Política e Resenha

O COLAPSO DA OPOSIÇÃO BAIANA: UMA AMEAÇA À NOSSA DEMOCRACIA

 

 

 

É com profunda preocupação cívica que observo o atual cenário político da Bahia. O que testemunhamos não é apenas uma dança de cadeiras ou meras articulações políticas — é o gradual desmantelamento de um pilar fundamental da nossa democracia: a oposição.

Quando prefeitos de cidades do porte de Feira de Santana e Jequié, historicamente pilares da oposição, ensaiam movimentos de aproximação com o governo estadual, precisamos refletir sobre as consequências deste fenômeno para além das conveniências políticas momentâneas.

José Ronaldo, em seu quinto mandato como prefeito de Feira de Santana, parece agora flertar com o governo de Jerônimo Rodrigues. Simultaneamente, Zé Cocá, de Jequié, reaproxima-se de Rui Costa após o rompimento de 2022. O que está em jogo aqui não são apenas as carreiras políticas destes gestores, mas o próprio equilíbrio democrático do estado.

A fragilização da oposição e seus efeitos

Se confirmado o abandono de ACM Neto por estes importantes quadros, o que restará da oposição baiana? Uma estrutura esvaziada, sem capilaridade nos grandes centros do interior e, consequentemente, sem a força necessária para exercer seu papel fiscalizador e propositivo.

Não podemos normalizar uma democracia de fachada! Uma oposição fraca significa um governo sem vigilância efetiva, sem contrapontos necessários, sem o saudável embate de ideias que aprimora políticas públicas. É como um jogo de futebol com apenas um time em campo — previsível, monótono e tendente ao autoritarismo.

O pragmatismo que sufoca o debate

É compreensível que prefeitos busquem proximidade com governos estaduais visando benefícios para seus municípios. Entretanto, quando esta relação ultrapassa o institucional e se converte em alinhamento político, corremos o risco de transformar o estado em um imenso curral eleitoral, onde convicções ideológicas e projetos alternativos de governo são sacrificados no altar das conveniências.

Zé Cocá declarou: “Nunca vou dizer que dessa água não beberei. Quem ajudar Jequié, com certeza terá nosso reconhecimento.” Esta declaração, embora pragmática, revela uma visão utilitarista da política que ameaça o pluralismo democrático.

O dilema do PT: governar para todos ou para a base?

Ao mesmo tempo, o Partido dos Trabalhadores enfrenta seu próprio desafio: como conciliar os contrastes e os jogos de interesses em uma base cada vez mais heterogênea? A atração de quadros historicamente opositores, se por um lado fortalece numericamente o grupo governista, por outro cria uma colcha de retalhos ideológica de difícil gestão.

O PT, que construiu sua trajetória como força de oposição combativa, agora se vê no papel de absorver figuras com as quais disputou arduamente no passado. Esta dinâmica pode resultar em um governo sem coerência programática, movido apenas pela manutenção do poder a qualquer custo.

O papel do eleitor consciente

Cidadãos baianos, é hora de questionar: embarcaremos nesta onda de cooptação e enfraquecimento da oposição? Aceitaremos passivamente a consolidação de um estado politicamente homogêneo, onde o debate se esvazia e as alternativas desaparecem?

A responsabilidade recai sobre nós, eleitores. É preciso valorizar a coerência política, cobrar posicionamentos claros e rejeitar o pragmatismo oportunista que corrompe nosso sistema político. Precisamos resgatar o valor da oposição responsável, que fiscaliza sem obstruir, que critica com propósito construtivo.

Resistência

Em meio ao preocupante cenário de enfraquecimento da oposição na Bahia, dois nomes emergem como símbolos de resistência à política de cooptação do governo estadual: Bruno Reis, prefeito de Salvador, e Sheila Lemos, prefeita de Vitória da Conquista.

Enquanto figuras históricas da oposição, como José Ronaldo de Feira de Santana e Zé Cocá de Jequié, flertam com o governo de Jerônimo Rodrigues e Rui Costa, sacrificando convicções em nome de pragmatismo, Reis e Lemos mantêm-se firmes em suas posições. Eles honram as aspirações de seus eleitores e as bandeiras pelas quais foram eleitos, rejeitando pressões para se alinhar ao poder estadual em troca de benefícios.

Essa postura não só preserva a essência de uma oposição vigilante e necessária ao equilíbrio democrático, mas também oferece um contraponto ao risco de homogeneização política, reacendendo a esperança de um debate plural e robusto que fortaleça a democracia baiana.

Por uma democracia plena e vibrante

Uma democracia saudável necessita de alternância de poder, de pluralismo de ideias e de instituições fortes. Quando a oposição se fragiliza, toda a sociedade perde. O governo perde o estímulo para aprimorar suas políticas, a imprensa perde sua capacidade fiscalizadora e o cidadão perde seu poder de escolha.

A Bahia merece mais que um jogo de cartas marcadas. Merece um debate político vigoroso, onde diferentes projetos de estado possam ser apresentados e discutidos com transparência e respeito às diferenças.

Precisamos, com urgência, resgatar o valor da política como instrumento de transformação social, e não como mera ferramenta de perpetuação no poder. A democracia baiana precisa de oxigênio, e este só virá de uma oposição atuante, propositiva e coerente.

O caminho é árduo, mas necessário. Nosso compromisso com as futuras gerações exige que não nos conformemos com menos que uma democracia plena, vibrante e autêntica.

Padre Carlos