Política e Resenha

ARTIGO – Decisões de Morte: Como o Estado Ordenou a Execução dos “Subversivos Perigosos” (Padre Carlos)

 

 

A descoberta de um documento, descrito como “o mais perturbador em vinte anos de pesquisa”, nos arrasta para uma narrativa que transcende o tempo e desafia nossa consciência. Em uma reunião ocorrida em março de 1974, o General Ernesto Geisel, ainda no frescor de sua posse presidencial, foi confrontado por assessores de alta patente – incluindo o então comandante do Centro de Informações do Exército, seu sucessor e o General João Figueiredo, escolhido para o Serviço Nacional de Inteligência – que traziam uma notícia devastadora: 104 vidas haviam sido ceifadas sumariamente no período do governo Médici. A proposta era clara e cruel: a continuidade desta política de assassinatos sob a égide do novo regime.

A resposta de Geisel, embora revestida de uma aparente ponderação, revela uma tragédia moral intrínseca ao exercício do poder. Ao autorizar, no dia seguinte, a perpetuação desses atos sob condições restritas – executando apenas “subversivos perigosos” e submetendo cada decisão a uma aprovação meticulosa no Palácio do Planalto – o presidente não fez senão confirmar a conivência dos altos escalões do Estado com práticas que transformam a política em uma sentença de morte. Tal decisão, embasada em uma lógica perversa de controle e medo, ilumina a tênue linha que separa a segurança nacional da violação dos direitos humanos.

Ainda mais inquietante é a constatação de que este documento, endereçado a Henry Kissinger, imbrica o cenário brasileiro à diplomacia internacional. A aproximação promovida por Kissinger com Geisel reforça a noção de que os jogos de poder, muitas vezes, se sobrepõem à ética e à responsabilidade. A identidade do informante da CIA, deixada envolta em mistério, amplia o espectro de dúvidas e questionamentos sobre os bastidores de uma política que, longe de buscar a justiça, abraçava a impiedade.

Este relato, com sua crueza e formalidade burocrática, não é apenas um registro histórico; é um convite urgente à reflexão. Ele nos obriga a reviver os horrores de um passado marcado pelo autoritarismo e pela violência, ressaltando a importância de manter acesa a chama da memória e da vigilância. É imperativo que, mesmo décadas após os fatos, a sociedade se mantenha alerta e disposta a questionar as narrativas oficiais, para que a verdade – por mais perturbadora que seja – jamais seja silenciada.

Em tempos onde as sombras do autoritarismo ainda se insinuam sob disfarces modernos, este documento serve como um poderoso lembrete de que a luta pela transparência e pelos direitos humanos deve ser incessante, e que a história, por mais dolorosa que seja, é a melhor professora para a construção de um futuro verdadeiramente justo.