{"id":16316,"date":"2025-03-14T10:42:21","date_gmt":"2025-03-14T13:42:21","guid":{"rendered":"https:\/\/politicaeresenha.com.br\/?p=16316"},"modified":"2025-03-14T10:42:21","modified_gmt":"2025-03-14T13:42:21","slug":"amigas-alem-do-tempo-uma-cronica-sobre-afeto-e-eternidade-padre-carlos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/politicaeresenha.com.br\/amigas-alem-do-tempo-uma-cronica-sobre-afeto-e-eternidade-padre-carlos\/","title":{"rendered":"Amigas Al\u00e9m do Tempo: Uma Cr\u00f4nica Sobre Afeto e Eternidade (Padre Carlos)"},"content":{"rendered":"
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Era uma tarde dessas que o sol resolve dar um show, sabe? O c\u00e9u todo laranja, quase vermelho, como se algu\u00e9m tivesse derramado tinta sem querer. Eu tava l\u00e1, sentada na beira do rio, os p\u00e9s balan\u00e7ando perto da \u00e1gua, que corria devagarinho, sem pressa nenhuma. O vento soprava leve, trazendo aquele cheiro gostoso de terra molhada \u2014 igual quando eu era pequena e corria no quintal da v\u00f3 depois da chuva. E a\u00ed, do nada, no meio daquele sil\u00eancio cheio de barulhinhos \u2014 a \u00e1gua, os passarinhos \u2014, a saudade bateu. Bateu forte, tipo um soco que voc\u00ea n\u00e3o espera.<\/p>\n
Pensei na Clara, minha amiga de sempre. Aquela que me conhece de cabo a rabo e mesmo assim ainda gosta de mim. A gente cresceu grudada, correndo pelo campo com o cabelo voando, os p\u00e9s pretos de terra, rindo de qualquer bobagem. \u00c0 noite, quando a lua aparecia redonda e brilhante, sem nuvem pra atrapalhar, a gente deitava na grama e ficava inventando hist\u00f3ria pras estrelas. Clara jurava que a mais brilhante era a nossa estrela da sorte. Eu acreditava, claro, porque com ela tudo parecia dar certo.<\/p>\n
Mas a vida, n\u00e9? Ela tem esse jeitinho chato de separar as pessoas. Clara foi embora pra uma cidade grande, cheia de pr\u00e9dio e buzina, pra virar m\u00e9dica \u2014 o sonho dela desde que a gente assistiu Patch Adams<\/em> juntas e ela disse que queria ajudar gente de verdade. Eu fiquei aqui, na nossa cidadezinha onde todo mundo se conhece pelo apelido e o tempo anda devagar. No come\u00e7o, era liga\u00e7\u00e3o todo dia, mensagem de boa noite, mas a\u00ed, aos poucos, a coisa foi esfriando. As conversas ficaram curtas, tipo \u201ct\u00e1 tudo bem?\u201d, e a saudade s\u00f3 aumentou, danada que \u00e9.<\/p>\n Tem dia que eu coloco aquele filme bobo que a gente amava, uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica que j\u00e1 sei de cor \u2014 o mocinho trope\u00e7ando na rua, a gente rindo at\u00e9 a barriga doer. Agora eu vejo sozinha, mas juro que escuto a risada dela, meio rouca, meio desengon\u00e7ada, ecoando no quarto. Ou quando toca Garota de Ipanema<\/em> no r\u00e1dio \u2014 a gente cantava desafinado no karaok\u00ea da esquina \u2014, eu fecho os olhos e quase vejo ela dan\u00e7ando, sem ligar pra quem tava olhando. \u00c9 uma mistura esquisita, sabe? Saudade que d\u00f3i, mas que tamb\u00e9m faz bem.<\/p>\n Nessa tarde, com o sol se escondendo e o c\u00e9u pegando fogo, o vento parecia trazer a voz dela, rindo de alguma piada idiota que s\u00f3 a gente pegava. A saudade apertava o peito, mas tamb\u00e9m aquecia, porque lembrar dela \u00e9 bom demais. Eu via a gente em volta da fogueira, o fogo estalando, o rosto quente, contando hist\u00f3rias at\u00e9 o dia clarear. O cora\u00e7\u00e3o ficava cheio, mesmo estando t\u00e3o vazio.<\/p>\n A vida seguiu girando, claro. Clara casou, teve dois filhos \u2014 um menino sapeca e uma menina teimosa, que ela jura que puxou o pai, mas eu sei que \u00e9 o jeitinho dela. Eu fui por outro caminho: terminei a faculdade de letras, comecei a dar aula pras crian\u00e7as da escolinha aqui, e at\u00e9 escrevi um livrinho de poesia. Clara disse que \u00e9 o melhor que ela j\u00e1 leu, mas eu sei que \u00e9 papo de amiga, aquele carinho que n\u00e3o tem pre\u00e7o. A dist\u00e2ncia nunca apagou o que a gente tinha. Amizade de verdade \u00e9 assim, n\u00e9? N\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o, ela fica ali, quietinha, esperando a hora de voltar.<\/p>\n E essa hora chegou do jeito mais inesperado. Numa ter\u00e7a qualquer, o celular tocou, e era ela, a voz tremendo: \u201cT\u00f4 indo a\u00ed visitar a fam\u00edlia, topa me encontrar no rio?\u201d. Meu cora\u00e7\u00e3o disparou tanto que nem sei como respondi. S\u00f3 sei que disse sim, \u00f3bvio.<\/p>\n Quando a gente se viu, foi como se o tempo tivesse dado um looping. Nos abra\u00e7amos forte, daquele jeito que diz tudo sem precisar de palavra. Sentamos na margem, jogando pedrinha na \u00e1gua como antigamente, e as hist\u00f3rias vieram aos trope\u00e7os no come\u00e7o, mas logo estavam saindo f\u00e1cil, como sempre. Ela falou dos filhos, que j\u00e1 t\u00e3o grandinhos, eu contei do meu sonho louco de viajar pra It\u00e1lia \u2014 quem sabe um dia, n\u00e9? \u2014 e rimos da vez que tentamos fazer bolo e quase botamos fogo na casa.<\/p>\n Teve choro tamb\u00e9m, porque a saudade guardada por tanto tempo transborda quando encontra um fim. Mas era choro bom, que lava a alma. Ali, com o rio passando e o sol se pondo de novo, eu saquei que amizade \u00e9 esse tesouro raro que a gente carrega dentro da gente. N\u00e3o precisa de WhatsApp todo dia nem de promessa exagerada. Ela vive nas mem\u00f3rias, nas risadas que ainda ecoam, na certeza de que, por mais que a vida vire de cabe\u00e7a pra baixo, a gente sempre se acha.<\/p>\n Enquanto o c\u00e9u ficava roxo, a gente prometeu n\u00e3o deixar o tempo nos roubar tanto. A vida que leve a gente pra onde for, mas o caminho de volta a gente sempre encontra. Porque amizade \u00e9 isso: um fio invis\u00edvel que segura a gente, mesmo quando tudo mais parece solto. E, com um sorriso meio bobo, eu agradeci baixinho pro vento: \u201cValeu, Deus, pelos amigos. Eles s\u00e3o o maior presente que tem.\u201d<\/p>\n Dando continuidade a ora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":" Era uma tarde dessas que o sol resolve dar um show, sabe? O c\u00e9u todo laranja, quase vermelho, como se algu\u00e9m tivesse derramado tinta sem querer. Eu tava l\u00e1, sentada na beira do rio, os p\u00e9s balan\u00e7ando perto da \u00e1gua, que corria devagarinho, s<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":16317,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[3],"class_list":["post-16316","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-literaria","tag-destaque"],"yoast_head":"\n