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Lula encosta, Flávio resiste e o sigilo entra na reta final

Política e Resenha · Segundo turno 2026 · Plantão de pesquisas

Duas pesquisas, dois retratos dentro da margem de erro e um fato novo que mexe com a narrativa: como o Política e Resenha acompanha os números em tempo real.

Por Carlos Josaphat · 20 de outubro de 2026


Quem acompanha o Política e Resenha sabe que a nossa regra é simples: não esperar a eleição passar para contar o que os números estavam dizendo. Nesta reta final do segundo turno, com cinco dias até as urnas de 25 de outubro, o quadro merece leitura atenta. Duas pesquisas divulgadas quase ao mesmo tempo mostram Flávio Bolsonaro e Lula separados por poucos pontos, ambas dentro da margem de erro. Mas uma delas traz algo que não aparece em foto parada: movimento. E movimento, em campanha, vale mais do que a posição.

Some a isso um fato novo, a decisão de Lula de abrir os próprios sigilos e desafiar o adversário a fazer o mesmo, e temos uma semana final menos previsível do que parecia. Vamos aos dados, depois às minhas opiniões, que ficam claramente separadas dos números.

Nexus/BTG: a diferença caiu de 3,2 para 0,6

O Instituto Nexus, contratado pelo Banco BTG Pactual, tem feito levantamentos a cada quatro ou cinco dias. O mais recente foi a campo entre 16 e 18 de outubro, com 2.002 eleitores e margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Nos votos válidos, Flávio aparece com 50,3% e Lula com 49,7%: vantagem de 0,6 ponto, empate técnico.

O que chama atenção é a trajetória. No levantamento anterior, a vantagem de Flávio era de 3,2 pontos (51,6% a 48,4%). Em votos válidos o jogo é de soma zero: Flávio perdeu 1,3 ponto, Lula ganhou 1,3, e a distância encurtou 2,6 pontos em poucos dias.

Gráfico 1 — Nexus/BTG: votos válidos (%)
Levantamento anterior x levantamento de 16 a 18/10
Flávio (antes)
51,6
Lula (antes)
48,4
Flávio (agora)
50,3
Lula (agora)
49,7

Barras em escala proporcional ao valor. Fonte: Instituto Nexus/BTG Pactual.

Gráfico 2 — A vantagem de Flávio em pontos percentuais (votos válidos)
Levantamento anterior x levantamento de 16 a 18/10
3,2
Antes
0,6
Agora

Queda de 2,6 pontos na vantagem em poucos dias. Fonte: Instituto Nexus/BTG Pactual.

Se esse ritmo se mantivesse de forma linear, a ultrapassagem aconteceria antes mesmo do dia da votação, e é isso que a própria série do instituto sugere. Faço aqui a ressalva de quem leva número a sério: extrapolar duas medições é um exercício de aritmética, não uma previsão. Tendência existe, mas ela pode desacelerar, estabilizar ou se reverter. O que não se pode negar é a direção da curva.

Votos totais: onde moram os 2,9% que decidem

Quando se incluem brancos, nulos e indecisos, o retrato é o mesmo, com a mesma diferença de 0,6 ponto: Flávio com 46,5% e Lula com 45,9%. Brancos e nulos somam 4,7%, e os indecisos, 2,9%.

Gráfico 3 — Nexus/BTG: votos totais (%)
Flávio
46,5
Lula
45,9
Branco/nulo
4,7
Indecisos
2,9

Barras em escala proporcional ao valor. Fonte: Instituto Nexus/BTG Pactual.

Minha leitura é que dificilmente alguém que hoje declara voto em Lula migra para Flávio, ou o contrário. Quem decide a eleição é esse pequeno grupo de indecisos, mais os brancos e nulos que ainda podem se mexer. Em eleição apertada, 2,9% não é detalhe estatístico: é o campo de batalha.

Real Time Big Data: Flávio 48%, Lula 45%

O segundo retrato vem do Real Time Big Data, que ouviu 2.000 eleitores entre 15 e 19 de outubro, também com margem de erro de dois pontos. Flávio tem 48%, Lula 45%, com 5% de brancos e nulos e 2% de indecisos. Três pontos de diferença, no limite da margem.

A comparação com a rodada anterior do instituto, ainda no primeiro turno, é instrutiva: Flávio avançou dois pontos e Lula ficou estável. Lá atrás o instituto apontava vantagem de um ponto para Flávio, e o resultado real do primeiro turno foi uma vitória dele por dois. Agora a vantagem estimada é de três.

Gráfico 4 — Real Time Big Data: intenção de voto (%)
Flávio
48
Lula
45
Branco/nulo
5
Indecisos
2

Barras em escala proporcional ao valor. Fonte: Real Time Big Data, 15 a 19/10, 2.000 entrevistas, margem de erro de 2 p.p.

As duas pesquisas não se contradizem: uma mostra o ponto de chegada, a outra mostra a velocidade. Em eleição apertada, é a velocidade que assusta quem está na frente.

Rejeição: o voto contra segue mandando

O Real Time Big Data mede a rejeição de Lula em 35% e a de Flávio em 33%. Parece pouco perto dos números de outros institutos, que chegam a 49% ou 50% de rejeição para cada lado, mas aqui a pergunta foi diferente: quem rejeita ambos? Resposta: 28% do eleitorado. Apenas 4% dizem não rejeitar nenhum dos dois.

Gráfico 5 — Rejeição (%)
Rejeita Lula
35
Rejeita Flávio
33
Rejeita ambos
28
Não rejeita nenhum
4

Barras em escala proporcional ao valor (máximo de 40%). Fonte: Real Time Big Data.

É a prova numérica de algo que repito há tempos: há quem vote em Flávio porque rejeita Lula, e há quem vote em Lula porque rejeita Flávio. Mais de um quarto do país rejeita os dois e decide o voto pelo critério do mal menor, por uma rejeição um pouco menor de um nome ou de outro. Nesse cenário, qualquer fato que eleve a rejeição de um lado pesa mais do que um programa de governo.

Voto definido e fidelidade do eleitor

Segundo o Real Time Big Data, 93% dos entrevistados dizem que o voto está definido e 7% ainda não. Entre os eleitores de Flávio, 94% afirmam que não mudam de jeito nenhum, 4% dizem que dificilmente mudariam e 2% admitem trocar para Lula. Entre os eleitores de Lula, 90% não mudam, 7% dificilmente mudariam e 3% podem migrar para Flávio.

Gráfico 6 — Chance de mudar o voto (% dos eleitores de cada candidato)
Eleitor de Flávio
94% não muda 4 2
Eleitor de Lula
90% não muda 7 3
Em cada barra: “não muda de jeito nenhum”, “dificilmente mudaria” e “pode mudar”, nessa ordem.

Fonte: Real Time Big Data.

Este instituto capta uma fidelidade maior no eleitor de Flávio. Outros levantamentos, como me recordo de alguns, captaram o inverso. A diferença é metodológica, e é um bom lembrete de por que nenhum instituto isolado deve ser tratado como oráculo.

As pautas que o eleitor aprova

A pesquisa também testou propostas. O apoio é amplo em todas, e isso diz mais sobre o humor do país do que sobre qualquer candidato.

Gráfico 7 — Percentual a favor de cada proposta
Reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos
90%
Tirar do presidente a indicação de ministros do STF
85%
Cinco novos presídios federais de segurança máxima
82%
Reduzir em ao menos 10 o número de ministérios
80%
Classificar facções como organizações narcoterroristas
66%

Barras em escala proporcional (100% = largura total). Contrários: 7% (maioridade penal), 7% (STF) e 14% (presídios). Fonte: Real Time Big Data.

Dois comentários. Primeiro: com o STF tão desgastado diante da opinião pública, qualquer pergunta que sugira mudar a relação com a Corte tende a colher apoio, seja quem for o presidente. Segundo: o apoio de 80% ao corte de ministérios dialoga com um problema real de qualquer governo, o de criar pastas e secretarias para acomodar aliados. Há ministérios que existem mais como status do que como política pública, e basta olhar o orçamento de alguns para perceber a distância entre o cargo e a capacidade de entregar.

Já a classificação de facções como organizações narcoterroristas é a que mais me preocupa, justamente a de menor apoio entre as testadas (66%). Muita gente, movida pela insegurança, acha que vale tudo. Não vale. Ao enquadrar o crime organizado como terrorismo, o problema deixa de ser apenas nosso e passa a ser tratado como ameaça global, o que abre espaço para ampliar a intervenção de outros países, os Estados Unidos à frente, em território brasileiro. Sou radicalmente contra, e dizer isso não faz de ninguém defensor de bandido: faz de nós defensores da soberania.

Síntese dos números

Nexus/BTG (16 a 18/10): Flávio 50,3% x Lula 49,7% nos válidos; a vantagem caiu de 3,2 para 0,6 ponto.

Real Time Big Data (15 a 19/10): Flávio 48% x Lula 45%; Flávio subiu 2 pontos desde o primeiro turno.

Leitura conjunta: empate técnico nas duas, com Flávio ligeiramente à frente e Lula com a tendência mais forte no Nexus. Os decisivos são os 2% a 7% de indecisos e a parcela que rejeita os dois candidatos.

O fato novo: Lula abre o sigilo e cobra Flávio

Anunciada no debate, a atitude ganhou forma nesta segunda-feira (19): Lula disse que entregaria ao TSE uma autorização para a quebra de seus sigilos telefônico e bancário e dos de sua família. E cobrou do adversário o mesmo gesto, estendendo o desafio ao irmão, Eduardo Bolsonaro, já que o sigilo do pai, Jair Bolsonaro, está nas mãos da Justiça. A pergunta que fica no ar é simples: topa ou não topa?

Não sei se o gesto muda a eleição. Mas tenho convicção de que ele favorece uma narrativa que prejudica Flávio, e não vejo como possa lhe ser benéfico. Há motivos para isso.

1. Inverte o ônus da prova. Durante anos, o eleitor de Lula ouviu a cobrança de “cadê o corrupto?”. Agora quem tem o argumento na ponta da língua é o apoiador de Lula: meu candidato abriu os sigilos, e o seu? Está temendo alguma coisa?

2. Atinge a rejeição, que é o campo onde a eleição está sendo decidida. Com 28% rejeitando os dois nomes, qualquer episódio que reforce a percepção de transparência de um lado e de esquiva do outro pode deslocar os poucos votos que ainda se movem.

3. Reabre uma memória incômoda. Quando as investigações chegaram perto de Flávio, lá atrás, houve a leitura de que o governo Bolsonaro mexeu em órgãos de controle para proteger o filho, o que o então ministro Sergio Moro apontou na época, antes de se reaproximar do bolsonarismo. O desafio de Lula traz o assunto de volta ao noticiário na pior hora possível para Flávio.

4. Cria um fato diário nas redes. Cada dia sem resposta é um dia de pergunta repetida. A reta final vai se encher de cobranças, e quem só tem o “não” ou o silêncio para oferecer fica na defensiva.

Reforço: é uma opinião, e não um dado. O gesto pode produzir pouco efeito sobre eleitores já definidos, e os números mostram que a esmagadora maioria está. Mas eleição decidida por 2% ou 3% de indecisos costuma ser decidida justamente por esse tipo de detalhe.

O que o leitor deve observar até domingo

Três coisas: a próxima rodada do Nexus, para saber se a curva de Lula se mantém ou se apenas oscilou; a resposta, ou a ausência de resposta, de Flávio ao desafio do sigilo; e as demais pesquisas, que permitirão separar tendência de ruído. O Política e Resenha continua acompanhando cada divulgação e trazendo os números com a fonte, a margem de erro e a metodologia à vista, sem torcida na conta, ainda que com opinião declarada nas colunas.

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Padre Carlos

Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha