Política & Resenha · Análise Política
Na Câmara, um bloco de mais de 360 deputados ameaça isolar o PL. No Senado, Teresa Cristina joga nos bastidores, Rogério Marinho pede respeito e Davi Alcolumbre sabe que, em votação secreta, até o abraço mais caloroso pode esconder uma punhalada.
Por Padre Carlos
Há uma velha ilusão que costuma acompanhar os grupos políticos quando chegam a Brasília embalados por uma votação expressiva: a de que o tamanho da bancada se transforma automaticamente em poder. É uma ilusão compreensível, mas Brasília é um lugar especialmente cruel com quem confunde quantidade com capacidade de articulação. Ali, não basta chegar de salto alto, anunciar que tem força e esperar que o restante do Congresso estenda o tapete vermelho. Na capital federal, o tapete costuma esconder armadilhas — e, às vezes, até adversários que sorriem enquanto calculam a próxima jogada.
O grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro parece estar aprendendo essa lição da maneira mais didática possível. Chegou com um PL fortalecido eleitoralmente, uma bancada expressiva e a expectativa de ocupar espaços estratégicos na estrutura do Congresso. Mas encontrou pela frente uma organização política que não se curva automaticamente ao tamanho de uma legenda. Na Câmara dos Deputados, o cenário descrito é particularmente revelador: um bloco parlamentar com mais de 360 deputados, entre os 513 integrantes da Casa, articula-se para ocupar o centro das decisões e deixar o PL politicamente isolado.
O bloco ainda depende de formalização, prevista para depois de fevereiro, mas sua dimensão já funciona como recado. A mensagem é simples: quem quiser participar da condução da Câmara terá de negociar. E negociar significa reconhecer que o poder não pertence a uma única bancada, muito menos a um grupo que imagina poder ditar as regras apenas porque chegou com números expressivos.
Na Câmara, o PL pode descobrir o preço do isolamento
A consequência dessa articulação pode ser pesada para o Partido Liberal. Sem composição, o PL corre o risco de ficar fora de posições relevantes da Mesa Diretora, inclusive da vice-presidência e de outros espaços de comando, além de enfrentar dificuldades para conquistar a presidência de comissões estratégicas, como a Comissão de Constituição e Justiça.
E aqui está a ironia: o partido que tantas vezes se apresentou como força capaz de confrontar o sistema pode acabar descobrindo que, dentro do Congresso, o chamado sistema também sabe contar votos, organizar blocos e distribuir poder.
A política parlamentar tem uma matemática própria. Não basta ter uma bancada numerosa; é preciso construir alianças, respeitar interesses e compreender que os demais partidos também têm projetos. Quem entra numa negociação exigindo tudo pode terminar sem o principal.
O PL precisa decidir se quer participar da construção de uma maioria ou se prefere permanecer no papel de força ruidosa, sempre pronta para denunciar o isolamento que, em boa medida, ajudou a produzir.
No Senado, Teresa Cristina prefere o silêncio ao espetáculo
Se na Câmara o movimento de isolamento do PL aparece de maneira mais explícita, no Senado o jogo é outro. O partido é a maior legenda da Casa, mas não possui maioria absoluta. E, quando o assunto é a sucessão no comando do Senado, tamanho de bancada não encerra a discussão.
É nesse ambiente que ganha relevância a movimentação da senadora Teresa Cristina. Segundo o relato apresentado sobre as articulações, ela tem conduzido sua candidatura com discrição, conversando com diferentes grupos e evitando transformar a disputa em espetáculo público.
A frase atribuída à senadora — de que mulher faz de forma diferente — pode até soar como uma observação bem-humorada, mas contém uma pista sobre o método adotado: menos declarações para os holofotes, mais conversas reservadas, menos bravata, mais construção de confiança.
Há um episódio particularmente sugestivo: Teresa Cristina e Davi Alcolumbre foram vistos conversando reservadamente, com o senador protegendo a boca para evitar a leitura labial. A cena, por si só, não prova o conteúdo da conversa. Mas, em Brasília, quando dois políticos se afastam para conversar e um deles transforma a própria mão numa cortina, dificilmente o assunto é a previsão do tempo.
Questionada, Teresa Cristina teria tratado o encontro como algo trivial. Talvez fosse. Mas a sucessão no Senado dificilmente é assunto trivial para quem conhece o peso de cada voto, cada compromisso e cada gesto de aproximação.
Rogério Marinho sabe que atacar Teresa pode custar caro
Outro elemento importante dessa disputa é a posição de Rogério Marinho. Durante o lançamento de sua candidatura, o senador teria feito questão de afirmar que Teresa Cristina não deveria ser atacada e que sua candidatura precisava ser respeitada.
A declaração merece atenção. Em disputas dessa natureza, transformar uma concorrente em inimiga pode ser o caminho mais curto para perder apoios que serão necessários no momento decisivo. Marinho sabe que a política não é feita apenas de quem declara apoio diante das câmeras, mas também de quem guarda ressentimentos longe delas.
O impasse é curioso: o PL espera contar com Teresa Cristina; Teresa Cristina espera contar com o PL e com Rogério Marinho. Todos parecem interessados em manter as portas abertas, mas ninguém quer entregar antecipadamente suas cartas.
É uma espécie de namoro político em que os pretendentes comparecem às reuniões, trocam gentilezas, elogiam as qualidades uns dos outros e deixam para decidir o compromisso quando descobrirem quem tem mais chances de chegar ao altar do poder.
O problema é que, em Brasília, ninguém quer ser o noivo abandonado na porta da igreja.
Quem não sabe negociar acaba negociado pelos outros.
— Padre Carlos, sobre a lição que Brasília repete há décadas
Voto secreto: a noite dos punhais
A votação secreta é o ingrediente que transforma essa sucessão numa operação de alto risco. Quando o voto é público, o parlamentar precisa administrar a pressão dos partidos, das lideranças e dos compromissos assumidos. Quando é secreto, surge uma liberdade adicional: a possibilidade de votar de maneira diferente daquela que anunciou.
É aí que aparecem a infidelidade, a vingança e a famosa memória seletiva dos acordos políticos.
Cena de bastidor
O parlamentar pode abraçar o candidato, posar para fotografia, participar do jantar de campanha e jurar fidelidade até o último minuto. Depois, entra na cabine de votação e faz o que considera melhor — ou o que julga mais conveniente para acertar uma velha conta.
Por isso, a expressão “noite dos punhais” descreve tão bem o ambiente. Não necessariamente porque todos estejam conspirando, mas porque a votação secreta permite que a cordialidade pública conviva com decisões tomadas longe dos olhos dos interessados.
Em Brasília, o aperto de mão nem sempre é um compromisso. Às vezes, é apenas uma maneira educada de medir a distância até o próximo adversário.
O PL precisa escolher entre a composição e a solidão
O que está em jogo ultrapassa a disputa por cargos. A sucessão na Câmara e no Senado revela o grau de capacidade política do PL para conviver com outras forças, negociar espaços e compreender os limites de sua própria influência.
O partido pode continuar apostando na força do número, na fidelidade ideológica e na autoridade política de Jair Bolsonaro. Mas precisa entender que o Congresso não é uma extensão do bolsonarismo, assim como o Senado não é uma sala de espera para decisões tomadas fora dele.
Na Câmara, um bloco com mais de 360 deputados, conforme o cenário apresentado, demonstra que a articulação coletiva pode superar a força isolada de uma legenda. No Senado, a movimentação de Teresa Cristina, a cautela de Rogério Marinho e a discrição de Davi Alcolumbre indicam que a disputa será decidida muito mais pela capacidade de construir confiança do que pelo volume das declarações.
O PL ainda pode negociar, compor e conquistar espaços. Mas terá de abandonar a ideia de que o protagonismo lhe pertence por direito adquirido. Política não é escritura de propriedade. É uma construção diária, feita de alianças, concessões e, sobretudo, leitura correta da correlação de forças.
No fim, a sucessão no Congresso poderá ensinar ao partido uma lição que Brasília repete há décadas: quem não sabe negociar acaba negociado pelos outros.
E, quando as urnas secretas forem abertas, talvez muitos descubram que receberam abraços demais e votos de menos. Porque, na política de Brasília, a traição raramente chega anunciada. Geralmente, ela comparece bem-vestida, cumprimenta todo mundo, sorri para a fotografia e espera a hora de apertar o botão.
PL
Câmara dos Deputados
Senado
Teresa Cristina
Rogério Marinho
Davi Alcolumbre
Voto secreto
Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha





