Política e Resenha

ARTIGO – Chacina ou Confronto: O Preço da Impunidade

 

 

(Padre Carlos)

Há uma década, o episódio no Cabula marcou a memória de uma sociedade que clama por justiça, quando 12 jovens perderam a vida sob circunstâncias que hoje ainda levantam dúvidas sobre a veracidade da narrativa oficial. Agora, o incidente em Fazenda Coutos ressurge, trazendo à tona as mesmas questões cruciais: até que ponto podemos aceitar, sem uma investigação rigorosa e independente, a versão de um confronto legítimo quando a balança pesa igualmente para o termo “chacina”?

Em uma operação policial que resultou na morte de 12 pessoas, a justificativa da legítima defesa ecoa a defesa apresentada há dez anos, mas sem a mesma transparência e esclarecimentos que a sociedade exige. A ausência de perícias conclusivas e o histórico de violência policial impõem o imperativo de uma análise profunda, que vá além das estatísticas e retóricas oficiais. Cada vida ceifada num suposto enfrentamento se transforma em um grito por respostas, em um chamado urgente para que os métodos de trabalho das forças de segurança sejam questionados e, se necessário, reformulados.

A confiança depositada na narrativa oficial se vê abalada pelo peso das evidências históricas que apontam para o uso excessivo da força. Enquanto a polícia insiste na ideia de um confronto inevitável, a comunidade e os especialistas clamam por uma investigação que revele toda a verdade. Afinal, o rótulo de “chacina” não se aplica apenas ao número de mortos, mas à própria essência de um ato que pode representar a execução sumária de indivíduos, muitas vezes sem direito à defesa ou à dignidade.

A lembrança do Cabula serve como alerta para que não repitamos os erros do passado. É preciso que as autoridades se comprometam com a transparência e que o aparato estatal se sujeite a um escrutínio imparcial. A busca por justiça não pode ser ofuscada por relatos que, por vezes, se apoiam em uma versão incontestável da “legítima defesa”, ignorando a complexidade dos fatos e o impacto devastador que tais eventos têm sobre as comunidades.

A verdadeira transformação social dependerá da coragem de olhar para os fatos com olhos críticos e da disposição para corrigir rumos. Em um país onde a violência policial ainda ceifa vidas, o apelo por responsabilidade, por investigações profundas e por justiça efetiva ecoa como um chamado indispensável para que, finalmente, cada morte seja tratada com o rigor e o respeito que a verdade exige.