censura:

ARTIGO

Mariama continua entre nós

Por Padre Carlos

Há imagens que ultrapassam o papel, a madeira, o barro ou a tinta. Há imagens que se transformam em memória. Há símbolos que deixam de pertencer apenas aos templos e passam a morar na alma de um povo. Nossa Senhora Aparecida é uma dessas imagens.

Por isso, quando alguém tenta censurar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, não está simplesmente mexendo com uma representação religiosa. Está tocando em uma das imagens mais profundas da formação cultural brasileira. Está mexendo com a fé popular, com a história dos pobres, com a devoção dos negros, com a religiosidade nordestina e com a memória de milhões de brasileiros.

Nossa Senhora Aparecida não nasceu nos salões dos poderosos.

Ela apareceu nas águas. Negra, pequena, quebrada, encontrada por pescadores pobres no rio Paraíba do Sul, em 1717. Primeiro o corpo. Depois a cabeça. Como se a própria história brasileira dissesse que aquela mulher negra teria de ser reconstruída diante de um país que tantas vezes tentou esconder sua própria negritude.

E talvez seja justamente isso que incomode.

Aparecida é negra.
Aparecida é mulher.
Aparecida é mãe.
Aparecida é pobre.
Aparecida é do povo.

E é impossível compreender plenamente a força dessa devoção sem compreender também a presença africana e afro-brasileira na formação da nossa cultura.

Mariama e a memória dos quilombos

Foi pensando nessa dimensão que Dom Helder Câmara, ao lado de outros homens e mulheres comprometidos com a justiça social, ajudou a construir uma das experiências mais fortes da religiosidade brasileira: a Missa dos Quilombos.

Ali, a Igreja olhou para a história dos negros brasileiros não apenas como uma página dolorosa do passado, mas como uma história de resistência, dignidade e fé.

E Maria ganhou outro nome.
Mariama.

Mariama não é uma invenção para substituir Maria. É uma maneira de aproximar Maria das mulheres negras, das mães pobres, das mulheres que carregaram filhos no colo enquanto carregavam também o peso da escravidão, da fome, da violência e da exclusão.

Mariama é Maria atravessando a história dos quilombos.

É Maria caminhando ao lado de Zumbi.

É Maria olhando para as senzalas.

É Maria entrando nas casas humildes.

É Maria encontrando seu povo nos terreiros, nas comunidades, nas igrejas, nas ruas e nos lugares onde a fé sobreviveu apesar da opressão.

Dom Helder compreendeu algo que muitos ainda não compreenderam: a fé popular não cabe nas gavetas ideológicas daqueles que desejam controlar a religião.

A fé brasileira é mestiça, plural, contraditória, profunda e extraordinariamente criativa.

O mesmo povo que se ajoelha diante de Nossa Senhora Aparecida pode reconhecer em sua experiência religiosa elementos de uma cultura marcada pela África, pelo catolicismo popular, pelas tradições indígenas e pelas inúmeras formas de resistência construídas ao longo de nossa história.

Isso não diminui a fé.

Isso explica a sua grandeza.

Liberdade religiosa não pode significar apagamento

Por isso, a censura de uma imagem religiosa precisa ser tratada com muita seriedade.

Vivemos em uma sociedade democrática, onde a liberdade religiosa e a liberdade de expressão devem ser preservadas. Evidentemente, liberdade não significa ausência de limites jurídicos. Uma sociedade plural precisa estabelecer regras para proteger direitos, evitar discriminações e preservar a dignidade humana.

Mas uma coisa é regular democraticamente o espaço público.
Outra coisa é querer apagar símbolos porque eles incomodam.

Uma coisa é promover o respeito entre religiões.
Outra é transformar a diferença religiosa em motivo para censura.

Uma coisa é combater intolerância.
Outra é produzir uma nova intolerância em nome do combate à intolerância.

E aqui está o paradoxo.

Aparecida sobreviveu à escravidão, às desigualdades, às disputas políticas, às transformações sociais e às inúmeras tentativas de domesticar a religião popular.

Não será uma canetada que apagará sua presença da memória brasileira.

Aparecida está onde o povo está

Porque Nossa Senhora Aparecida não está apenas nos altares.

Está nas casas simples.
Está nas procissões.
Está nas festas populares.
Está nos terços.
Está nas promessas.
Está nas lágrimas das mães.
Está na esperança dos trabalhadores.
Está na religiosidade do povo brasileiro.

E está, sobretudo, na memória daqueles que aprenderam desde cedo que Deus também pode ser encontrado no rosto dos pequenos.

Talvez seja por isso que a imagem incomode tanto quando colocada diante da realidade social brasileira.

Uma Maria negra nos obriga a perguntar o que fizemos com os negros deste país.

Uma Maria pobre nos obriga a perguntar o que fizemos com os pobres.

Uma Maria mãe nos obriga a perguntar quantas mães ainda choram seus filhos.

Uma Maria encontrada quebrada nas águas nos obriga a perguntar quantos brasileiros continuam tentando reconstruir suas próprias vidas depois de séculos de abandono.

É impossível olhar para Aparecida sem olhar para o Brasil.

E é impossível olhar para Mariama sem olhar para a África que o Brasil carregou consigo, mesmo quando tentou negá-la.

A Maria que aproxima o altar da vida

Dom Helder sabia disso.

Por isso sua voz continua atual.

A Missa dos Quilombos não foi apenas uma celebração religiosa. Foi também um gesto de memória. Um reconhecimento de que a Igreja precisava olhar para os sofrimentos históricos de um povo e pedir que a fé não fosse utilizada para justificar a injustiça.

Mariama é essa Maria que desce do pedestal.

Ela não abandona o altar.
Ela aproxima o altar da vida.

Ela olha para o quilombo.
Olha para a periferia.
Olha para o sertão.
Olha para a mulher negra.
Olha para a criança pobre.
Olha para aquele que não tem voz.

E talvez seja justamente aí que esteja a maior força de Nossa Senhora Aparecida.

Ela não pertence aos poderosos. Ela pertence à memória afetiva de um povo.

O que uma imagem nos obriga a enfrentar

Censurar uma imagem é fácil.

Mais difícil é enfrentar aquilo que a imagem representa.

Mais difícil é enfrentar a desigualdade racial.

Mais difícil é enfrentar a pobreza.

Mais difícil é combater o racismo.

Mais difícil é reconhecer a contribuição africana para a cultura brasileira.

Mais difícil é construir uma sociedade onde a liberdade religiosa seja realmente respeitada.

Por isso, diante de qualquer tentativa de apagar ou silenciar Nossa Senhora Aparecida, eu prefiro recordar Mariama.

A Maria de Dom Helder.
A Maria dos quilombos.
A Maria das mulheres negras.
A Maria dos pobres.
A Maria que não precisa de autorização dos poderosos para continuar sendo mãe.

Porque imagens podem ser retiradas das paredes.

Estátuas podem ser escondidas.

Quadros podem ser censurados.

Mas a memória de um povo não se apaga com uma borracha administrativa.

Mariama continua entre nós

Nossa Senhora Aparecida continuará aparecendo.

Nas águas da história.
Na fé dos simples.
Na resistência dos negros.
Na esperança dos pobres.
Na religiosidade popular.
E no coração de um Brasil que, apesar de todas as suas contradições, ainda reconhece naquela pequena imagem negra uma das maiores expressões de sua identidade.

Mariama continua entre nós.

E talvez seja justamente por isso que alguns ainda tenham medo de olhar para ela.

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Artigo de opinião

Padre Carlos