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“Eu acuso”: André Lara Resende diz que os juros altos é que deixam as contas públicas no vermelho

Política e Resenha • Economia e Poder

 

André Lara Resende e o Julgamento da Ortodoxia Rentista

Em “Eu acuso”, um dos pais do Plano Real denuncia o Banco Central, a grande imprensa e o mercado financeiro, e expõe a engrenagem dos juros estratosféricos.

O debate econômico brasileiro acaba de ser sacudido por um manifesto que põe o dedo na ferida digital da nossa paralisia de desenvolvimento. Em seu mais recente e provocativo artigo, intitulado “Eu acuso”, André Lara Resende — cuja autoridade intelectual confunde-se com a própria gênese da estabilização da moeda no país como um dos pais do Plano Real — não faz apenas uma crítica técnica; ele formula uma denúncia formal contra o tripé que sustenta a anomalia dos juros estratosféricos no Brasil: o Banco Central, a grande imprensa e o mercado financeiro.

O peso de quem tem história

Lara Resende escreve com o peso de quem tem história e conhecimento de causa. Não estamos diante de um heterodoxo de carteirinha, mas sim do formulador da URV (Unidade Real de Valor), ex-diretor do Banco Central e ex-presidente do BNDES. Quando uma mente desse calibre aponta que o Brasil gasta mal e aloca seus recursos de forma patrimonialista e demagógica, ele não está poupando o Estado. Contudo, o seu grande mérito é desmontar a narrativa hegemônica de que a única salvação para o equilíbrio fiscal reside no corte cirúrgico do gasto social primário.

A tese: os juros como causa do desequilíbrio

A tese central de Lara Resende é clara: a taxa de juros real e abusiva é a principal causa do desequilíbrio fiscal que o próprio Banco Central diz combater. Cria-se um mecanismo perverso de retroalimentação, onde os juros elevam a dívida pública, justificando o clamor por cortes no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e em programas sociais essenciais, enquanto mantém-se intocada uma transferência trilionária para o topo da pirâmide rentista.

A proposta: uma banda móvel de juros

Sua proposta não é o espantalho do “tabelamento vertical” que o mercado tenta carimbar para desqualificá-lo. O economista propõe algo sofisticado e institucional: uma desindexação dos juros em relação à dívida pública por meio da criação de uma “banda móvel de juros” (entre 3% e 5,5%), nos moldes das antigas bandas cambiais. O objetivo é permitir uma redução gradual da taxa até um piso palatável, poupando o social e focando o ajuste fiscal onde ele realmente deve doer: na montanha de mais de R$ 600 bilhões em subsídios e benefícios tributários concedidos a setores corporativos privilegiados.

“Envelheçam.”

Nelson Rodrigues, lembrado pelo jornalista Luís Costa Pinto como conselho aos técnicos apressados da esplanada

A reação do ecossistema rentista

A reação do ecossistema rentista foi imediata e sintomática. O mercado, acostumado ao ganho fácil da especulação da dívida, “subiu nas tamancas”. O mais alarmante, contudo, é a blindagem ideológica promovida pela grande imprensa e por setores da própria equipe econômica. A reação defensiva de Dario Durigan, ao tentar fechar as portas do Palácio do Planalto para o debate com Lara Resende, evidencia o pânico que a ala mais jovem e dogmática da burocracia tem do contraditório. Durigan comete o erro clássico de querer falar em nome de um presidente eleito por milhões de votos, ignorando que as ideias de Lara Resende encontram eco na maioria do ecossistema político que cerca o mandatário — capitaneado por Aloizio Mercadante.

O libelo

Os três réus do “Eu acuso”

O libelo de Lara Resende condensa um diagnóstico corajoso:

Contra o Banco Central: por apegar-se a teorias anacrônicas que penalizam a produção e aprofundam o déficit fiscal.

Contra a grande imprensa: por repetir, feito caixa de eco e sem o devido exame crítico, que o mal da economia se resume ao gasto primário.

Contra os analistas de mercado: por confundirem deliberadamente o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica.

Como bem lembrou o jornalista Luís Costa Pinto ao citar Nelson Rodrigues, às vezes o melhor conselho para os técnicos apressados da esplanada é “envelheçam”. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de escolher o conforto do consenso artificial das planilhas do mercado em detrimento do incômodo da verdade econômica. O artigo de André Lara Resende não é uma ameaça ao teto fiscal; é uma boia de salvação para a soberania do desenvolvimento nacional.

Tags

André Lara Resende
Juros
Banco Central
Política Fiscal
Plano Real
Rentismo

Padre Carlos — colunista político — Política e Resenha