Política e Resenha

ARTIGO – O Embaixador que Nunca Foi e a Política que Não Conquistou Gusttavo Lima

 

(Padre Carlos)

Nos últimos anos, o Brasil testemunhou um fenômeno curioso: a invasão do show business na política. O mundo das celebridades se entrelaçou com a arena eleitoral, produzindo figuras que, à revelia da experiência administrativa, conquistaram relevância política. Gusttavo Lima, o “embaixador” do sertanejo, parecia pronto para ser mais um desses casos. Contudo, sua desistência mostra que, apesar do entusiasmo inicial, a realidade da política nacional é um fardo mais pesado do que o brilho dos palcos poderia sustentar.

A ideia de um artista, sem histórico na política institucional, almejar a Presidência da República não chega a ser inédita. Nos Estados Unidos, Ronald Reagan saiu de Hollywood para a Casa Branca. Na Ucrânia, Volodymyr Zelensky passou da comédia televisiva para a liderança de um país em guerra. No Brasil, o campo da direita, especialmente órfão de Bolsonaro para 2026, viu em Gusttavo Lima um rosto popular, com milhões de seguidores e uma base fiel de fãs. Ele surgiu como um possível outsider, um nome que poderia preencher o vácuo eleitoral deixado pelo ex-presidente inelegível.

No entanto, a política é um jogo implacável. Diferente dos palcos, onde um artista controla sua narrativa e recebe aplausos incondicionais, o meio político é um campo de batalhas onde aliados e adversários disputam cada espaço com estratégia e, muitas vezes, ferocidade. Gusttavo Lima percebeu que a fama, por si só, não é suficiente para sustentar uma candidatura viável.

Seu anúncio de desistência revela um homem que, ao flertar com a política, sentiu o peso do compromisso que ela exige. A oposição familiar, a enxurrada de críticas, as fake news que o cercaram e, possivelmente, a pressão dos partidos e políticos profissionais foram fatores determinantes. Ele admite que “não tem estômago” para a política, um reconhecimento honesto e raro em tempos de populismo e aventureirismo eleitoral.

Talvez a maior ironia do episódio seja a ilusão de que um “embaixador” do sertanejo poderia transpor sua influência para a política com a mesma facilidade. Em um Brasil democrático, a política exige negociações, articulações e concessões. Diferente de um artista consagrado, um presidente é eleito pelo povo e governa sob o escrutínio de instituições e da opinião pública. Gusttavo Lima, com seu perfil espontâneo e emocional, percebeu que essa dinâmica não lhe seria favorável. Seu discurso de união e imparcialidade soa bonito, mas na prática, a política exige posicionamentos claros e compromissos concretos.

A desistência do cantor não significa que a direita brasileira tenha perdido uma peça-chave para 2026. Pelo contrário, indica que a sucessão de Bolsonaro ainda está indefinida, sem um nome capaz de unificar o campo conservador. Enquanto isso, Gusttavo Lima retorna ao que faz melhor: cantar, entreter e emocionar multidões.

O Brasil, afinal, não precisa de um “Embaixador” no Palácio do Planalto. Gusttavo Lima, apesar de sua popularidade, percebeu que sua missão é nos palcos, não nas urnas.