Política e Resenha

REFLEXÃO LITÚRGICA · ANO A · 12 DE ABRIL DE 2026 DOMINGO DA DIVINA MISERICÓRDIA — JO 20,19–31 Deus Nos Faz Seus Discípulos e Nos Assegura Sermos Bem-Aventurados


Reflexão Litúrgica · Ano A · 12 de Abril de 2026

Domingo da Divina Misericórdia — Jo 20,19–31

Deus Nos Faz Seus Discípulos
e Nos Assegura Sermos Bem-Aventurados

por Padre Carlos

Imagine uma sala fechada. Janelas trancadas. Corações apertados. O cheiro do medo misturado ao da saudade. Lá fora, Jerusalém segue seu ritmo, indiferente à maior reviravolta da história da humanidade. E aqui dentro, homens e mulheres que viram o impossível acontecer — ainda assim, tremem.

É nesse cenário — tão humano, tão nosso — que a liturgia deste Segundo Domingo do Tempo Pascal nos conduz. O cenáculo não é apenas uma sala da Palestina do primeiro século. É cada quarto onde a hesita, cada coração onde a esperança vacila, cada comunidade que, no Brasil ou no mundo, sente o peso da dúvida e do isolamento.

A democracia do medo não conhece fronteiras. Ela se instala nos sistemas políticos, nas estruturas de poder, nas relações sociais — e, sim, também nas almas. Os apóstolos, com a porta trancada “por medo dos judeus” (Jo 20,19), nos ensinam algo que nenhum manual de ciência política explica com tanta precisão: o medo paralisa, fecha, isola. Só o encontro com o Ressuscitado liberta.

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O Nascimento de Uma Igreja — e de Uma Sociedade

A primeira leitura, retirada dos Atos dos Apóstolos (2,42–47), é um retrato tão vívido quanto perturbador — não porque seja utópico, mas porque é possível. Aquela comunidade primitiva perseverava na , na fraternidade, no partir do pão e na oração. Vendia bens e os repartia segundo a necessidade de cada um. Crescia em número e em graça.

Lendo esse texto num país como o Brasil — marcado pela desigualdade profunda, pela erosão das instituições e pela crise de confiança que corrói o tecido social —, não é possível não sentir um aperto no peito. A fórmula que a Escritura nos apresenta para a construção de uma comunidade viva contrasta, dolorosamente, com o individualismo que nos fragmenta, com a violência que nos amedronta, com a injustiça que se perpetua geração após geração.

E, no entanto — e aqui está o coração pulsante desta reflexão —, a Igreja nasceu exatamente no meio do caos. Não depois que tudo se resolveu. Não numa era de paz e prosperidade. Nasceu no calor da perseguição, na dor da perda, no susto da novidade. Se a koinonía — a comunhão cristã primitiva — sobreviveu àquela tempestade, é porque havia algo que nenhuma estrutura de poder conseguiu eliminar: a presença viva do Ressuscitado.

“A paz esteja convosco.” Não foi uma saudação protocolar. Foi um diagnóstico e um remédio ao mesmo tempo. Jesus sabia o que havia naquele quarto. Sabia o que há em cada um de nós.

Tomé Somos Nós — A Dúvida Como Caminho

Há uma injustiça histórica com Tomé. Chamado de “incrédulo” pelos séculos, ele é, na verdade, o mais honesto dos apóstolos. Ele simplesmente diz o que muitos pensam e poucos ousam confessar: “Se eu não ver… se eu não tocar… não acreditarei.”

Numa era de fake news, de memória coletiva manipulada, de narrativas construídas para servir ao poder, a postura de Tomé é quase uma virtude cívica. Exige evidências. Recusa o boato. Quer ver de perto, tocar de verdade. Em termos de democracia e pensamento crítico, isso tem um nome: responsabilidade epistêmica.

Mas há uma diferença crucial entre a dúvida que abre e a dúvida que fecha. A de Tomé era do primeiro tipo: ele duvidou, mas ficou. Ficou com os outros discípulos. Ficou na comunidade. Ficou disponível para o encontro. E quando Jesus veio, a ferida de Tomé se tornou portal: “Coloca o teu dedo aqui… coloca a tua mão no meu lado.”

As chagas de Jesus não são sinais de derrota. São o arquivo vivo da história do amor. Numa sociedade que tanta vez quer apagar as marcas do sofrimento — o sofrimento dos povos originários, das vítimas da crise, dos excluídos do sistema —, Jesus faz o oposto: mostra as feridas. Porque só quem não tem medo da própria dor pode curar a dor do outro.

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Discípulos — Não Espectadores

“Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio.” (Jo 20,21). Aqui reside o núcleo de toda esta liturgia — e, ousaria dizer, o núcleo de toda a existência cristã comprometida. Não fomos chamados para assistir à justiça do alto de um camarote. Fomos enviados para construí-la, com as mãos sujas de terra e os pés cansados de caminhada.

O Espírito que Jesus sopra sobre os apóstolos não é um ornamento litúrgico. É força operativa. É coragem para abrir as portas que o medo fechou. É discernimento para distinguir o que liberta do que aprisiona. É a energia que transforma uma comunidade de fugitivos em testemunhas do Ressuscitado diante do mundo inteiro.

No Brasil de hoje — com suas polarizações, suas feridas sociais abertas, seu clamor por uma democracia que seja mais do que um rito eleitoral —, esse Espírito nos convoca. Convoca a Igreja a ser, de fato, comunidade que parte o pão com os famintos, que acolhe o excluído, que denuncia o abuso do poder com a mesma clareza com que anuncia o Evangelho.

Bem-aventurados os que não viram e creram — mas também os que, tendo crido, foram ver. Foram ao encontro. Foram à periferia. Foram onde dói.

Meu Senhor e Meu Deus — O Grito que Muda Tudo

Quando Tomé toca as chagas de Jesus e exclama “Meu Senhor e meu Deus!”, ele não está apenas confessando uma crença teológica. Está escolhendo uma lealdade. Está dizendo: não é o Império, não é o sistema, não é o medo — é Este que governa minha vida.

Essa é a confissão mais subversiva que um ser humano pode fazer numa época onde tantos altares falsos disputam nossa devoção — o altar do consumo, o altar da ideologia, o altar do ressentimento, o altar do espetáculo. Dizer “meu Senhor e meu Deus” a Jesus Ressuscitado é recusar todos os outros senhores.

E é exatamente aí — nesse ato de reconhecimento, de entrega, de pertença — que nos tornamos Seus discípulos. Não porque somos perfeitos. Não porque nunca duvidamos. Não porque nunca trancamos a porta por medo. Mas porque, mesmo assim, ficamos. Esperamos. E quando Ele apareceu, dissemos sim.

Que neste Domingo da Divina Misericórdia, o Ressuscitado encontre a porta do nosso coração — mesmo que esteja fechada por dentro. Que Ele entre, como só Ele sabe. Que sopre sobre nós Seu Espírito. Que mostre Suas chagas para que não tenhamos medo das nossas. E que, tocados por Sua presença, possamos responder com Tomé — e com toda a nossa vida:

“Meu Senhor e Meu Deus!”

Padre Carlos

Sensibilidade · Consciência · Humanidade

Palavras-chave: Domingo da Divina Misericórdia, João 20, ressurreição, fé, Igreja, Brasil, democracia, justiça, memória, poder, sociedade, discípulos, bem-aventurados, Tomé, Espírito Santo, política, crise, comunidade cristã.