Darcy Ribeiro, antropólogo, educador e político brasileiro, certa vez descreveu sua entrada no Senado Federal como uma experiência quase celestial. “Quando entrei no Senado, tive a impressão de entrar no Céu”, disse ele, em uma ironia cortante, já que era um ateu materialista convicto. Essa visão quase utópica, carregada de idealismo, choca-se hoje com uma realidade bem menos divina. Na véspera do Carnaval, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), assinou um pacote de benefícios milionários para senadores e servidores de alto escalão. O “Céu” de Darci, ao que parece, transformou-se em um paraíso exclusivo para os privilegiados, enquanto o povo brasileiro amarga um inferno de desigualdades.
Os números falam por si. A cota parlamentar, que reembolsa senadores para despesas como transporte, alimentação e consultorias, teve um aumento de até 65%, com valores que agora variam de R$ 36.582,46 para os do Distrito Federal a R$ 52.798,82 para os do Amazonas. O impacto anual dessa generosidade pode chegar a R$ 4,9 milhões. E não se engane: em fevereiro, essa mesma cota já havia sido reajustada em 6,13%. Mas o verdadeiro milagre celestial vem com a “licença compensatória” para servidores de alto escalão, que concede um dia de folga a cada três dias trabalhados – um benefício que pode ser convertido em dinheiro, elevando salários a até R$ 1 milhão. Inspirada no Poder Judiciário, onde privilégios semelhantes já são rotina, a medida é um tapa na cara de quem acredita que o serviço público existe para servir ao público.
Enquanto isso, milhões de brasileiros enfrentam um cenário bem terreno: inflação galopante, desemprego persistente e escolas e hospitais em colapso. O contraste é gritante. O Senado, que Darcy Ribeiro viu como um espaço de elevação, tornou-se uma máquina de enriquecer seus membros, um clube VIP onde o serviço público vira sinônimo de lucro privado. Que tal, então, essa definição de “Céu”? Um lugar onde os “escolhidos” se refestelam com supersalários e cotas infladas, enquanto o povo, lá embaixo, paga a conta e reza por um milagre que nunca vem.
E não venham dizer que isso é só “o jeitinho brasileiro”. Em países desenvolvidos, o setor privado paga mais que o público, e 90% dos servidores mundo afora não têm estabilidade vitalícia. Aqui, porém, a lógica é outra. O Amapá, estado de Alcolumbre, recebe dez vezes mais dinheiro do que arrecada, um exemplo escancarado de como o sistema brasileiro sustenta privilégios regionais e políticos às custas do contribuinte. Quem financia esse “Céu”? O mesmo povo que lota filas no SUS, que vê seus filhos em escolas precárias, que pega ônibus lotados para trabalhar por um salário mínimo.
A ironia de Darcy Ribeiro ressoa como um deboche involuntário. O Senado que ele exaltou como um ideal hoje é um símbolo de desconexão e ganância. Está na hora de o brasileiro abrir os olhos e cobrar que seus representantes desçam das nuvens. Que o “Céu” de Darci deixe de ser um paraíso para poucos e volte a ser uma aspiração de justiça para todos. Transparência, responsabilidade e fim desses privilégios absurdos não são pedidos – são exigências.
(Padre Carlos)