Política e Resenha

Título: “O Mosaico da Existência: Memórias que Tecem o Ser” 

 

 

 

Por Padre Carlos 

Há uma frase do filósofo que ecoa em mim como um mantra: “Foram a soma de todos os sim e não que demos ao longo da nossa vida que constituiu a pessoa que sou hoje”. Não há síntese mais honesta para definir a jornada humana. Somos feitos de escolhas, encontros, quedas e reinvenções. E, como um aprendiz da escrita e da vida, decidi compartilhar fragmentos dessa tessitura — não por vaidade, mas pela crença de que nossas histórias, quando narradas, podem ressoar em outras almas. 

Os Pilares que Forjam um Homem 

Em minha trajetória, quatro pilares sustentam o que sou: a família, os amigos, a Igreja e a Política. Não são meros capítulos isolados, mas fios entrelaçados que formam o tecido de minha identidade. A família, raiz primeira, ensinou-me a linguagem do afeto. Os amigos, irmãos escolhidos, mostraram-me que a lealdade é um verbo. A Igreja, com seus carismas e contradições, guiou-me para uma fé que não se enclausura, mas caminha nas ruas. A Política, com suas lutas e utopias, despertou em mim a consciência de que ela é, antes de tudo, serviço. 

O Encontro que Redefiniu um Destino 

Há momentos em que a vida nos lança uma bóia. Para mim, essa bóia teve nome: Gisa e o MFraC. Na juventude, quando as incertezas pareciam nuvens densas, aquele grupo — e a Igreja renovada que representava — trouxe luz. Não era uma fé de repetições mecânicas, mas um cristianismo pulsante, que abraçava o humano em suas dores e delícias. Foi ali que um jovem do Nordeste de Amaralina (Areal), entre becos e sonhos, encontrou propósito. A espiritualidade deixou de ser um refúgio para tornar-se um chamado à ação. 

As Vidas Dentro de Uma Vida 

Nostalgia é a arte de revisitar o passado sem aprisioná-lo. Recordo-me das ruas da Pituba, do Nordeste de Amaralina, das missas na Paróquia Santo André, dos debates na CVX. Cada lugar guarda uma versão de mim: o menino curioso, o jovem rebelde, o sonhador que acreditava no amor como revolução. E quantas almas cruzaram meu caminho! Amores que foram estações, amigos que se tornaram faróis, mestres que me ensinaram que ensinar também é aprender. A memória, é verdade, é seletiva: guardamos o que nos comove. A dor de uma perda, o êxtase de um reencontro, o sabor amargo das despedidas. Tudo isso se funde em nós, como rios que alimentam o mesmo mar. 

O Coração que Cresceu 

Por anos, carreguei a ilusão de que meu coração estava dividido: Salvador, com suas raízes ancestrais, e Vitória da Conquista, terra que me acolheu na maturidade. Aos poucos, entendi que o coração não se parte — expande-se. Nele cabem as irmãs que me viram crescer, os amigos de infância que compartilharam segredos sob as areias da praia da Pituba, a esposa e filhas que hoje são meu porto seguro. Vitória da Conquista tornou-se meu Monte Tabor, lugar de transfiguração, onde laços se renovaram e o espírito encontrou novos horizontes. 

A Roda da Vida: Nada se Perde, Tudo se Transforma 

Na roda da existência, não há fragmentos descartáveis. Cada fase, cada “sim” ou “não”, cada riso e lágrima, moldam o vaso de argila que somos. E mesmo as perdas, quando revisitadas, revelam-se lições disfarçadas. Hoje, olho para trás sem o peso da culpa ou o véu da idealização. Aceito que fui — e ainda sou — um sonhador em constante aprimoramento, um articulista aprendiz que escreve não para fixar verdades, mas para partilhar perguntas. 

Epílogo: A Crônica como Legado 

Se um dia estas linhas chegarem a você, leitor, saiba que elas são mais que recordações. São testemunhos de que a vida, em sua complexidade, é bela justamente por ser imperfeita. Que suas próprias memórias, suas “vidas passadas” em fases, sejam celebradas com generosidade. E lembre-se: não há destino final, apenas caminhos que se entrelaçam. Afinal, como diria o poeta, “somos feitos de tempo” — e de histórias que, um dia, ganharão asas. 

Padre Carlos
Um homem sonhador e eterno aprendiz das letras e da vida.