Política e Resenha

ARTIGO – A Jornada do Autoperdão à Luz de Jung (Padre Carlos) 

 

 

  

Foi buscando entender o outro e ajudar dentro de uma abordagem humanista do sentimento de culpa e o sacramento da reconciliação que busquei na teologia estudar uma abordagem Junguiana que me levacem a conhecer um pouco da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Desta forma quando me peguei nesta manhã evocando um pedido de desculpas a mim mesmo me veio na memória os textos do autor que diz: Isto acontece todas as vezes em que assumimos culpas que não eram verdadeiramente nossas. Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, esse movimento pode ser compreendido como um processo de conscientização da sombra, a parte inconsciente de nossa psique que contém tanto potenciais não desenvolvidos quanto conteúdos reprimidos. Quando aceitamos culpas que não nos pertencem, muitas vezes estamos reagindo a complexos inconscientes ou projeções que nos levam a abraçar responsabilidades alheias, confundindo nossa verdadeira identidade com papéis que a sociedade ou as circunstâncias nos impõem. 

  

Para Jung, o caminho da individuação — a busca por tornarmo-nos quem realmente somos — exige um encontro honesto com esses aspectos sombrios e inconscientes. Reconhecer que assumimos culpas que não são nossas implica questionar o que nos levou a isso: medos, inseguranças ou a necessidade de aprovação. Esses fatores podem emergir de feridas emocionais não curadas ou de padrões herdados de nossa história familiar e cultural. Ao trazer à luz esses conteúdos, temos a oportunidade de integrar e transformar os complexos que alimentam a falsa culpa. 

  

O autoperdão, nesse contexto, surge como uma etapa crucial. Ele não consiste em simplesmente ignorar erros ou negar falhas, mas em reconhecer que todos nós estamos em constante desenvolvimento. A culpa genuína, quando apropriada, pode ser um convite à autorreflexão e à reparação. Já a culpa injusta, aquela que não nos pertence, precisa ser ressignificada para que possamos nos libertar de pesos emocionais que nos afastam de nossa essência. Nesse processo, o diálogo interior, a análise de sonhos e a reflexão sobre nossas atitudes são ferramentas que Jung propõe para cultivar a consciência e fortalecer o self. 

  

Desse modo, estes sentimentos me lembraram da importância de nos tratarmos com compaixão e honestidade. Ao pedirmos desculpas a nós mesmos pelas culpas que não eram nossas, estamos dando um passo em direção à nossa totalidade psíquica. É nesse espaço de reconciliação interna que floresce a capacidade de viver com mais autenticidade, compreender nossa jornada e acolher tanto as luzes quanto as sombras que compõem nossa história.