Política Internacional
A vitória dos democratas e o significado histórico das eleições nos Estados Unidos
Por Padre Carlos — teólogo, filósofo e colunista político
Os Estados Unidos acordaram com uma notícia extraordinária: Donald Trump foi derrotado nas duas Casas do Congresso americano. Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado e venceram até em estados que pareciam fortalezas inexpugnáveis do Partido Republicano.
Trump perdeu — e perdeu muito. Mas o mais impressionante não é apenas o tamanho da derrota. É o lugar onde ele perdeu. Os eleitores americanos foram às urnas nas chamadas midterms, as eleições de meio de mandato realizadas dois anos depois da eleição presidencial, e deram uma resposta contundente ao autoritarismo, aos abusos de poder, à guerra contra o Irã, à corrupção e ao aumento do custo de vida.
70%
As pesquisas de boca de urna revelam um dado extraordinário: 70% dos eleitores e eleitoras disseram querer um Congresso capaz de impor limites ao presidente.
Essa informação ajuda a compreender o sentido profundo da votação. Não foi apenas uma escolha partidária. Foi também uma defesa das instituições, do equilíbrio entre os poderes e da ideia de que nenhum presidente pode governar sem freios.
Mas prestem atenção: não foi apenas uma eleição contra Trump. Foi uma eleição que derrubou barreiras históricas.
Barreiras históricas que caíram
Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, uma mulher negra foi eleita governadora. Keisha Lance Bottoms venceu na Georgia, estado em que Trump havia conquistado a maioria em 2024. Pela primeira vez, uma mulher indígena foi eleita governadora: Deb Haaland, integrante do povo Laguna Pueblo, venceu no Novo México. No Texas, Gina Hinojosa tornou-se a primeira governadora latina da história do estado. Peggy Flanagan, por sua vez, tornou-se a primeira mulher indígena eleita para o Senado americano.
Esses acontecimentos têm uma dimensão simbólica enorme. O poder político dos Estados Unidos, durante muito tempo concentrado em homens brancos e em grupos tradicionais, começa a refletir de maneira mais ampla a diversidade da sociedade americana. A democracia não se fortalece apenas quando um partido vence. Ela se fortalece quando mais pessoas, grupos e comunidades passam a ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.
Os democratas também elegeram senadores em estados onde não venciam havia décadas. No Texas, Tallarico, conhecido por muitos brasileiros, conquistou uma cadeira no Senado que estava nas mãos dos republicanos desde 1988. No Kansas, os democratas venceram uma eleição para o Senado pela primeira vez em quase um século. Na Carolina do Sul, onde Trump havia vencido por quase 18 pontos percentuais em 2024, os democratas também conquistaram uma cadeira.
A extrema direita perdeu até onde parecia impossível perder.
Como isso aconteceu?
E aqui chegamos à pergunta que mais me interessa: como isso aconteceu?
É evidente que houve um voto de rejeição a Trump. Mas a rejeição, sozinha, não explica tudo. Os democratas conseguiram avançar entre eleitores de diferentes classes sociais, níveis de escolaridade e regiões do país. Recuperaram terreno inclusive entre comunidades latinas que haviam se aproximado de Trump em 2024.
No Kansas, por exemplo, em um condado que Trump havia vencido por 39 pontos percentuais, o candidato democrata ao Senado apareceu à frente por 13 pontos. Essa não é uma oscilação pequena. É uma mudança gigantesca na disposição política de uma parte do eleitorado.
Essa mudança não aconteceu porque os americanos simplesmente tenham acordado mais moderados. O custo de vida, a guerra, as tarifas comerciais e a insatisfação com o governo transformaram-se em questões centrais da eleição. Os democratas conseguiram conectar a crítica ao governo com os problemas concretos da vida das pessoas.
Essa é uma lição importante. O eleitor não vive apenas de discursos sobre instituições, ideologias ou disputas partidárias. Ele precisa pagar as contas, comprar alimentos, enfrentar o preço dos combustíveis, garantir atendimento médico e enxergar alguma esperança para o futuro. Quando a política consegue relacionar a defesa da democracia com as dificuldades reais da população, ela deixa de ser uma discussão abstrata e passa a fazer sentido na vida cotidiana.
Ao mesmo tempo, candidatos com trajetórias muito diferentes conseguiram mobilizar eleitores em territórios que a oposição praticamente havia deixado de disputar. A política voltou a ocupar espaços abandonados. Em vez de aceitar que determinados estados ou regiões pertenciam definitivamente a um partido, os democratas organizaram campanhas, apresentaram candidatos e conversaram com comunidades diversas.
O dinheiro não compra o povo
Vejam o caso da Georgia. Keisha Lance Bottoms enfrentou um bilionário que gastou mais de 200 milhões de dólares do próprio dinheiro na campanha. Sua resposta foi simples e poderosa:
“Ele pode ter o dinheiro, mas o povo, o povo tem o poder”.
Essa frase resume uma verdade essencial da democracia. O poder econômico pode comprar publicidade, estrutura e influência. Mas não pode substituir inteiramente a vontade popular. Quando os cidadãos se organizam, comparecem às urnas e percebem a força que possuem, o dinheiro deixa de ser uma garantia de vitória.
Um Congresso com poder de freio
Trump continua presidente dos Estados Unidos, mas agora terá diante de si um Congresso controlado pela oposição. Os democratas terão poder para investigar seu governo, bloquear parte de sua agenda e impor limites à sua autoridade. Talvez essa seja a grande notícia que vem dos Estados Unidos: o autoritarismo não é invencível, a extrema direita não é invencível e nenhum território pertence definitivamente a um projeto político.
Mas é preciso compreender também que essas vitórias não acontecem espontaneamente. Elas são vitórias da política — da política de verdade, aquela que organiza as pessoas, enfrenta os poderosos e apresenta um futuro pelo qual vale a pena lutar.
A democracia não se salva sozinha. Ela precisa de participação, mobilização, coragem e trabalho cotidiano. Precisa de partidos que escutem a sociedade, de candidatos que conheçam a realidade das pessoas e de cidadãos dispostos a defender as instituições mesmo quando o resultado eleitoral não lhes é favorável.
A vitória dos democratas nas duas Casas do Congresso americano, portanto, tem um significado que ultrapassa as fronteiras dos Estados Unidos. Ela mostra que as urnas ainda podem impor limites ao poder, que a diversidade pode abrir novos caminhos e que nenhum líder, por mais forte que pareça, está acima da sociedade e das instituições.
Trump perdeu. E perdeu muito. Perdeu porque uma parcela decisiva do povo americano decidiu dizer que o poder precisa de limites, que a democracia precisa ser respeitada e que o futuro não pode ser construído com autoritarismo, intolerância e medo.
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Padre Carlos
Teólogo, filósofo e colunista político





