A máxima popular “Fulano fez força, e Beltrano foi quem ficou vermelho” sintetiza de forma irônica a realidade política baiana, onde o esforço das comunidades frequentemente é ignorado em prol de interesses geopolíticos e decisões centralizadoras. A duplicação da BR-116 – em especial o trecho entre Jequié e Jaguaquara – ilustra esse paradoxo doloroso, evidenciando como a escolha por certas regiões pode excluir demandas igualmente urgentes de outras áreas.
1. A Duplicação da BR-116: Entre Promessas e Esquecimentos
O governador Jerônimo Rodrigues tem destacado a duplicação da BR-116 como prioridade, justificando o investimento pela necessidade de reduzir o elevado índice de acidentes no perigoso trecho entre Jequié e Jaguaquara. Embora os argumentos técnicos em prol da segurança viária sejam incontestáveis, a realidade mostra que outras regiões, como o trecho de Belo Campo a Planalto, permanecem esquecidas. Enquanto processos de desapropriação avançam no Mutum, as vozes das comunidades que clamam por melhorias ficam silenciosas – um claro exemplo de que a “força” local não se converte em visibilidade política.
2. Jequié no Centro do Palco: Geopolítica e Escolhas Estratégicas
A centralização dos investimentos em Jequié revela uma estratégia que vai além das necessidades técnicas. Ao posicionar essa região como eixo logístico entre o sertão e o litoral, o governo parece privilegiar critérios geopolíticos que, inadvertidamente, impõem um custo social elevado. Essa escolha intensifica o paradoxo: enquanto uma área recebe atenção e recursos, outras igualmente necessitadas, como Belo Campo e Planalto, ficam à margem. O resultado é uma disparidade que perpetua desigualdades históricas e desvaloriza o esforço das comunidades que lutam por dignidade e inclusão.
4. O Preço da Desarticulação Comunitária
Movimentos sociais e lideranças locais, que há anos mobilizam suas comunidades por infraestrutura de qualidade, veem seus apelos serem engolidos por uma gestão que adota um discurso centralizador e excludente. A falta de transparência nos processos de licitação e a tolerância com práticas que favorecem empresas sem histórico de compromisso sério com a população aumentam a sensação de abandono. Assim, o esforço de grupos organizados – o verdadeiro “Fulano” – é ofuscado, deixando os “Beltranos” das regiões esquecidas em plena evidência do constrangimento e da exclusão.
5. Por Uma Política de Inclusão
Para romper com esse ciclo de favorecimento e exclusão, é imperativo que o poder público adote um modelo de gestão que valorize todas as vozes. Algumas medidas essenciais incluem:
- Planejamento Participativo: Integrar representantes das comunidades afetadas em todas as fases do projeto, garantindo que suas demandas sejam ouvidas e atendidas.
- Transparência Total: Divulgar cronogramas, critérios técnicos e os detalhes dos processos licitatórios para que a população possa acompanhar e fiscalizar os investimentos.
- Fiscalização Rigorosa: Implementar mecanismos de controle que garantam o cumprimento dos prazos e a qualidade das obras, penalizando desvios e práticas abusivas.
- Equilíbrio Regional: Redistribuir os investimentos de maneira justa, de forma que todas as áreas que dependem da BR-116 recebam a devida atenção.
Conclusão: O Vermelho Como Sinal de Alerta
O ditado “Fulano fez força, e Beltrano foi quem ficou vermelho” não precisa ser uma sentença imutável. Ele pode – e deve – servir como um alerta para que as prioridades políticas sejam repensadas. Enquanto a duplicação da BR-116 avança em determinadas áreas, o descaso com outras comunidades reforça um ciclo de exclusão que mina a credibilidade do poder público. Reconhecer e valorizar o esforço local é fundamental para que o progresso se traduza em justiça territorial, onde cada região receba sua parcela de desenvolvimento. Só assim, o vermelho deixará de ser o símbolo do constrangimento e se transformará no catalisador de uma nova era de inclusão e equidade na Bahia.