Hoje, enquanto pensava em Zé da Paz, um líder comunitário que dedicou sua vida a cuidar do bairro que ajudou a criar, me deparei com uma reflexão amarga sobre a hipocrisia que permeia as homenagens póstumas. Zé da Paz foi um dos primeiros moradores de seu bairro e lutou incansavelmente por sua comunidade até o último dia de vida. No entanto, quando mais precisou, não encontrou o socorro ou a ajuda que tanto merecia. Morreu no banco de trás de um carro, sem assistência, vítima de um tumor no cérebro. Somente após sua morte, decidiram homenageá-lo, batizando uma praça no bairro com seu nome. Esse gesto tardio, embora bem-intencionado, revela uma contradição dolorosa: por que só valorizamos as pessoas, especialmente figuras públicas como políticos e artistas, depois que elas se vão?
Um Homem que Tudo Deu e Pouco Recebeu
Zé da Paz não era um político tradicional, mas um líder comunitário no sentido mais puro da palavra. Sua vida foi dedicada a melhorar o bairro que ele viu nascer. Ele foi um pilar, alguém que deu tudo de si para os outros. Mas, quando enfrentou sua própria batalha contra um tumor no cérebro, a ajuda que buscou não veio. Quem muito deu, pouco recebeu quando precisou. Sua morte, seguida pela nomeação de uma praça em sua homenagem, é um símbolo gritante de como a sociedade falha em retribuir o que recebe. Em vida, ele foi negligenciado; em morte, exaltado. Esse padrão não é exclusividade de Zé da Paz — ele se repete com líderes comunitários, artistas e até políticos que, enquanto vivos, são esquecidos ou criticados, mas após partirem ganham status de lenda.
A Indiferença da Natureza e a Necessidade Humana
Os versos de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, trazem uma perspectiva que amplifica essa reflexão:
“Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.”
Caeiro nos confronta com a indiferença da natureza diante da morte. O mundo segue seu curso, as flores desabrocham, as árvores permanecem verdes, independentemente de nossa existência ou ausência. Essa visão, quase desconcertante em sua simplicidade, contrasta com nossa necessidade humana de criar narrativas póstumas que deem significado à vida de quem se foi. Homenageamos os mortos com placas, discursos e monumentos, como se isso compensasse o silêncio que lhes impusemos em vida. Mas, como Caeiro sugere, a realidade não precisa dessas homenagens — elas são para nós, os vivos, uma forma de lidar com a culpa ou de buscar redenção.
A Conveniência do Reconhecimento Tardio
Por que esperamos a morte para valorizar as pessoas? A resposta pode estar na conveniência. Homenagear alguém após sua partida é fácil: não exige confronto, não demanda ação imediata. Erguer uma praça com o nome de Zé da Paz é um gesto simbólico que apazigua consciências, mas não muda o fato de que ele morreu sem o apoio que merecia. Em vida, reconhecer seu valor teria significado estar ao seu lado, oferecer cuidados médicos, retribuir sua dedicação. Após a morte, basta uma placa e um discurso emocionado. Essa conveniência, porém, tem um custo: perdemos a chance de construir relações genuínas no presente, enquanto as pessoas ainda podem sentir o impacto de nosso apreço.
Caeiro vai além em sua reflexão:
“Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.”
Aqui, o eu lírico abraça a insignificância de sua morte com serenidade, rejeitando a ideia de que precisa ser lembrado. Essa aceitação é um desafio à nossa cultura obcecada por legados. Para Caeiro, as homenagens póstumas são fúteis, porque o mundo não muda com nossa ausência. Mas, para nós, que seguimos vivos, elas revelam uma hipocrisia: usamos a morte como um filtro que apaga falhas e exalta virtudes, transformando figuras complexas em ícones intocáveis. Artistas como Van Gogh, que morreram na miséria, ou políticos controversos que se tornam heróis nacionais postumamente, são exemplos disso. A morte nos permite idealizar sem o ônus de agir.
A Memória Coletiva e Suas Distorções
A memória coletiva, moldada por essas narrativas póstumas, muitas vezes distorce a realidade. Zé da Paz, ao ser homenageado com uma praça, é eternizado como um símbolo de virtude, mas essa idealização não reflete a verdade de sua vida — uma vida marcada por luta e abandono. Essa tendência de romantizar os mortos ignora suas contribuições reais e, mais importante, nossa responsabilidade de apoiá-los enquanto estavam entre nós. A praça é um gesto de gratidão, sim, mas também uma tentativa de apagar a culpa de uma comunidade que falhou com ele.
Caeiro continua:
“Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.”
Essa aceitação do tempo natural nos provoca: se a primavera virá de qualquer forma, por que não celebramos as pessoas enquanto elas podem compartilhar dessa beleza? Por que adiamos o reconhecimento até que seja tarde demais? A indiferença da natureza, que Caeiro exalta, não justifica a indiferença humana. Zé da Paz importava para sua comunidade, e sua morte, embora irrelevante para as flores e as árvores, foi uma perda sentida por aqueles que ele ajudou. Reconhecer isso em vida teria feito a diferença.
Um Chamado à Autenticidade
A hipocrisia das homenagens póstumas está na falsidade que muitas vezes as acompanha, mas também no que elas revelam sobre nossa incapacidade de viver o presente. Quantos Zés da Paz estão por aí, dedicando-se ao bem comum e sendo ignorados? Quantos de nós só perceberemos seu valor quando já não puderem ouvir nossos elogios? Caeiro encerra seu poema com uma verdade simples e poderosa:
“O que for, quando for, é que será o que é.”
A realidade segue seu curso, e nossas homenagens tardias não a alteram. Mas, enquanto estamos aqui, podemos escolher agir diferente. Valorizar as pessoas em vida — com suas virtudes e imperfeições — é um ato mais corajoso e autêntico do que qualquer monumento erguido após o fim. A história de Zé da Paz nos ensina que o verdadeiro reconhecimento não espera pela morte. Ele acontece agora, no calor da luta, na fragilidade da existência. Abandonar a hipocrisia de só amar quando é tarde demais é o primeiro passo para uma sociedade mais justa — uma sociedade que honra seus heróis enquanto eles ainda podem sentir o peso desse amor.