Política e Resenha

Além das Aparências: A Fé Autêntica que Transforma (Padre Carlos)

 

 

Irmãos e irmãs, queridos amigos em Cristo,

Hoje, neste II Domingo da Quaresma, somos convidados a refletir sobre uma verdade profunda e transformadora: “A glória de Deus são as pessoas plenas de vida”. Essa afirmação ressoa como um chamado à fé, à confiança e ao compromisso, iluminados pelas leituras que acabamos de ouvir. Vamos caminhar juntos por essa jornada espiritual, guiados pela história de Abraão, pelas palavras de São Paulo e pelo mistério da transfiguração de Jesus, para descobrir como a glória de Deus se manifesta em nós quando vivemos plenamente segundo o Seu plano.


1. Abraão: O Chamado à Fé e à Confiança

Na primeira leitura (Gn 15,5-12.17-18), encontramos Abraão, um homem que, aos olhos humanos, parecia destinado ao fracasso: já idoso, sem filhos, sem terra. Mas Deus o chama para algo maior. Ele pede que Abraão saia de sua terra, de sua tenda e, mais profundamente, de si mesmo. Não é apenas um convite para ver algo novo, mas para pensar algo novo, sonhar com uma realidade além das limitações humanas. E o que Deus oferece? Uma terra e uma descendência numerosa, seladas por uma aliança de sangue – um pacto que, mais tarde, será plenamente realizado no sangue de Cristo.

Abraão nos ensina que a fé é confiar em Deus mesmo quando tudo parece impossível. Ele aceita os planos divinos e se coloca a serviço dos desígnios de Deus. Esse é o primeiro passo para uma vida plena: sair de nós mesmos, abandonar nossas seguranças frágeis e confiar que Deus cumpre Suas promessas. Assim como Abraão, somos chamados a ouvir o chamado de Deus e responder com um “sim” generoso, permitindo que Sua glória brilhe em nossa entrega.


2. São Paulo: A Fé Autêntica e o Desapego

Na segunda leitura (Fl 3,17-4,1), São Paulo nos desafia a viver a fé de maneira verdadeira. Ele adverte a comunidade de Filipos – e a nós hoje – que a vivência cristã não se limita a ritos externos ou aparências. Não podemos reduzir nossa fé a uma “teologia do pano, liturgia da fumaça ou pastoral de prodígios”, como se fossem fórmulas mágicas para uma vida fácil. Nossa segurança está em Cristo, tanto em Sua glória quanto em Sua cruz.

Paulo nos alerta contra o apego às coisas materiais e às superstições, que desfiguram nossa vida e nosso sonho de realização. O desapego, ele nos diz, é um desafio diário. Precisamos nos libertar das ilusões deste mundo para encontrar a verdadeira plenitude, que vem de uma vida enraizada em Cristo. Quando vivemos assim, com autenticidade e coragem, tornamo-nos reflexos da glória de Deus, testemunhas vivas do Seu amor.


3. A Transfiguração: A Glória de Deus Revelada

No Evangelho (Lc 9,28b-36), somos levados ao Monte Tabor, onde Jesus se transfigura diante de Pedro, Tiago e João. Este é um momento de teofania, uma manifestação divina que nos mostra quem Jesus realmente é: o Cristo glorioso, mas também o crucificado; o mesmo da Palavra, da Eucaristia e dos que sofrem e são marginalizados. A transfiguração é uma luz que ilumina todas as realidades de nossa vida, revelando que a glória de Deus está presente mesmo em meio às nossas cruzes.

Mas a reação de Pedro nos ensina algo importante. Ele quer construir tendas, ficar na montanha, evitar a missão de Jesus que passa pela cruz. “Ele não sabia o que estava dizendo”, diz o Evangelho. Quantas vezes nós também queremos um Cristo sem cruz, uma fé confortável que não exija compromisso? Os discípulos dormem, simbolizando nossa própria dificuldade em acompanhar Jesus em Sua oração e missão. A voz do Pai, porém, nos desperta: “Este é meu Filho amado. Ouçam-no”. Ouvir Jesus é descer do monte, enfrentar as contradições da história e encarnar os valores do Evangelho na vida cotidiana.

A Quaresma nos convida a buscar essa teofania – seja num retiro, numa formação ou num maior engajamento na Igreja. É um chamado à intimidade com Deus, à justiça e à solidariedade, para que, mesmo nos maiores sofrimentos, encontremos o consolo divino.


4. Os Montes da Fé: Encontros com Deus

A Bíblia está repleta de montes que marcam encontros profundos com Deus, e cada um deles nos ensina algo sobre a vida plena:

  • Monte Moriá (Gn 22): Abraão é testado, pronto a sacrificar seu filho único, confiando na promessa de Deus. Em troca, recebe bênção e fecundidade.
  • Monte Sinai (Ex 3-4; 19-20): Moisés tira as sandálias, recebe a lei e o chamado para libertar o povo, com a promessa da presença divina.
  • Monte Carmelo: Elias enfrenta os falsos profetas, mostrando o poder de Deus e a necessidade de purificar nosso coração dos vícios e pecados.
  • Monte Calvário: Jesus oferece Sua vida, resgatando-nos do pecado. Ele nos pede para morrer com Ele – morrer para o egoísmo – e ressuscitar para uma vida nova.

Esses montes nos lembram que a fé envolve obediência e sacrifício, mas também nos oferece a promessa de vida abundante. Subir esses montes é responder ao chamado de Deus para sermos plenamente vivos.


5. Conclusão: Sejamos a Glória de Deus

Irmãos e irmãs, a glória de Deus se manifesta nas pessoas que vivem plenamente – confiando como Abraão, desapegando-se como Paulo ensina, e ouvindo Jesus como no Monte Tabor. O Concílio Vaticano II nos alerta sobre o “divórcio entre a fé professada e o comportamento quotidiano”, um dos maiores erros de nosso tempo. Não basta vislumbrar o céu; precisamos concretizá-lo em ações que promovam os que sofrem, instaurem a justiça e lutem contra tudo o que torna a vida indigna.

Neste tempo de Quaresma, subamos o Monte Tabor com Jesus. Entremos na nuvem divina, contemplemos Seu rosto e apaixonemo-nos por Ele. Mas não fiquemos parados, olhando para o céu. Como os anjos disseram aos discípulos após a Ascensão: “Homens da Galileia, por que ficais aí, parados?” (At 1,11). Desçamos do monte para viver a missão de Jesus, carregando a cruz com Ele, para que Sua glória brilhe em nós e através de nós.

Que nossa vida seja um eco da voz do Pai: “Este é meu Filho amado. Ouçam-no”. Que sejamos pessoas plenas de vida, refletindo a glória de Deus em cada gesto de amor, justiça e serviço. Amém.