Política e Resenha

DE TRAIDORES A IRMÃOS: A REVOLUÇÃO DE FRANCISCO NA IGREJA CATÓLICA

 

 

É simplesmente revoltante pensar que, por tantas décadas, homens que dedicaram anos de suas vidas ao serviço pastoral foram tratados como párias ao tomarem uma decisão humana e legítima sobre seus próprios caminhos! O recente rescrito do Papa Francisco sobre os processos de dispensa sacerdotal não é apenas uma mudança administrativa – é um grito de justiça que estava represado há gerações.

Como sociedade que valoriza a dignidade humana, como podemos aceitar que uma instituição tenha exigido que seus ex-membros vivessem na obscuridade, celebrassem seus casamentos “sem pompa”, como se o amor encontrado fosse motivo de vergonha? Como toleramos por tanto tempo que pessoas qualificadas fossem impedidas de contribuir com seus conhecimentos apenas porque escolheram constituir família?

É ultrajante que tenha sido necessário esperar tanto tempo para vermos uma mudança tão fundamental no tratamento desses homens. A linguagem anterior era deliberadamente humilhante: “secularização”, “redução ao estado de leigo”, como se abandonar o sacerdócio fosse uma degradação moral. Quantas vidas foram marcadas por essa estigmatização institucionalizada?

Mas é aqui que encontramos motivos para esperança. As mudanças instituídas pelo Papa Francisco e pela Congregação do Clero representam uma revolução não apenas de procedimentos, mas de mentalidade. Ao substituir termos carregados de julgamento por expressões como “dispensa” e “clérigo dispensado”, a Igreja finalmente reconhece a dignidade integral desses homens.

Mais impressionante ainda é a nova postura de acolhimento. Antes tratados como contaminadores em potencial, agora são reconhecidos como colaboradores valiosos que podem “prestar serviços úteis à comunidade cristã”. Esta mudança não beneficia apenas os padres dispensados, mas enriquece toda a comunidade eclesial com talentos e experiências que antes eram desperdiçados!

Como cidadãos comprometidos com uma sociedade inclusiva, devemos aplaudir esta transformação e perguntar: que outras instituições ainda mantêm práticas excludentes semelhantes? Onde mais relegamos pessoas ao ostracismo por escolhas pessoais legítimas?

A eliminação da obrigatoriedade de penitências é particularmente significativa. É inadmissível que uma escolha pessoal sobre o próprio caminho vocacional tenha sido tratada como um pecado a ser expiado! Esta mudança não é apenas um alívio para os padres dispensados, mas um passo importante para uma cultura institucional mais saudável.

O que temos diante de nós é um exemplo concreto de como instituições podem evoluir. A Igreja demonstra que é possível rever posições historicamente enraizadas e escolher um caminho mais humano e acolhedor. Essa transformação deve nos inspirar a questionar: onde mais precisamos de mudanças semelhantes em nossa sociedade?

A frase “na práxis atual” usada no documento é reveladora e provocativa. Ela sugere que estamos diante de um processo em evolução, não de um ponto final. Isso nos lembra que as reformas institucionais não acontecem de uma vez só, mas em etapas – muitas vezes começando com mudanças simbólicas que abrem caminho para transformações mais profundas.

É nossa responsabilidade coletiva garantir que mudanças como essas não fiquem apenas no papel. Os fiéis católicos têm agora a oportunidade de transformar essas diretrizes em práticas concretas de acolhimento. As comunidades paroquiais podem demonstrar que realmente valorizam esses “irmãos dispensados”, convidando-os a contribuir com seus dons e experiências.

Para aqueles que foram marginalizados por essa política anterior, este é um momento de vindicação. Sua dignidade está sendo oficialmente reconhecida, e suas escolhas pessoais legitimadas. Mas não devemos esquecer o sofrimento desnecessário causado por décadas de exclusão institucionalizada.

O exemplo do Papa Francisco nos desafia a todos: que outras exclusões estamos perpetuando em nossas comunidades e instituições? Que outras pessoas estamos relegando às margens apenas porque fizeram escolhas diferentes das convencionais?

A verdadeira transformação social começa quando questionamos práticas excludentes e trabalhamos ativamente para criar comunidades mais acolhedoras. O rescrito do Papa Francisco não é apenas uma vitória para os padres dispensados, mas um lembrete de que instituições podem – e devem – mudar quando suas práticas não respeitam a dignidade humana.

É nosso dever cívico aplaudir este avanço, mas também permanecer vigilantes. A jornada rumo a uma sociedade verdadeiramente inclusiva é longa e exige compromisso constante. Que esta mudança na Igreja Católica seja um catalisador para transformações semelhantes em todas as esferas sociais onde a exclusão ainda é a norma.

O caminho está aberto. Cabe a nós agora transformar esta inspiração em ação concreta em nossas próprias comunidades.

Padre Carlos